Numa manhã de 2003, quando saiu de casa em Madrid, João entrou numa igreja. Há muito tempo que não o fazia. Nesse dia, esteve lá muito tempo. Rezou. Falou com Deus e pediu-lhe ajuda para perceber que rumo dar à sua vida. No dia seguinte, demitiu-se do seu emprego - tinha um cargo de grande responsabilidade no banco Santander. Os colegas acharam que ele estava louco. "Foi uma decisão radical mas era aquela que Deus queria que eu tomasse", conta João Ermida, hoje com 52 anos..Batizado e educado como católico, "como toda a gente", João nunca foi uma pessoa ligada à Igreja. Desde os anos 1980 trabalhou em várias instituições financeiras. A carreira corria-lhe de vento em popa mas ele começou a ter muitas dúvidas em relação aos negócios em que se via envolvido. "Foi um processo que demorou muito tempo, eu não sabia o que fazer, não conseguia tomar nenhuma decisão", diz. "Pedi a Deus que me iluminasse."."Toda a gente ficou surpreendida. Eu próprio também fiquei. Não é fácil deixar uma carreira internacional em que se ganha milhões por ano." Teve de explicar a sua decisão: "Quero ser eu próprio. Quero fazer o que me dá prazer: escrever, ajudar em obras sociais, estar com a minha família, trabalhar sim, mas em coisas muito mais pequenas. Acima de tudo, o dinheiro deixou de ser um objetivo. Claro que quero ganhar dinheiro, mas o quanto baste para viver. Não preciso de ter carros topo de gama e não sei quantas casas.".Esta mudança visível na sua vida foi acompanhada de uma mudança espiritual, interior. "Houve uma aproximação a Deus. Passei a entender o mundo de outra forma, isto é tudo tão perfeito que não faz sentido se não houver um criador." Neste momento, João Ermida é vice-presidente de um centro social paroquial e deixou de viver centrado só em si. Todos os anos, faz retiros em Fátima, um lugar que sente como especial. O seu mais recente livro, Vem a Fátima Falar Comigo, é baseado na sua experiência como devoto de Nossa Senhora e nas "muitas conversas" que manteve com ela: "Posso não ir à missa todos os domingos, mas sou religioso todos os dias.".O dia em que Helena escreveu ao Papa.O chamamento da fé acontece em qualquer idade e não ocorre sempre da mesma maneira. "Geralmente, as pessoas estão muito resguardadas com as suas ideias e os seus preconceitos", explica o padre Vasco Pinto Magalhães. "Uma pessoa está instalada nas suas crenças - porque todos nós temos crenças, não há ateus, o ateísmo é uma forma de crença, acredita-se que não há nada. Ou então acredito que vou ser feliz trabalhando muito ou sendo rico. Mas há circunstâncias que quebram este invólucro que, afinal, é frágil." Pode ser a influência de uma pessoa, um testemunho, um livro, uma experiência, uma história - "qualquer coisa que nos toca, que nos provoca, que nos questiona". E é a partir desse questionamento - será que estou no caminho certo?, será que há outro caminho melhor? - que pode surgir o encontro com Deus. Há algo que mexe com a inteligência, com o afeto e com a vontade. "Por isso é que dizemos que a fé é da ordem da graça mas também é da ordem da liberdade, precisa de uma resposta.".Foi assim a história de Helena Lobato. Nasceu numa família sem tradição religiosa, não foi batizada nem nunca teve qualquer curiosidade pela religião. Um dia, a sua vida complicou-se bastante e Helena, que é pintora, começou a entrar numa fase de desespero. "Por mais que pensasse, não estava a conseguir resolver os meus problemas." No dia 13 de março de 2014 pôs-se a ver na televisão uma série de reportagens sobre o primeiro aniversário do pontificado do Papa Francisco. "Apareciam pessoas a dizer como ele as tinha tocado, como tinha mudado as suas vidas. E naquele momento algo me disse: escreve-lhe, que ele pode ajudar-te." Nesse momento, entrou "em piloto automático". Pegou em folhas brancas e escreveu, à mão, umas quatro ou cinco páginas, "sem rascunho, sem cópias, sem nada". "Disse que era uma portuguesa e que estava numa situação complicada. Pedi-lhe se quando ele falasse com Deus lhe podia pedir que enviasse uma luz a pessoas como eu, que não sou crente, não faço parte da Igreja. Na verdade, dizia muito pouco, mas a carta ia manchada de lágrimas." Se tivesse parado para pensar talvez não o tivesse feito. Mas Helena não pensou. Depois da carta pronta, pesquisou a morada na internet, um simples número de apartado no Vaticano, foi ao correio e enviou-a imediatamente. "Só quando cheguei a casa é que descomprimi e pensei: o que é que eu fiz?".Achou que era melhor esquecer completamente o que tinha feito. Mas dois meses depois tinha na caixa do correio uma carta da Nunciatura Apostólica, em que era informada de que o Papa Francisco não só iria pedir a