Desde sempre a humanidade tem necessidade de histórias, desde os os mitos até às notícias mais simples.O que é que o seu seminário ensina de novo sobre as histórias?Antes mesmo dos mitos, já as danças ou as pinturas nas cavernas contavam histórias. Jean-Paul Sartre disse um dia que todas as grandes histórias já tinham sido escritas. Mas eu acho que temos que reescrever as mesmas histórias no nosso tempo, com os meios e as circunstâncias em que vivemos. Os meus filhos nunca leram Ivanhoe, mas viram a Guerra das Estrelas, que lida com os mesmos valores, os mesmos arquétipos. Cada geração recria os mitos e reescreve as suas histórias, mas também cria novas histórias, novos mitos..Vai abordar esses mitos no seu seminário?.No seminário vou tratar desses mitos do amor, da comédia, do crime, que são a base dos três géneros de histórias mais populares no cinema..Porquê?.Porque essas são as questões fundamentais da experiência humana, da sua vida interior. São histórias antigas, têm uma sabedoria universal. Também há o desejo de aventura. Mas na Europa eu não ensino esse género de história, porque, cinematograficamente, é muito dispendioso realizá-la. Os novos media, o domínio das imagens sobre os textos, estão a transformar a forma de contar histórias?.Estas transformações estão sobretudo a transformar a arte num jogo. As pessoas estão a deixar de fruir interiormente as histórias, para tudo se transformar numa espécie de jogo.Toda esta interactividade está a impedir as experiências humanas profundas e sérias..Conhece algum cinema português?.No ano passado vi vários filmes portugueses. Têm uma forte consciência social, o que é bom, mas não é a melhor forma de conseguirem ultrapassar as fronteiras do país. Pessoalmente, do que menos gostei foi da transformação da pobreza em decoração das imagens, que alguns realizadores portugueses fazem. É tão insensível. Podemos fazer filmes sobre a pobreza, denunciá-la, mas não fazer dela um objecto decorativo..E o que é que falta fazer ao cinema português?.Em Portugal tem de se construir uma cultura cinematográfica, o que passa por fazer filmes que não se fixem somente no que é específico de Portugal, mas que tenham uma dimensão universal. O cinema português tem de encontrar uma forma de exprimir a essência do seu amor, do seu humor, mas tem de fazê-lo de uma forma que seja cada vez mais entendível em qualquer tipo de cultura. Têm de acompanhar o espírito do tempo, sair, descobrir o novo..Porque considera que isso acontece no cinema português?.Um dos motivos é a dependência do Estado.Trabalhar com subsídios do Estado é sempre aceitar fazer implicitamente uma certa forma de propaganda.São sempre filmes que promovem uma forma identitária, um sentido de pertença, mas isso impede o filme de ter lucros; logo, impede o cinema de ter realmente liberdade..Disse, numa entrevista à New Yorker, que uma boa história precisa de um bom protagonista?.Sim. Dou-lhe um exemplo de uma boa protagonista: Blanche Dubois, do filme Um Eléctrico chamado Desejo, de Elia Kazan. Ela é alguém cuja vida perdeu o rumo e que faz uma caminhada até voltar a encontrá-lo. É alguém que luta para encontrar o equilíbrio.O que pensa do actual sucesso das séries televisivas?.Acho que as pessoas precisam de novas imagens, novas linguagens e novas formas de beleza. Hoje, a televisão é o lugar onde tudo isso se concretiza. Representa, a meu ver, uma mudança de rumo. Os melhores estão a deixar o cinema para irem para a televisão. A verdade é que lá têm mais liberdade para criar, mais espaço para desenvolverem as narrativas e os personagens, e também mais dinheiro.Os escritores de séries têm hoje um enorme poder..Há alguma dessas séries actuais de grande êxito que gostasse de ter escrito?.Há algumas de que eu gosto muito como Damages (Sem Escrúpulos), ou Sete Palmos de Terra. Mas há uma que eu gostava realmente de ter escrito: chama-se In Treatment. Retrata um psiquiatra e os seus pacientes. É muito simples, mas é maravilhosa. Foi criada em Israel e agora tem uma versão americana. É aquilo que lhe dizia: foi feita num país pequeno, mas os autores conferiram-lhe uma dimensão humana que lhe permite ser exportada para qualquer lugar..Que qualidades é preciso ter para se ser um bom contador de histórias?.Os atributos são sobretudo persistência, trabalho, abertura ao fracasso. A inspiração não chega.É preciso sabedoria.