A rebelião da Cultura

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Ao longo da História, muitos procuraram debruçar-se sobre o verdadeiro significado de Cultura, por si só, de lata interpretação. Das artes à literatura, da pintura à poesia, do cinema ao teatro, da música à ópera, fervilha o pulsar criativo, o sentido crítico e, sobretudo, a capacidade de, por um lado, representar esteticamente a realidade e, por outro lado, estimular o intelecto, transcendendo a um mundo onde apenas acedem aqueles que coabitam na fértil imaginação. Um dos melhores legados que a Cultura nos deu foi a literacia, o que permitiu o acesso de todos à reflexão crítica e mundana, em tempos fadada a um pequeno grupo de intelectuais, julgando-se detentores da divina sapiência, e arredando, assim, a ignorância. É por isso que o senso comum foi ganhando cada vez mais valor, aliado à perceção, entrelaçando Alta Cultura, Cultura Popular, munida também das tradições, e até a Cultura Pop, entronizada nas novas gerações. Porém, pese embora esta ligação, o distanciamento e a alienação progressiva para com a Cultura tem marcado a atuação dos vários decisores políticos no Ocidente, com reflexo na própria sociedade.

António Lobo Antunes disse-nos que a Cultura "assusta muito". Provavelmente é o motivo por detrás de uma notória desvalorização da Cultura em Portugal, entre as várias razões que se lhe poderão ser apontadas. No campo ideológico, entre sentimentos de posse e perfilhação do setor que redundam no conformismo e estagnação do mesmo por parte da ala mais à esquerda, assim como de um alheamento e desconsideração pelo centro-direita, a Cultura foi sendo campo de batalha onde as tropas aparecem, mas ficam nas trincheiras, ou mesmo plateia sem peça a decorrer. Desde logo, o diminuto investimento que é feito (atualmente, 0,6% do PIB), apoios confinados a um núcleo restrito de protagonistas culturais, a dificuldade em promover a adaptação da cultura à digitalização, assim como a ausência de propostas para a reforma no setor que promovam a aproximação com as novas gerações. A Juventude Social-Democrata, nesse sentido, procurou cumprir esse desiderato e, recentemente, entregou na Assembleia da República um projeto de resolução onde recomenda ao Governo que crie o Estatuto do Artista Estudante no Ensino Superior, uma medida concreta que converge no interesse dos jovens pela Cultura.

O fado da Cultura no nosso país não é, de facto, animador, e isso foi sendo visível na relegação do setor na lista de prioridades para a atuação política. No entanto, e porque esta área foi severamente afetada nesta pandemia, é incompreensível a inércia apresentada, nomeadamente os apoios insuficientes concedidos aos profissionais do setor e a adoção de medidas despropositadas, como a imposição de quotas de música portuguesa para a Rádio. Para além disso, é particularmente sintomático desta secundarização da Cultura, conforme muito bem assinalou o Diretor da Plataforma "Comunidade Cultura e Arte", Rui André Soares, que nos debates para as eleições presidenciais não tenha surgido uma única questão sobre a Cultura; é igualmente sintomático que, na sequência do confinamento, se tenha proibido a venda de livros e o fecho de livrarias, esmorecendo o incentivo à leitura quando o oposto se imperaria. Tudo isto é mau presságio, especialmente para uma nova geração que praticamente cresceu a produzir conteúdo e que pode gerar uma era de ouro da expressão artística neste país, com as condições certas e o acompanhamento devido.

Mário Vargas Llosa disse-nos que a grande função da Cultura na História foi a capacidade de, a certa altura, sermos capazes de imaginar um mundo diferente daquele em que vivíamos, gerando um inconformismo, uma rebeldia que é fonte do progresso humano. Falta, efetivamente, rebelar e desconfinar a Cultura em Portugal.

José Paulo Miler, vice-presidente da JSD

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