'Golpe de Estado' falhado

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Balakiyem não herdou os genes da família Gnassingbé, a mais poderosa do Togo. Filho de Etienne Eyadema, ditador que só largou o Poder em 2005, fulminado por um ataque cardíaco, após o ter tomado por um golpe de Estado em 1967, e de Faure, que "herdou" a presidência - embora com eleições largamente denunciadas na comunidade internacional -, o presidente da Federação Togolesa de Futebol (FTF) tem tido dificuldades em bater-se com Assogbaui Komlan, secretário-geral da FTF. Para já, parece ter ganho uma batalha: segurar o treinador alemão Otto Pfister, que ontem garantiu que vai manter-se até ao final do Mundial 2006 e que vai processar o secretário-geral (ver texto em baixo).

Pfister demitiu-se na sexta-feira passada, por não estar resolvida antes do Mundial , como prometido, a questão dos prémios de jogos (os jogadores reclamavam cerca de 200 mil dólares por vitória). Mas três dias depois estava de volta. Foi na segunda-feira, um dia antes da estreia absoluta do Togo num Mundial : com Pfister no banco, os africanos perderam 1-2 com a Coreia, depois de terem estado a ganhar. Na curta ausência do treinador alemão, a FTF nomeou no sábado o adjunto Kodjovi Mawuena seleccionador interino; no domingo, o alemão Winfred Schaffer, ex-seleccionador dos Camarões, esteve no hotel em Wangen, na Baviera (Sul da Alemanha) a negociar um contrato com a federação. Na segunda, Schaffer percebeu que as suas exigências - disciplina e união interna - não seriam atendidas; no mesmo dia, Pfister estava de volta de Zurique - fez quase toda a carreira de jogador, e iniciou a de treinador, na Suíça (depois, especializou-se em África: já soma sete selecções, como o Gana ou o Burkina Faso, além de clubes como o Zamalek, do Egipto).

Ontem, enquanto o treino, marcado para as 17.30 no Allgau Stadion, em Wangen, era trocado, à socapa da FIFA, para uma curta sessão de atletismo nas imediações do estádio, e os jogadores mostravam boa disposição (a estrela Emmanuel Adebayor disse ao DN que estava "tudo bem na equipa", depois de ter feito uma rábula com uma bicicleta de um dos seguranças - que mantém um esquema apertado em volta do hotel Waltersbuhl, nos arredores de Wangen), Pfister mantinha-se no hotel com o staff. Outro jogador abordado pelo DN, garantia, sorridente, que "a equipa estava em paz e em boa forma". Um sinal de que Assogbaui Komlan perdeu pelo menos a batalha. O secretário- -geral tinha dito na véspera, após o jogo com a Coreia, que Pfister "não tinha condições para continuar". "Não estou satisfeito com ele, não gosto dele."

Parece então que é o único e que talvez Balakiyem Gnassingbé tenha afinal herdado os genes da família. O pai teve de, no início dos anos 90, suportar a forte pressão da oposição para democratizar o país - e viu esvaziados os seus poderes por cerca de dois anos, mas, em 1993, ganhou estrondosamente as eleições, sob suspeita de fraude. E só saiu quando morreu em 2005, altura em que o filho Faure enfrentou feroz oposição, afastada subtilmente com a alteração da constituição, no dia seguinte à morte do pai, que calou os opositores e lhe abriu caminho para o Poder.

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