"A TV cansou-me muito"

Ivo Canelas sempre foi um actor de teatro, mas ganhou fama na televisão com Fura-Vidas. Foi de mais para ele. Fugiu para Nova Iorque e agora é um Mozart genial e excessivo. Outra vez no palco. Em Lisboa.
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Ivo Canelas foi monstro numa casa assombrada taco a taco com um público exaltado que buscava emoções extremas. Sentiu no corpo a desilusão de falhar em palco com um monólogo de Dylan Thomas que não soube resolver. Com Jorge Silva Melo encontrou a liberdade criativa. E em 2001 partiu. A série Fura-Vidas tinha acentuando uma exposição e um desconforto com que não sabia lidar. Em Nova Iorque, com o Método de Lee Strasberg habituou-se a transferir as emoções e as memórias para a personagem, numa fusão entre o real e a ficção que dá verdade ao trabalho de actor. Mais de trinta filmes depois, Ivo assume que o cinema é a sua linguagem primordial, e só Manoel de Oliveira o fez sentir-se um mero executante. Por estes dias está de regresso ao teatro, a braços com o Mozart exuberante e desmedido idealizado por Peter Shaffer.

Nasceu em Lisboa em 1973. Que criança era?

_Feliz.

Fechado no seu espaço? Extrovertido?

_Não, tímido. Introvertido, sim.

O que figurava nos seus sonhos?

_Coisas clássicas dos meninos, astronautas e essas coisas.

Nada que passasse por teatro ou cinema?

_Não, despertei mais tarde para isso.

Na altura de escolher um rumo, quis ser outra coisa que não actor?

_Não.

Quando surge essa vontade?

_Por volta dos 15, 16 anos. Na RTP2 davam imensos filmes e documentários fora da minha realidade. Comecei a ver o trabalho de actores e aquilo mexeu comigo. Descobri um universo que não conhecia, em que havia todo um trabalho de que não fazia ideia. Interessou-me esse universo.

Estreou-se no palco pouco depois da entrada para o Conservatório, em 1992, em Amo-te, de Abel Neves, encenado pelo Almeno Gonçalves, no Teatro da Cornucópia. Como foi o primeiro contacto com o público?

_Prazenteiro, muito prazenteiro.

Foi tranquilo, não houve aquela dificuldade inicial?

_Às vezes é o contrário. Quando sabemos menos, quando temos menos experiência atiramo-nos mais à vontade. Não temos nada a perder e há uma enorme liberdade.

Entretanto, quando estava no 3.º ano do curso de Teatro e Cinema, decide deixar o Conservatório e ir trabalhar para a Feira Popular, para a Passagem de Terror, uma casa assombrada. Como explica essa viragem?

_Desisti, foi o ano em que desisti do curso. Estava a ocupar espaço, perdido, por obrigação a picar o ponto. Então, não tinha a certeza e achei que era melhor desistir. E fui fazer uma audição à Feira Popular de Lisboa, numa casa assombrada. A experiência veio a revelar-se maravilhosa. Ensinou-me muito em relação a ser actor, foi das experiências mais fortes que tive.

Havia proximidade com o público?

_Muito grande. Muito em cima uns dos outros. Público de noite, de pós-jantar, de Feira Popular, endorfinas à solta. Estava tudo muito aceso e eu tinha de ter um controlo real do que estava a acontecer, isso era muito excitante. Sentir que aquilo podia fugir para qualquer lado, que eles não estavam a fazer de conta que estavam a ouvir-nos. E faziam questão de mostrar que não estavam a ouvir quando não estavam. Essa proximidade física, por mais assustadora que fosse, era muito forte, muito interessante.

Eram papéis de figuração? Interagiam com o público?

_Éramos todos monstros, aquilo era uma casa assombrada e o percurso fazia-se em grupo. Fiz os monstros todos. Explicava as regras do jogo. Era muita gente, num fim-de-semana levávamos mil e quinhentas pessoas. De cinco em cinco minutos havia um grupo e tinha de repetir o texto. Fiz dois anos, dois verões, praticamente todos os dias. Não sei se tínhamos a segunda-feira de folga. Eram muitas horas, muita exploração. Tanto que no fim fizemos uma revolução e despedimo-nos todos, porque éramos literalmente explorados. Era como se uma tribo canibal nos esventrasse e ficássemos com tudo à mostra. Como se as pessoas pudessem mexer em tudo cá dentro. Mas era um cansaço bom.

