A escritora que decidiu tornar-se portuguesa

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Tinha um raro sentido de humor e a sua voz era límpida. Mulher dividida entre dois mundos, duas culturas, a que deixou para trás, a Alemanha, e a que adoptou, Portugal, Ilse Losa, nascida em Bauer, romancista, contista, autora de livros para crianças, tradutora, morreu ontem em Lisboa. Contava 92 anos.

Escritora alemã de "língua oficial portuguesa", a autora de O Mundo em que Vivi (Afrontamento, 1987, já na sua 26.ª edição) foi forçada a interromper os estudos - frequentou o liceu Osnabruck e Hildesheim e depois o instituto comercial em Hanôver - para deixar o seu país, de onde partiu no ano de 1934, em virtude das perseguições realizadas pelos nazis aos judeus.

Após ter vivido em Inglaterra, onde teve os primeiros contactos com escolas infantis e os problemas da criança, refugia-se em Portugal, fixando-se no Porto. Casa-se com o arquitecto Arménio Losa e adquire a nacionalidade portuguesa. Distinguida com o Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil atribuído pelo conjunto da sua obra para crianças, é na ficção que Ilse Losa disseca a dilacerada configuração do mundo onde nasceu e cresceu no seio de uma família judia que harmonizava, com incidência iconoclasta, no caso do pai, a tradição hebraica com a alemã.

No confronto dilacerante entre os dois discursos culturais, Ilse Losa coloca questões fulcrais como as do absurdo e da injustiça na memória de uma infância e adolescência ensombradas pelas nuvens negras da história. Também no conto, a escritora de Sob Céus Estranhos (1987, 4.ª edição)e de Rio sem Ponte (1988, 3.ª edição) aborda o excesso de realidade que se acumula em gente com o destino amputado, sombras sem corpo à deriva no vazio.

Na colectânea Caminhos sem Destino, os contos afloram essas mesmas temáticas na escassez da palavra, no registo enxuto de um estilo descarnado. É triste o olhar de Ilse Losa, de uma tristeza leve, nítida, atenta, impotente perante as contingências. Nele acolhe-se o quotidiano e o seu ínfimo crime, bem como as fulgurações sob o poder de uma escrita transparente.

A prosa de Ilse Losa é clara, furtando-se ao compadecimento, à ira. Paira no ar, porém, uma emoção contida que saltava também para as páginas da crónica em que se notabilizou em diversos jornais e revistas, alemães e portugueses (Jornal de Notícias, Comércio do Porto, Diário de Notícias, Colóquio/Letras, Gazeta Literária, Seara Nova, Vértice, Neue Deutsche Literatur). A sua obra está ainda representada em diversas colectâneas de autores portugueses, tendo a escritora d'O Príncipe Nabo traduzido e ainda colaborado na organização de antologias publicadas na Alemanha.

Tradutora de vários autores de língua alemã para português e de uma antologia de contistas portugueses contemporâneos para o alemão - prefaciada e anotada por Óscar Lopes -, os escritores receberam com tristeza a sua morte, a exemplo de Agustina Bessa-Luís que não só recorda a amiga de "uma grande vivacidade e de uma ironia vivíssima" como a criadora.

Enquanto Luísa Ducla Soares sublinha o papel da autora de Miguel o Expositor (1982, 2.ª edição) como "grande dinamizadora da literatura infantil", Manuel António Pina salienta, entretanto, que com Ilse Losa este domínio da criação "atingiu a maturidade numa época em que a maioria dos textos de literatura só tinha o nome" .

Ilse Losa publicou vários livros infantis, desde 1949, e orientou o seu percurso, em qualquer campo da escrita onde se moveu, olhando com a necessária objectividade os "males dos outros". Daí que, na sua obra para crianças, a escritora não se alheasse do que também dói na sua forma intensiva e não menos serena de narrar "Apresentar também as coisas tristes é catártico, faz a criança sentir que não está só. E há poucos meninos que nunca conheceram um desgosto, nós é que por vezes não damos conta disso", disse um dia numa entrevista.

O funeral de Ilse Losa segue hoje de casa, às 09.45, para o Cemitério do Prado do Repouso, no Porto.

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