"Os papéis fazem-se de dentro para fora, representar é um acto de imaginação com base na vida, nas coisas, na poesia" - com estas palavras de Canto Castro vai abrir a biografia do actor que a jornalista Inês Almeida está a preparar e que deverá ser lançada em breve pelas Publicações Dom Quixote. São palavras que demonstram bem o modo como este homem entendia o teatro. Com paixão. O actor morreu ontem de madrugada com 74 anos. Deixa o papel de senador Hedges, que interpretava, apesar de já doente, no espectáculo A Rainha do Ferro Velho, dirigido por Filipe La Féria em cena no Teatro Politeama. Mas vamos continuar a vê-lo em João Semana, a série actualmente em exibição na RTP1..Henrique Canto e Castro nasceu em Abril de 1930 em Lisboa. Aos onze anos já participava em diversos programas infantis na Emissora Nacional. "Tenho pena de hoje quase não haver teatro radiofónico, porque gosto muito de o fazer. Aquilo pegou-se-me um bocado à pele", dizia Canto e Castro ao Expresso em 2002. .Foi a rádio que lhe serviu de trampolim para o teatro, onde se estreou em A Lição do Tempo, peça de Luiz Francisco Rebello, no Teatro do Centro Universitário da Mocidade Portuguesa, ao lado de Eunice Muñoz. Aos 14 anos, o pai, que também era músico e vivia frustrado por ter de exercer a profissão de analista químico para sustentar a família, perguntou-lhe se ele queria mesmo ser actor. "Disse-lhe que sim e ele incutiu-me o entusiasmo necessário para começar a carreira", recordou Canto e Castro em declarações ao Sete em 1982. .Em 1946, entrou nos Comediantes de Lisboa, sob a direcção de Francisco Ribeiro (Ribeirinho), sua principal influência nos primeiros anos de carreira. Em 1947 acabou o curso do Conservatório Nacional como primeiro classificado, com 18 valores..A partir de então, trabalhou com diversas companhias - o Teatro Nacional Popular, o Apolo, o Ginásio, a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, o Grupo de Campolide ou a Companhia de Teatro de Almada. Fez drama e comédia. Foi burlesco e comovente. "Um dos melhores actores da sua geração", nas palavras da colega Carmen Dolores. No cinema, participou em mais de 40 filmes como, por exemplo, Manhã Submersa, de Lauro António (1980), Cinco Dias, Cinco Noites, de Fonseca e Costa (1996), Tráfico, de João Botelho (1998), ou Capitães de Abril, de Maria de Medeiros (2000). Na televisão entrou em séries e telenovelas, como Duarte e Companhia (RTP) ou, mais recentemente, O Fura Vidas e Residencial Tejo (SIC)..A voz rouca - por causa do tabaco que começou a fumar ainda adolescente - era uma das suas imagens de marca. Foi ele que deu voz ao gafanhoto da série de animação A Abelha Maia (entre muitas outras séries infantis em que participou). É dele a voz de Ambrósio, o mordomo que tomou a liberdade de pensar nos chocolates do anúncio.."Ao longo de toda a minha carreira, sempre que pude, optei pela qualidade. O que antes do 25 de Abril não era nada fácil e nem sempre possível", dizia Canto e Castro em 1982. "Gosto muito de ser actor. Nunca me arrependi de o ser e, após 58 anos, a única coisa que quero é continuar a ser actor. É isso que me dá alegria", declarou em Dezembro do ano passado, quando foi alvo de uma homenagem. Em 1964 ganhou o Prémio Eduardo Brazão; em 1982 recebeu o prémio da Associação dos Críticos Teatrais; e em 1993 o Prémio de Carreira. Mas mais do que os prémios, são as personagens que interpretou que ilustram a sua carreira. Personagens muito diferentes. Como o Camões, protagonista em Que Farei com Este Livro? (1982), a partir de José Saramago, com o Grupo de Campolide. Como Eugénio, o presidiário do filme Longe da Vista, de João Mário Grilo (1999). Ou o inesquecível Bobo de Rei Lear, ao lado de Ruy de Carvalho, no Teatro Nacional D. Maria (1998). ."Acho que ninguém escolhe ser ou não ser protagonista. Nunca me detive sobre a importância dos papéis, mas sobre a sua qualidade", afirmava ao Expresso em 1999. Altura em que reconhecia, "sem falsas modéstias" que se considerava então melhor actor do que quando tinha começado. "Um actor faz-se com a experiência, e eu tenho procurado não me deixar cristalizar, ir acompanhando o tempo.".O corpo do actor está em câmara-ardente na Basílica da Estrela, em Lisboa, e o funeral realiza-se às 17.00 de hoje para o cemitério do Alto de São João, onde o corpo será cremado.. * Com Lusa