Regressa ao teatro em 1996 com um texto difícil de Dylan Thomas, com encenação de Sandra Faleiro.

_Tive dificuldades. Um monólogo e uma cena que não compreendi bem. Não sabia fazer bem. Aquilo magoou-me um bocadinho. Um texto difícil, com uma personagem para a qual não tinha unhas. E aí senti a desilusão perante o público, a mentira, o estar a falhar ao vivo, o que é horrível.

Foi a primeira desilusão com o trabalho?

_Sim, e nunca resolvi bem isso. Ainda recordo partes do texto. Tenho de resolver esse texto. Um dia...

Depois houve os Artistas Unidos e Jorge Silva Melo. Marcou-o muito? Entre 1996 e 98 fez cinco peças com eles.

_Foi um período muito interessante. Com o Jorge encontrei aquilo que hoje me define como actor, trabalhar com responsabilidade e liberdade. Ou seja, o actor criativo e não o obediente. Obviamente que é um trabalho de equipa, mas é mais o actor intérprete, que propõe e resolve. E o encenador guia, selecciona, influencia, mas não é impositivo, não limita e não obriga.

Entretanto o cinema também tinha arrancado. A primeira experiência foi num filme francês, La Reine Margot, de Patrice Chéreau, em 1994. Como foi lá parar?

_Por casting, uma figuração. O filme foi filmado em Mafra, as cenas finais, as grandes traições, tudo. Quinhentos figurantes.

Aos 21 anos a fazer figuração num filme com grandes actores franceses, entre eles Isabelle Adjani.

_Foi um bocadinho intimidante, era muita gente, muita gente mesmo. Uma vida de figuração, uma vida dura. Está-se muito tempo sentado, ou de pé, à espera. Lembro-me de uma coisa que me marcou. Por altura do almoço, aquilo era um bocadinho assustador. Largavam-nos e eram quinhentas pessoas a correr para uma mesa, à bruta. Tínhamos de nos impor para comer, era estranho.

Uma estreia épica?

_Sim. Ver o Patrice Chéreau a realizar e a dirigir quinhentos figurantes. Houve uma cena que me marcou. Na parte final, em que os escravos carregavam o protagonista, este vinha já com uma doença. Lembro-me que teoricamente ele deveria transpirar sangue. Ou seja, devia ficar avermelhado e o efeito especial estava a falhar. Saía cor-de-rosa. Quando ele entrava em campo vinha a chorar baba e ranho e era uma cena profundamente dramática, difícil para o actor. Aquele efeito especial estava a matá-lo, porque cada vez que entrava: «Corta!» Ele deve ter filmado pelo menos uns trinta takes. E nesses trinta takes ele estava no sítio absolutamente correcto para aquela cena. Não o ouvi queixar uma vez. A exaustão era evidente, mas ele estava lá. Muito bonito! Um exercício de profissionalismo e de esforço magnânimo.

Na televisão estreou-se na série Riscos e ganhou visibilidade em Fura-Vidas, com Miguel Guilherme e Canto e Castro. Foi Prémio Actor Revelação Ribeiro da Fonte. Foi aí que a carreira deu um salto?

_Sim, acredito que sim. Quando me convidaram e disseram que o Miguel e o Canto estavam lá, eu, quase sem ver o material, aceitei. Tinha muita curiosidade em trabalhar especialmente com o Miguel, por quem tinha e ainda tenho uma enorme admiração. Vi que estaria bem acompanhado e que a série seria um garante de qualidade. Eu e o Miguel encontrávamo-nos mais um dia, para além dos dias de trabalho, para estarmos a brincar, a ler o texto. Precisava muito desse acompanhamento, porque lembro-me de que nos primeiros episódios sofri muito a fazer aquilo.

Foi por isso que, dois anos depois, partiu para Nova Iorque, com uma bolsa da Gulbenkian, para estudar no Lee Strasberg Theatre and Film Institute?

_A televisão cansou-me muito. Deu-me uma exposição que achei giro mas depois não soube lidar com ela. Não gostava da sensação de as pessoas falarem e meterem-se comigo.

Abordavam-no na rua?

Sim, e não me dava bem com isso.

