É de sorriso no rosto e casaco impermeável vestido que Francisco Bastos entra na loja da Arcádia, em plena Avenida da Boavista, no Porto, para o encontro com o Dinheiro Vivo. Encontramo-nos num dia chuvoso, logo após a passagem da tempestade Kristin - que a norte não causou estragos que não fossem solucionáveis. O CEO da chocolateira nacional, à frente da empresa desde 2019, é também o representante da quarta geração da família proprietária da Arcádia, e apenas o quinto a liderar os destinos de uma das mais acarinhadas marcas nacionais. As línguas de gato, o sortido tradicional, a laranja cristalizada com chocolate, aos quais se juntaram entretanto os chocolates com vinho do Porto ou o chocolate Dubai Style são mostra clara daquilo que a Arcádia tem feito ao longo das suas nove décadas de vida para sobreviver.“Sendo uma empresa familiar, a Arcádia tem as suas nuances no que toca ao ritmo de crescimento que é possível ser feito de forma responsável”, começa por esclarecer. A empresa “foi passando por alguns momentos de crescimento, seguidos de alguns momentos de absorção do momento desse crescimento anterior. É um bocadinho um crescimento em escadinha, não é?”, nota.Francisco explica, assim, porque é que a Arcádia saiu da pandemia com mais lojas, maior oferta de produtos e com músculo para fazer face ao período de aumento de preços das matérias-primas que, entretanto, foi provocado pela Guerra na Ucrânia e toda a instabilidade política e económica global. Depois de muitos anos a dedicar-se somente ao chocolate, a Arcádia é hoje, também, produtora e comercializadora de pastelaria e gelados, segmento que já representa uma fatia considerável do seu negócio. A diversificação é, aliás, uma das palavras de ordem na empresa, seja no que se refere a produtos, seja no próprio modelo de negócio. Nem todas as lojas Arcádia são próprias, mas as que são franqueadas obedecem a regras muito particulares. Aliás, esclarece Francisco, “nós temos nove franquias. Isto é, ajudam-nos a ter uma relação muito próxima com cada parceiro, o que é bom para a marca e é bom para os franqueados, porque também têm muito apoio do ponto de vista da Arcádia”, continua.Mas a diversificação dos produtos também trouxe um desafio adicional: é que a empresa está, desde 2022, a lidar com o aumento significativo do preço do cacau no mercado internacional - “foi inevitável passarmos, nos últimos dois anos, algum desse aumento para o consumidor final. Mas temo-lo feito de uma forma faseada, para ser menos violento e, anda assim, absorvemos parte desse aumento” -, mas também com a subida do preço do café. “Outro produto muito importante para nós”.A vantagem? “Vínhamos de um período de crescimento muito grande, antes da pandemia - coincidiu, aliás, com a abertura da loja no Chiado, em Lisboa - e, portanto, estávamos bem capitalizados. Durante a pandemia, continuámos a crescer, a abrir lojas e a produzir. E o que aconteceu foi que, quando as atividades recomeçaram, nós estávamos prontos para responder ao aumento do consumo que, efetivamente, registámos”, nota. .Empresas de chocolate otimistas com negócio no Natal, apesar do elevado preço do cacau .Tonelada de cacau atinge preço recorde de 10.000 dólares.O aumento do preço das matérias-primas implicou, ainda assim, ajustar a oferta para conseguir compensar não apenas a quebra na procura - que aconteceu, mesmo que compensada pelas vendas, em termos de valor ,- mas também para segurar os clientes. “Não queremos perder clientes por via do aumento do preço. O que aconteceu, por exemplo, foi também diversificarmos a oferta em produtos como os Cabazes de Natal. Para conseguirmos não aumentar muito os preços, sugeríamos menos chocolate e mais bolachas, ou chá, ou outros produtos da marca Arcádia que ajudam o consumidor a ter solução dentro do orçamento que tinham destinado”, esclarece ainda Francisco.Já com o centenário a espreitar, mas “ainda sem equipa criada para pensar nas celebrações”, Francisco salienta o valor e a “pressão emocional” de estar a liderar a Arcádia nesse marco histórico da empresa.“É uma sorte eu ter herdado na minha família o legado da Arcádia: esta marca, este ecossistema de pessoas... Mas é uma sorte que traz consigo uma grande responsabilidade, não só pelas pessoas que já fizeram parte da história da Arcádia, como pelas que atualmente fazem e pelas que ainda vão fazer. E, em nenhum momento, a Arcádia quer desiludir. Muito menos nos 100 anos. É uma responsabilidade grande. Para ser sincero, é até uma pressão grande. Mas estaremos à altura de marcar esse momento, em honra a todas as pessoas que passaram pela empresa, a toda a minha família que dedicou a vida inteira à Arcádia. Eu sou apenas a quinta pessoa a liderar a empresa, em 93 anos -começou o meu bisavô, o meu avô, o meu pai, a minha tia e agora eu. Há aqui, na verdade, quase um preço emocional a pagar”, conclui.Mas a produzir uma tonelada de pastelaria e gelados, além de chocolates, a Arcádia enfrenta o centenário com a mesma tranquilidade e responsabilidade das últimas décadas. Uma doce caminhada..Preço do chocolate dispara e força decisões empresariais. Jerónimo Martins deixa cair Hussell.O dia em que nevou chocolate numa aldeia suíça