A FALSA DERROTA DE DELGADO

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Presidenciais de 1958. Amanhã passa meio século sobre as eleições em que o povo acreditou que se poderia derrubar o salazarismo. As multidões que aclamavam o 'General sem Medo' acabariam por representar menos de 25% dos votos. Houve fraude?

Boletins anulados em Mira por terem menos um milímetro e meio

As multidões que encheram as ruas a gritar por Humberto Delgado não votaram? As fotografias das cidades cheias de gente a saudar o "General sem Medo", como lhe chamou o socialista António Macedo, eram ilusórias? O povo ignorante enganava-se na lista por falta de hábitos eleitorais? Como se explica que o candidato da oposição obtivesse 23,6% dos votos contra os 75,8% do apagado Américo Tomás, que Salazar escolhera para suceder a Craveiro Lopes?

"Tão grande desproporção não pode apenas ser atribuída à burla ocorrida no momento da contagem dos votos, que foi grande, mas apenas parte de todo um enorme sistema manipulatório, discricionário e profundamente fraudulento organizado logo desde as operações de recenseamento eleitoral", escreve João Madeira no vol. 15 de Os Anos de Salazar.

"Tal sistema", prossegue o historiador, "assentava no impedimento a que se recenseassem aqueles que não gozassem da confiança do regime, nos obstáculos levantados ao conhecimento dos cadernos eleitorais por parte da oposição, na obrigatoriedade de serem as listas e os candidatos a imprimirem e a distribuírem pelos eleitores os respectivos boletins de voto, nas intimidações e pressões de toda a ordem sobre os que se conseguiam recensear ou na proibição de a oposição fiscalizar o acto eleitoral."

Nem mesmo António Sérgio, o responsável pela escolha do jovem general com um passado de indefectível da ditadura - como se encarregam de lembrar os seus adversários de 1958 -, mas que vivera na democrática América, em detrimento de outras possibilidades (como Jaime Cortesão ou Mário de Azevedo Gomes), terá algum dia pensado que seria possível aquele "furacão" de "sorriso rasgado", que encantava quem o tinha ouvido dizer que seria o fim de Salazar ("obviamente, demito-o") ou quase a traçar o seu próprio destino ("estou pronto a morrer pela liberdade", disse no comício eleitoral de Chaves, sete anos antes de ser abatido pela PIDE, a polícia política do regime).

No seu livro El Otro Caso Humberto Delgado - Archivos Policiales y de Información, Juan Carlos Jiménez Redondo salienta a novidade, tanto da personagem como da campanha. "Humberto Delgado é, também, um líder político 'actual', que maneja de forma intuitiva as técni- cas mais avançadas do marketing político das democracias de massas, o que provoca um impacto sem precedentes num país acostumado a escutar do Governo e da oposição intervenções muito argumentadas e intelectualmente muito bem construídas, mas profundamente entediantes para o grande público. Delgado intui de forma nítida a necessidade de simplificar e clarificar a mensagem política para a tornar acessível a todos os portugueses. O êxito instantâneo das suas aparições públicas demonstra a sua enorme capacidade de comunicação, a sua inata aptidão para satisfazer as dúvidas de um público ávido de um novo discurso político que pudesse compreender e compartilhar."

Mas, afinal, como foi a fraude eleitoral? Alguns exemplos foram relatados no Avante!, que o PCP, após tentar avançar com Cunha Leal e de ter patrocinado Arlindo Vicente, teve de ceder ao movimento popular, com o seu candidato a desistir a favor daquele que, antes, era denominado "general coca-cola". E, depois, os propagandistas do regime, em artigos e panfletos de gigantesca tiragem, proclamavam que, "por detrás do Kerensky [o líder social-democrata russo de 1917] Humberto Delgado, é evidente que já se move, na sombra, maquiavélico e sinistro, não sabemos que Lenine".

"No dia das eleições", lê-se no clandestino Avante! da primeira quinzena de Junho, "presos muitos dos dirigentes oposicionistas, dificultada pela força a cópia dos cadernos [eleitorais] e a distribuição dos boletins de voto, amordaçada a propaganda, as autoridades salazaristas fizeram imensos cortes nos cadernos eleitorais, expulsaram das secções de voto pessoas que se propunham fiscalizar o acto eleitoral, fabricaram votos por meio de certificados de eleitor distribuídos amplamente por elementos da União Nacional [o partido único fascista] que votaram em varias secções, organizaram a votação maciça de unidades das forças amadas, comandadas pelos seus superiores."

Em Julho, o jornal comunista, entre as burlas que denuncia, revela que, "em Mira, quando ao fazer-se a contagem se verificou que a vitória havia pertencido ao gen. H. Delgado, o presidente da mesa rapou de uma régua e anulou 119 votos do candidato da oposição porque tinham milímetro e meio a menos que o normal".

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