No Lee Strasberg aprende-se sob um método que é uma variante do sistema Stanislavski: o actor desenvolve o trabalho sobre as suas emoções e memórias. Identificou-se com o Método?

_Bastante, com todas as limitações que tenho como actor. E dificuldades em aplicar uma série de regras ou sistemas do Método. Dos vários documentários que vi quando era miúdo, muitos deles falavam do Método. Interessou-me muito esse lado catártico e pessoal. Sem técnica, sempre segui a regra «bom, isto é como se», «isto é como eu quando».

A estabelecer uma comparação?

_O estudo no Strasberg vai juntando uma outra série de peças que nos afastam da catarse, que é um dos lados mais redundantes do Método. O lado catártico é muito eu, eu, eu, e isso também nos isola.

Acabaram de se assinalar os dez anos do 11 de Setembro. Estava lá, morava em Manhattan. Como viveu esse dia?

_Como toda a gente. Com incredulidade.

Apercebeu-se logo pela manhã?

_Sim, antes ir para a escola. [Pausa] Nunca tinha vivido nem estado num país em que tivesse havido um ataque declarado a civis. Portanto, o que aconteceu reequacionou a noção cliché «amanhã pode cair tudo». E realmente pode. Até acho que tive um momento egoísta de, «agora vai começar uma guerra, que espaço tem um actor?» Obviamente, a posteriori, teria imenso espaço, mas pensa-se em termos de carreira. Qual é a validade? Há outras coisas mais importantes para se fazer, é preciso ajudar as pessoas feridas. Foi uma sensação de vazio muito grande e ao mesmo tempo de enorme união, porque estas coisas unem as pessoas, deixa-se de se ser desconhecido e passa-se a ser uma pessoa que não estava na torre, que não morreu. E é isso que nos une.

Andou pela cidade a ajudar estranhos... como foi essa relação?

_Total, total. Deixamos de ser estranhos uns para os outros e passamos a ser seres humanos, todos, e todos vivos. Foi um momento histórico, pessoal e humano. Os americanos são, sem dúvida, um povo muito especial, acreditam que podem ser heróis, têm essa ingenuidade/crença que é maravilhosa. E isso revela-se nos momentos em que isto tudo está a cair.

Dias depois sentiu necessidade de se fechar.

_Houve uma altura em que tive de me fechar, e também cai na esparrela da televisão. Na altura, a Fox News estava com uma força terrível e exponenciava as imagens para zonas onde o pânico era total. Não havia discernimento nem frieza jornalística. Lembro-me de ver jornalistas cheios de pó e eles nem os limpavam. O comportamento deles foi aterrador e isso influenciou-me muito. Tive de quebrar aquilo, estava inundado de notícias trágicas. «Não, não posso viver mais isto, tenho de ir lá para fora e ver com os meus olhos.»

Uma década depois, que emoções lhe traz a recordação?

_Passa a correr [pausa]. Podemos não estar aqui amanhã. Acho que é isso.

Esteve quatro anos em Nova Iorque, porque regressou?

_Trabalho.

Ponderou ficar lá?

É uma porta que nunca fechei mentalmente. Se tiver essa oportunidade, ou se a souber criar, não tenho dúvidas algumas. Não tem de ser necessariamente em Nova Iorque, o inglês é a minha segunda língua. Sinto algum conforto a representar em inglês. Seria uma oportunidade que eu agarraria. Voltei porque fui convidado para fazer O Mistério da Estrada de Sintra, com o Jorge Paixão da Costa. Eu já não trabalhava profissionalmente há muito e tinha vontade. Aquilo foi uma pausa, experimentei sem responsabilidades profissionais de performance. Agora tinha vontade de ter essa responsabilidade, de aplicar o que andava a aprender.

Gosta mais de cinema, há uma preponderância clara do cinema no seu percurso?

_Desde que voltei, sim, inclinei-me mais para o cinema.

É a sua linguagem principal ou é no cinema que recebe mais propostas?

_É a minha linguagem principal. Cinema, televisão, sim. É aí que tenho desenvolvido mais a experiência, é um formato em que, por razões técnicas, me sinto mais confortável e ao mesmo tempo é um desafio. A linguagem teatral tem de ser muito específica para me seduzir da mesma maneira. Voltei ao teatro ao fim de muitos anos e tiro o chapéu a quem o faz. Porque é muito desgastante. No teatro, há um colectivo muito grande, tudo funciona nesse colectivo e há uma entrega na repetição que acho muito desgastante.

