Responsável por cerca de 34% da quota de mercado, os modelos clássicos da marca continuam não apenas a ser os mais vendidos, mas também os mais procurados pelos amantes de bons relógios. No mercado dos usados, é também uma das marcas mais valiosas, e se bem que haja outras a tentarem fazer-lhe sombra, ainda estão longe de conseguir, sequer, provocar uma beliscadela.Dados da imprensa especializada referem que a segunda marca mais valiosa no segmento é a Cartier, com um volume de negócios a rondar os 3,7 mil milhões. Menos de metade.E nem o facto de as novidades apresentadas em 2026 – quando o modelo Oyster celebra 100 anos – não surpreenderem particularmente, retira encanto, importância e clientes à maison. Os modelos vão todos – sobretudo os comemorativos – ter uma elevada procura, afiançam os especialistas, e a Rolex continua a mostrar todo o seu poder até nas feiras de relógios. Presente, como sempre, na Watches and Wonders 2026, a marca tem, como sempre, um dos maiores e mais bem posicionados pavilhões e, também como sempre, uma lista praticamente impossível de integrar para conhecer as novidades.Ao lado, a Cartier ocupa dois lados do mesmo corredor. Com uma atitude tão ou mais defensiva – no sentido de “nem todos os jornalistas entram nas nossas sessões” – a marca tenta crescer na exclusividade e nesta forma de fazer cada cliente sentir-se muito especial, por ter a oportunidade de tocar numa peça da sua autoria. Sobretudo junto do mercado asiático, onde o posicionamento funciona particularmente bem. .São duas marcas, aliás, que apesar de apresentarem peças clássicas, elegantes e intemporais – e de qualidade inequívoca, como todas as que estão em Genebra durante esta segunda semana de abril – refletem também aquilo que é uma das tendências deste setor. A necessidade de se destacarem através de pavilhões gigantes, decoração vistosa e muitos seguranças à porta responde a um determinado tipo de mercado que continua a ser muito valioso. São, como algumas outras maisons clássicas, – Vacheron Constantin, Van Cleef & Arpel, IWC – uma prova muito visual do que o dinheiro pode fazer e parte dos Golias que existem na alta relojoaria.Mas há outra tendência que alimenta o setor e que ganha também espaço, ainda que menor, no maior evento do mundo dedicado à alta relojoaria: aquela que procura marcas mais independentes, pequenas, com produções reduzidas e fora dos grandes grupos que dominam a indústria. É por isso que, mais acima, no piso da entrada, elas se aglomeram em espaços pequeninos, à sua imagem, e conquistam pela forma familiar e descontraída com que recebem os visitantes. Desde as mais conhecidas – como a Raymond Weil, que celebra 50 anos de história com algumas reedições de modelos dos anos 1980 – até umas mais rebeldes, se lhes quisermos chamar assim, como é o caso da Kross Studio, que no ano passado se apresentou em Portugal com um modelo dedicado ao Batman. E cujas criações conquistam cada vez mais consumidores jovens de países tão diversos quanto o México ou a China. E se a Raymond Weil garante que vai continuar a oferecer alta relojoaria por preços acessíveis (os preços variam entre os 1200 e os 5200 euros), na Kross os preços começam nos 50 mil euros. .A dificuldade para ambas as casas? Conseguir competir num mundo onde as grandes marcas conseguem sobreviver melhor às flutuações do mercado – no último ano, as vendas de relógios diminuíram em volume, mas mantiveram-se em valor, com os modelos mais caros a sustentar a atividade, com um aumento significativo do preço médio. Algo que pode ser facilmente gerível por uma casa grande e com diversidade de referências, como a Patek Philippe, por exemplo, mas que poderá ser mais complexo de navegar para casas como a Norqain, nascida em 2018 e que se tem destacado pela qualidade dos movimentos apresentados – desenvolvidos, também, em parceria com a Kenissi, que é detida pela Tudor (80%) e pela Chanel (20%). Não por acaso, as marcas independentes são cada vez menos, num mercado onde as fusões e, sobretudo, as aquisições são uma constante.A grande dificuldade dos próximos tempos, resumia, em conversa com o DN, a diretora de Produto e Inovação da Vacheron Constantin, Sandrine Donguy, deverá prender-se, portanto, com a rapidez com que as tendências e preferências dos consumidores se alteram, numa altura em que história, inovação e tradição têm de caminhar de mãos dadas.*O DN viajou para a Watches and Wonders a convite da organização.