Deus para que Helena tivesse luz na sua vida como a desafiava a ser batizada em Roma, na vigília pascal. Helena leu aquelas palavras a tremer. "Só mais tarde percebi: a luz que ilumina a nossa vida é a luz de Cristo, que chega a nós através do batismo.".Pediu ajuda ao padre José Pinheiro e os dias seguintes foram passados a tentar perceber o que fazer. "A parte mais importante foi entender se era mesmo de vontade, de coração, entrar no batismo. Eu nunca iria fazer o batismo só porque sim. Tinha de sentir que o caminho era aquele. Deixei o Santo Padre à espera uns dois meses e só depois respondi a dizer que aceitava.".Começou a frequentar a catequese de adultos e na Páscoa de 2015 a portuguesa Helena Lobato foi batizada no Vaticano pelo Papa Francisco. O que se passou na vida de Helena durante esse ano (e desde então) é muito maior do que uma simples gota de água a tocar-lhe a testa. "A fé trouxe-me o exemplo de Jesus, que é uma coisa prática, as palavras e os ensinamentos dele. E foram essas novas ferramentas que me capacitaram para conseguir, apesar de tudo, avançar com a minha vida. A fé trouxe-me uma grande serenidade, uma calma e uma tranquilidade que eu não tinha. Com a fé não há desespero."."A gente não deita fora a nossa vida passada, é uma bagagem que trazemos connosco. Mas podemos alargar a nossa vida." Mais do que uma nova católica, Helena, atualmente com 46 anos, é uma referência na sua paróquia. Com uma cruz ao peito, ela faz voluntariado, dá catequese, participa ativamente na vida da comunidade. "Não é uma questão de responsabilidade, mas sinto vontade de partilhar a minha experiência porque sei que pode ajudar outras pessoas que vivem afastadas da fé.".A conversão deve ser permanente."A conversão não é o fim de um caminho, pelo contrário, é entrar numa nova estrada", explica o padre Vasco Pinto Magalhães. "Leva tempo. É preciso deixar o sítio onde se estava. Aceitar a fé é admitir uma outra possibilidade que me faz sair de mim. O grande ateísmo é a pessoa estar fechada em si própria, autocentrada, pensando que isso lhe traz a felicidade. A grande conversão é do egocentrismo ao altruísmo."."Um convertido não deixa de ter dúvidas, se não parava, estagnava." A conversão não acontece só aos não católicos. "Todos nós temos de nos converter. A tendência é instalarmo-nos no fácil, no imediato. Posso ser um católico muito só de superfície e por isso, a cada ano, a prática apela à reconversão, a ir mais fundo. Como a relação de duas pessoas tem de se aprofundar para ser uma relação verdadeira.".Que o diga Manuel Arouca, o autor que ficou conhecido em 1984 quando publicou o seu primeiro romance, Filhos da Costa do Sol, inspirado na sua própria juventude, passada no Estoril, entre a praia e os bares dos hotéis. "Tive uma educação católica, sou batizado, mas depois afastei-me. Na juventude não tinha nada que ver com a Igreja", conta Manuel. Viveu despreocupadamente, andou dois anos a servir à mesa num cruzeiro apenas pela "aventura" e pelo desejo de conhecer mundo. Estudou Direito mas nunca exerceu, dedicou-se antes à escrita. De romances, como Ricos, Bonitos e Loucos, a telenovelas e séries de televisão como Os Homens da Segurança. "A energia daqueles tempos era fantástica, eu quase não dormia.".Em 1997, "andava à procura de algo", e decidiu fazer uma caminhada a Fátima. O que aconteceu naqueles dias não partilha, diz apenas que veio de lá "diferente". "Encontrei o meu caminho. Em termos espirituais, Nossa Senhora pegou em mim e sinto que a minha vida passou a fazer sentido." As mudanças, explica, vão muito além da questão religiosa. Trata-se, acima de tudo, de "um encontro espiritual": "Acredito na eternidade, acredito que estamos aqui de passagem. E isso depois alterou a minha vida, a minha relação com o mundo e com as outras pessoas."."Há quem gostasse mais do Manuel de antigamente que era mais maluco", mas ele sente-se mais sereno como é agora. "Antes, era mais rancoroso, não conseguia ultrapassar os problemas. Esta tranquilidade vem de Deus, não tenho dúvidas de nenhumas." "Agora sinto que há uma comunhão espiritual, que fazemos parte de uma entidade espiritual, que é Deus, que tem através de Nossa Senhora o seu lado materno e doce." Nos últimos dez anos, a fé passou também a fazer parte do seu trabalho. Sobretudo, Fátima, que se tornou objeto de pesquisa e tema de livros e documentários. Jacinta, o livro que publicou no ano passado, deu origem ao filme de Jorge Paixão da Costa que está neste momento nos cinemas (e que vai ser também uma minissérie na TVI). Neste ano, em mais uma ida a pé a Fátima, Manuel Arouca voltou a sentir como é especial aquele local: "Fátima renova, enche o meu coração."