Não o seduz a repetição, fazer o mesmo espectáculo todas as noites durante um mês, dois meses?

_Não. São as horas, é sempre àquela hora, há uma rotina que me cansa. O cinema é uma família que se separa e há sempre gente a ir embora. Enquanto o teatro é uma família que está junta o tempo todo, todas as noites, é uma família mais caseira.

Tem algum ritual antes de entrar em palco?

_Relaxar e concentrar-me. Preciso de criar uma bolha e colocar-me na acção, nos objectivos da acção, para fazer o que tenho de fazer. Criar o estado de espírito certo para aquele momento.

O que sente antes de entrar em cena?

_Depende das cenas, se as coisas estiverem no sítio certo, uma paz muito grande. Quando as ideias estão claras, o corpo diz que estão claras.

Há realizadores que repetem o seu percurso - Pedro Caldas, Leonel Vieira, António-Pedro Vasconcelos, Pedro Varela, Vicente Alves do Ó. Há uma identificação com a linguagem deles? Agrada-lhe esse trabalho de continuidade?

_O que acho interessante na continuidade e é importante aproveitar é a oportunidade de aprendermos de filme para filme, e para isso é preciso regularidade. O que se está a verificar cada vez mais em Portugal é a relação clara entre amigos que querem trabalhar juntos. Não é «vamos trabalhar juntos porque somos amigos» ou «somos amigos porque gostamos da maneira como trabalhamos juntos».

Fez um filme com Manoel de Oliveira, O Princípio da Incerteza. Como resultou?

_Não gostei. Não há liberdade, somos executantes, ferramentas que têm de cumprir o que é pedido. Manoel de Oliveira já está nos seus cem anos [quase a completar 103], conheci-o era ainda um jovem moço de 90 e tal. Ele já tinha visto 28 Ivos Canelas, era a impressão que eu tinha.

É um realizador que não deixa margem para o actor criar?

_Não. Eu também era muito novo, não sabia criar, mas acho que o cinema de Manoel de Oliveira não é sobre o realismo, de forma alguma. Nem é sobre a interpretação dos actores, é a percepção que ele tem do mundo. Quem viveu um século já viu muito mundo e o mundo tem tendência a repetir-se. Acho que também há algum tédio da parte dele: «Já te vi, já sei.»

Como é a relação dele com o actor?

_Violenta. Na minha opinião, brusca. A minha experiência com ele foi difícil.

Com quem gostaria de filmar?

_Com Paul T. Anderson. Não tem curso de cinema, o que acho interessante. Tem 30 e tal anos, fez filmes absolutamente magistrais. Cá, gostava de trabalhar com João Canijo. O seu processo de trabalhar aproxima-se muito daquilo que acho interessante, o lado experimental. Vamos um mês antes para o décor para improvisar, o que cria no actor uma força muito grande: «Eu sei de que estou a falar porque já experimentei isso durante este tempo todo.» Portanto, não pôr os actores em xeque. Esse tipo de cinema interessa-me muito.

E no teatro?

_Nunca trabalhei com o Luís Miguel Cintra. Tenho imensa curiosidade, sobretudo porque trabalhei muito com o Jorge Silva Melo, e eles trabalharam juntos na Cornucópia. Não sei se serão antípodas ou não. Mas tenho curiosidade em conhecer esse lado.

Como tem sido o regresso ao palco em Amadeus, de Peter Schaffer, em cena no Teatro Nacional D. Maria II?

_Um processo intenso, difícil. Os protagonistas são divididos entre Salieri, Mozart e Constanze, a mulher de Mozart. Apesar de a peça se chamar Amadeus, acaba por ser mais sobre Salieri. É um bocadinho o Batman e o Joker, não poderiam viver um sem o outro. Salieri é antagonista de Mozart e Mozart não se apercebe disso. O que é interessante nesta relação é o que acontece a Salieri enquanto Mozart vive. Ou seja, Mozart não está preocupado em viver a vida dos outros, mas em viver a sua.

Ouve Mozart?

