A fogueira da praceta

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A minha terra é uma praceta, e a única tradição que havia na praceta era saltar a fogueira no Santo António. Sou da periferia de Lisboa. E quem é da periferia não tem terra, nem sequer de Lisboa é. Na melhor das hipóteses, podemos fingir ser um turista informado na Lisboa profunda, ou nas terras dos pais, mas sempre por afinidade, nunca de sangue, um parecer pertencer. No meu bairro, o Lumiar construído nos anos setenta, nenhuma daquelas crianças tinha terra, tínhamos a praceta.

As referências e tradições iam e vinham à pressa, juntando o que se ia ouvindo e apanhando da casa de cada um e das vilas e aldeias dos pais. Havia de tudo, muita África retornada a Lisboa que a encarava como mera paragem a caminho ou de regresso sabe-se lá para onde, muito Norte e muita Beira determinados a regressar um dia à terra, reconstruir dignamente com teto e chão e aquecimento casebres que já tinham sido suas casas, descansar; havia algum Centro, pouco Sul. Outros, mais pragmáticos, sabiam que nunca mais ia haver terra nenhuma, que dali em diante seria só aquilo ou no máximo Lisboa-Lisboa.

À volta deste Lumiar jovem e novo, esteticamente aberrante, misturado, em que a excelência e delinquência rimavam demasiadas vezes, havia verdadeiros bairros, de lata, tijolo e zinco (as Musgueiras, a Norte e a Sul, as Galinheiras, Calvanas, Cruz Vermelha). Nestes bairros, as tradições eram mais vivas, as terras mais presentes, mas as ligações entre nós e eles não abundavam. Aliás, a balcanização lumiarense também não permitia quaisquer relações com a recém-chegada Telheiras, que víamos assim como uma versão dos totós de Benfica com acesso a livros e a melancolia.

Tudo era uma praceta. E nessa praceta fazia-se uma fogueira na noite de Santo António. Começava-se nas semanas antes a roubar caixotes da fruta do Milho-Rei e de outras mercearias das redondezas. Os melhores caixotes eram os de madeira escura mais dura, usados de dia para dia e que os donos deixavam vazios, cá fora, de noite. Alertados pela pilhagem iminente, começavam a recolhê-los mais cedo, por isso o saque tinha de ser muitas vezes feito à luz do dia. Havia outros caixotes, de madeira mais leve, bons para atear, maus para manter. Era preciso ir buscar madeira às obras, tábuas, barrotes, paletes, o que não era difícil, tudo aquilo era um estaleiro de prédios novos, ruas novas, escolas novas. Equipamentos.

Durante a tarde da noite de Santo António juntava-se a madeira na praceta, saíam grupos à procura de mais. Tinha de durar a noite inteira, ou o que parecia ser uma noite inteira. Jantava-se em casa, ainda de dia. E depois iam descendo centenas de pirómanos e aprendizes. Os mais velhos davam ordens e nós, os mais novos, cumpríamos. Caixotes de papelão em baixo, caixotes de madeira fina, caixotes de madeira grossa e tábuas das obras em pirâmide. Era o primeiro fogo. Era preciso deixar pegar. Os mais afoitos saltavam logo que os primeiros barrotes abatiam, os mais novos a seguir. Há quatro variáveis importantes no salto da fogueira: a altura da lenha, a altura da chama, a temperatura da chama e o diâmetro da fogueira. É também preciso que não esteja ninguém na frente, porque normalmente se salta de olhos fechados, e ter cuidado para não escorregar ao aterrar, caindo para trás.

O cabelo ao passar por entre as chamas queimava-se e ficava-se com um cheiro a porco de matança. Podia-se evitar a chamusca, molhando o cabelo, mas não era a mesma coisa. Havia saltos duplos de mão dada e saltos duplos, triplos ou quádruplos cruzados, estes mais perigosos. As mães ficavam preocupadas, olhavam da janela, outras desciam a ver se nenhum rebento esturricava. O mais grave que me lembro de ter acontecido foi alguém ter espetado um prego num pé, que saía de uma das tábuas das obras.

O fogo dava vida para um ano. Passar por cima de fogo é coisa de purificação tão clara que precisa de pouca explicação etnográfica. No Ano Novo iraniano diz-se "Zardie man az to, sorkhie to az man" - quem salta a fogueira deixa nela a palidez e ganha uma corzinha saudável -, e encontrei na internet que no São João se diz esta quadra ao saltar com a criança pelas chamas: "Fogo no sargaço,/ Saúde no meu braço./ Fogo no rosmaninho,/ Saúde no meu peitinho."

Parece que anda tudo purificado por Lisboa, pois há anos que tento encontrar uma fogueira para saltar em Lisboa, e nada. E não tem que ver com os 400euro euros que custa a licença camarária para fazer uma fogueira de Santo António, tudo legalmente - tem que ver com estarmos todos cada vez mais longe da terra. Mas dizem-me que a Junta de Freguesia do Lumiar, e logo a do Lumiar, vai repor a tradição, como tem feito em tantas outras coisas, e juntar uma fogueira aos arraiais que tem feito no Largo do Paço do Lumiar, daqui até ao fim do mês. Que assim seja - lá estarei para arder.

Jurista

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