As expectativas criadas em torno do Congresso do PSD circunscrevem-se às novidades que possam surgir na equipa dirigente e no discurso de Luís Marques Men- des. A contabilidade dos lugares conquistados pelas várias sensibilidades ocupará algumas polémicas, mas até ver pouco mais será objecto de competição interna. Dentro e fora do partido espera-se que o líder fale para o País. Na grelha de análise do discurso político costuma avaliar-se a sua eficácia, ou ineficácia, por essa capacidade de abordar os problemas da Nação. Nada mais natural. Os partidos servem para representar os cidadãos e para encontrarem soluções para os seus anseios. Por isso, este fim-de- -semana espera-se que o PSD dê sinais credíveis na interpretação e terapêutica dos problemas nacionais. .O PSD tem uma caminhada longa pela frente. Não é ainda altura de se exigir ao principal partido da oposição que apresente um programa completo e alternativo à governação socialista. Talvez por isso se deva exigir, antes de mais, que o PSD se reorganize e justifique a sua ambição de poder. Marques Mendes reconhece-o na sua moção de estratégia: "Nos últimos anos o debate político praticamente desapareceu dos hábitos do PSD. Discutiu-se de mais a distribuição de cargos e lugares e discutiram-se de menos ideias e políticas." Nada mais certeiro e extensível à generalidade dos partidos. É por isso fundamental que o PSD, antes de apresentar soluções apressadas para as maleitas nacionais e ter resposta para tudo, arrume a sua casa, afine identidades e ideias, ganhe capacidade para elaborar propostas concretas e construir uma equipa que lhes dê rosto. Se o PSD se entretiver na crítica fácil da governação sem acautelar o que realmente faria diferente não será levado a sério. Marques Mendes poderá pensar que o partido já mudou de vida por o ter escolhido para presidente. Só que a vida de um partido não se resume à escolha dos seus dirigentes. Quererá o PSD discutir a sua identidade, o seu programa? Quererá o PSD encontrar o antídoto para um PS mais à direita? Quererá o PSD dar bons motivos aos eleitores para recuperarem a confiança nos partidos? .Um congresso faz-se para escolher dirigentes, mas deveria fazer-se sobretudo para discutir ideias. Quando um partido de poder está na oposição com muito tempo pela frente até disputar eleições impõe-se que pense mais e melhor antes de falar. O problema de Luís Marques Mendes é que o tempo disponível pode não ser o melhor aliado. Se não chegar a 2008 com o PSD em ascensão, ficará pelo caminho. Serão muitos os interessados no seu lugar na recta final. Resistir à ansiedade e consolidar um programa político alternativo é o seu desafio. Mesmo sabendo-se que são os governos a perder mais vezes as eleições do que as oposições a ganhá-las, convinha cuidar melhor da personalidade política dos partidos. Para que, como diz o próprio Marques Mendes, as políticas não sejam "mais pessoais e menos do partido. Mudam os ministros, mudam as políticas". Mudar o PSD deve ser mais do que mudar de dirigentes.