É impossível a qualquer comum mortal entrar numa boulangerie de Paris e não se comportar como uma criança numa loja de doces. A quantidade de bolos e bolinhos, secos ou com creme, coloridos e brilhantes, crocantes ou macios, inesperados ou tradicionais, franceses ou portugueses, é de levar qualquer aficionado da dieta ao desespero. . O cheiro de mais de uma dezena de qualidades de pão abre o apetite e os olhos comem por antecipação, fazendo das Boulangerie de Paris locais de peregrinação dos gulosos, ainda que nunca consigam a proeza de provar todos os bolos. Parte do truque de vendas é estarem sempre a aparecer tentações novas... . Benoit Lebel, de 24 anos, natural de Chartres e criado em Paris, França, é o responsável por esta espécie de multiplicação de pães e bolos, mais recentemente aplicada também às lojas Boulangerie de Paris, no Porto. Da primeira, aberta em Janeiro do ano passado, em frente ao shopping do Bom Sucesso, à segunda, junto à estação de S. Bento, em Novembro, e à terceira, em Janeiro deste ano, na Foz, foi um rápido levedar dos negócios. . "Temos de praticar preços mais baixos do que em França, portanto era preciso rentabilizar ao máximo os custos de produção e de transporte das matérias-primas - algumas têm mesmo de vir de França, são completamente diferentes das portuguesas -, por isso era indispensável abrir as três lojas. Foi um investimento muito grande, da ordem dos três milhões de euros, por isso, agora temos de ganhar algum dinheiro para podermos continuar", explica o empresário. "O objectivo é termos entre seis e sete lojas no Grande Porto, antes de avançar para Lisboa. Não nos convém abrir em localidades dispersas, porque é a partir do centro de fabrico que se distribuem os bolos e o pão, quatro vezes por dia", adiantou o jovem empresário formado na parisiense École Supérieure de Commerce. . Veio para Portugal porque tinha muitos amigos portugueses em Paris e achou que poderia haver oportunidades de "negócio por explorar". Inicialmente, abriu um instituto de beleza, vizinho de porta da primeira Boulangerie de Paris. Depois, achou que "não havia em Portugal o conceito de padaria e pastelaria parisiense" e que talvez pudesse funcionar. . Mandou vir um chefe pasteleiro de França. Duas vezes por semana recebe o camião de produtos - conduzido pelo pai, proprietário de um negócio de distribuição em França e sócio de capital das Boulangerie de Paris - e adaptou-se aos portugueses para ter êxito. . "Um exemplo? Desde logo as mesas e cadeiras, porque em França este tipo de estabelecimento serve os clientes para levarem para fora. Depois, porque começámos a trabalhar também com receitas portuguesas. Actualmente, vendemos entre 400 e 600 pastéis de nata só na loja da Boavista", revelou. . Quanto às especialidades francesas, as que mais vendem são os macarons, bolos coloridos feitos com farinha de amêndoa, vendidos à proporção de 600 por dia nas três lojas. "Também vendemos muitos éclairs, tartes de fruta, mil-folhas...", enumera o empresário que investe também em inovação e desenvolvimento de novos produtos para melhorar a rentabilidade e chamar novos clientes. Experiências com farinhas portuguesas poderão criar pães luso-franceses e o novo sistema de vácuo para refeições permitirá, a partir da próxima semana, vender refeições refrigeradas por 4,50 euros. . No centro de fabrico, o empresário insiste em ser rigoroso com a lei e todas as exigências higieno-sanitárias. "A ASAE já cá veio duas vezes e pode aparecer sempre que quiser", diz. Na Internet, críticas à falta de uso de pinças para servir os bolos serviram logo de lição a quem estava habituado, em França, a "pegar nos bolos à mão, pois têm papel em volta". Por isso, agora, Benoit Lebel já perdeu a conta às luvas que compra para os 44 funcionários servirem melhor o exigente cliente português. "Estamos a aprender", admite, simples e disposto a vencer.