_Sim, é assustador. Falamos entre nós que foi dado a Mozart o que deveria ter sido distribuído por mil pessoas. A mim, como pessoa muito literal que sou, assusta-me a distância que vai da minha cabeça à de Mozart. Tenta-se entender dois por cento daquele universo, e já é uma grande conquista.

Esse registo da loucura, irreverência, gosta de se mover nele?

_Há uma excentricidade e energia de um certo viver fora da norma que me seduz.

Disse que era tímido. A ficção ajuda a lidar com a realidade?

_Sem dúvida. É o prazer de pensar com outros sapatos, fazer o que não faria normalmente. E entender porque se faz. É isso que faz de trabalhos como Hitler, de Bruno Ganz, fascinantes. Apetece ir beber um café com ele.

Que personagem seria desconfortável para si?

_Qualquer... Não tenho processos fáceis, não chego com facilidade às coisas. Tenho prazer na luta, uns dias mais do que outros, tenho prazer na execução, quando está resolvida.

É nesse registo que lhe apetece estar. Ser sempre desafio, sempre dificuldade?

_Por um lado, apetecia-me ir plantar buganvílias para um terreno qualquer. Mas esta profissão também me permite plantar buganvílias, portanto, vou equilibrando. Mas sim, vêm todos um bocadinho, quer dizer, tento que venham todos das entranhas. Mas nem sempre consigo lá chegar.

Que projectos tem em mãos? Em breve, estreia-se o filme A Montanha, de Vicente Ferraz, rodado em Itália.

_Uma história curiosa. Um filme duro de filmar em Itália, três meses com neve. A fazer de brasileiro, com brasileiros, italianos e alemães. Parecia uma daquelas anedotas, literalmente, em que se vêem as nossas idiossincrasias. E é um filme atípico, de guerra. Sobre uma força brasileira que foi para Itália no final da Segunda Guerra Mundial. Também vai estrear o filme A Flor mais Bela, de Vicente Alves do Ó, com Dalila Carmo a fazer de Florbela Espanca. Eu faço de Apeles, o malogrado irmão. A estreia está prevista para 8 de Dezembro, data do nascimento e morte dela. E está para sair mais um projecto, uma das coisas que mais prazer me deu fazer até hoje, o que é raro. Uma série para a RTP1, Tempo Final, adaptada da Fox argentina. São seis episódios independentes de 45 minutos. Estou num dos episódios, A Vida Dupla, que tem uma maturidade narrativa invulgar em Portugal, em que tratamos géneros que são nichos de uma forma muito real.

Ivo Canelas

Nasceu em Dezembro de 1973 em Lisboa e nos sonhos que atravessavam a infância de um menino introvertido nada fazia adivinhar uma carreira de actor. Quis ser astronauta e tudo o resto que os meninos querem ser. Nada de palco ou ecrã gigante, nada que obrigasse ao embate violento frente ao público, às câmaras. Para isso haveria de despertar na adolescência, com os filmes e documentários que foi descobrindo na RTP2. Na hora de alinhavar um futuro, só a Escola Superior de Teatro e Cinema fazia sentido. Desfez-se, pouco depois, o encanto pela escola de actores, pelo velho Conservatório nesse tempo alojado no contexto boémio do Bairro Alto. Desistiu do curso no 3.º ano, numa altura em que a estreia em palco já tinha acontecido e numa casa onde espera voltar, o Teatro da Cornucópia. A formação que procurava encontrou-a, anos mais tarde, no Lee Strasberg Theatre and Film Institute, em Nova Iorque, levado por uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Regressa quatro anos depois, para interpretar um Eça de Queirós cáustico e afectado em O Mistério da Estrada de Sintra. Em duas décadas de carreira, a contabilidade denuncia uma escolha. A mais de vinte peças de teatro somam-se mais de trinta filmes e uma mão-cheia de séries televisivas. É no cinema que o actor prefere mover-se, mas é no teatro, no papel de Mozart em Amadeus, que até 6 de Novembro se reencontra com o público. Em cena, o confronto desigual com a figura de Salieri (Diogo Infante), que no texto de Peter Shaffer se afunda na obsessão por uma genialidade que não ousa alcançar.

Amadeus

Encenação de Tim Carroll

Na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa

De quarta a sábado, às 21h00; domingo, às 16h00

Bilhetes entre 7,5 e 40 euros.

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