"Começaria tudo de novo"

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Josefina Chantre. Combateu pelo fim do colonialismo português e pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Passadas mais de três décadas sobre o nascimento das duas novas nações africanas, afirma que a sua "luta" continua e que há muito a fazer pelas mulheres africanas. Por isso preside agora a uma ONG

Foi secretária de Amílcar Cabral, o fundador do PAIGC, e lutou na Guiné. Hoje vive no seu Cabo Verde natal

Josefina Chantre nasceu na ilha de Santo Antão, Cabo Verde, em 1942. Aos sete anos fugiu de casa para ir a uma festa no interior. Percebeu que era diferente dos irmãos e dos amigos. A tal 'diferença' marcou a sua vida. Na década de 60 fez o curso técnico de Serviço Social em Lisboa e ouviu conversas "estranhas". Do trabalho nos musseques em Luanda ficou-lhe a "revolta" com as condições sub-humanas do povo. Partiu para a Suécia para organizar a resistência africana e desembarcou na Guiné-Conacri, onde junto a Amílcar Cabral lutou pelo fim do Estado colonial na Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Zezinha cresceu na vila do Paul, uma das poucas regiões agrícolas de Cabo Verde. Na altura do liceu, já na ilha de São Vicente, ganhou uma bolsa do então ministro do Ultramar, Adriano Moreira, e veio estudar Serviço Social no internato São Vicente de Paula. Nessa época já se relacionava com a comunidade cabo-verdiana em Lisboa e conhecia líderes da resistência africana. "Não percebia o que se passava, todos tinham medo de falar abertamente."

Concluído o curso, fez as malas e desembarcou em Luanda para actuar como assistente social. "Os musseques foram o meu primeiro contacto com uma desigualdade social gritante. Não havia nada: água, luz, trabalho, casas, emprego. Começei a questionar-me sobre como era possível as pessoas viverem em condições tão degradantes".

Em 1970 foi de férias para a Suécia com o namorado, Joaquim Ribeiro Carvalho, militante da Frelimo, e envolveu-se de "corpo e alma na resistência", decidiu que iria para a luta armada. "Eu já tinha uma experiência empírica das injustiças sociais, recebi então a formação teórica. O nosso povo precisava de tomar nas mãos o seu próprio destino e para tal precisávamos da independência. Militava na Frelimo porque era a história da mulher seguir o homem".

Josefina e Joaquim ancoraram em Argel, onde estava sediada a representação política dos partidos que lutavam pela independência em África. "Passamos meses lá, mas a intenção era ir para a Tanzânia, trincheira armada da luta em Moçambique. Entretanto, o Joaquim Chissano disse que apenas o Joaquim poderia ir, eu não. Rompemos a relação, isso marcou as nossas vidas, e eu fui militar junto ao partido que defendia a libertação do meu país, representado pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) com a liderança do Amílcar Cabral".

Na Guiné-Conacri, campo de articulação da luta do PAIGC, Josefina trabalhou como responsável pela comunicação, escrevia os jornais e os programas para a rádio. "Eu tive preparação militar, sabia montar e atirar. Mas o Cabral defendia que as mulheres só iriam para a frente de batalha em último caso. Argumentava que na luta de libertação todas as tarefas eram importantes."

Conquistada a independência, Josefina casou-se com Honório Chantre, cabo-verdiano e companheiro de luta, e retornaram à pátria. "Começaria tudo de novo se fosse preciso, porque recuperámos a nossa independência e todo o homem, todo o povo, tem direito a ser dono do seu próprio destino."

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