À espera de Berlim

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O mais importante da entrevista concedida por António Costa à RTP parece ter sido a clarificação da política europeia de Portugal. Interrogado sobre a questão da renegociação da dívida, exigida pelos seus aliados de esquerda no Parlamento, Costa, com uma dureza cristalina, disse que é preciso esperar pelas eleições alemãs (que terão lugar em setembro de 2017, e não em outubro, como por lapso referiu). Afirmou mais: a questão da dívida não pode ser tratada separadamente das reformas estruturais que todo o projeto europeu, e em particular a zona euro, necessitam. Mas nada disso poderá acontecer antes de se conhecerem os resultados das eleições germânicas de 2017. Muita coisa ficou nas entrelinhas, mas estas lacónicas afirmações fazem toda a diferença, para melhor, em relação ao passado e a algum presente. Em relação a Passos Coelho, o que Costa afirma é que as regras europeias de austeridade perpétua não são boas, mas sim imperfeitas e prejudiciais. Passos confundiu necessidade com virtude e indicou o empobrecimento geral como desígnio nacional. Em relação ao PCP e ao BE, Costa apresenta o cumprimento das regras do Tratado Orçamental como sendo uma obrigação de realismo elementar, dada a extrema fragilidade do país, e a nossa dependência do financiamento do BCE. Costa conseguiu unir o PS, o PCP e o BE na base de um compromisso weberiano de "ética da responsabilidade", algo único na Europa, e que, há um ano, considerei pouco provável de ter mais do que um sucesso de investidura. Com a França, a Grã-Bretanha e a Itália decapitadas. Com os EUA atacados pela estirpe febril Trump, Costa tem razão. Mesmo sem garantias de sucesso, não temos melhor opção do que contribuir para que a Alemanha seja capaz de despertar do seu longo pesadelo dogmático, fazendo por si própria e pela Europa o que só ela está em condições de realizar.

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