Elvino Dias, advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane, e Paulo Guambe, mandatário do Podemos, partido que o apoia, foram mortos na sexta-feira à noite, no centro de Maputo, por indivíduos desconhecidos que dispararam sobre a viatura em que seguiam. Mondlane, ontem à tarde, convocou marchas pacíficas em Moçambique para segunda-feira repudiando o homicídio de dois apoiantes, dizendo, citando a bíblia, que o “sangue” das vítimas “tem de ser vingado”, responsabilizando as Forças de Defesa e Segurança..“Na segunda-feira vai ser a primeira etapa, pacífica, em que nós vamos paralisar toda a atividade pública e privada. Vamos para a rua com os nossos cartazes, vamos manifestar o nosso repúdio”, anunciou ainda Mondlane numa vigília com dezenas de pessoas no local do homicídio dos dois apoiantes, garantindo que a greve, no setor público e privado, que tinha pedido para segunda-feira, em contestação aos resultados preliminares das eleições de 9 de outubro, é para manter, passando agora para a rua. .“Não se isentem. Foram as vossas forças (...) voltaram a cometer um grande crime”, acusou Mondlane, garantindo ter provas da acusação às FDS, que inclui a polícia. Em Maputo, a marcha está convocada para sair às 10:00 locais (menos uma hora em Lisboa), com saída do local onde os dois apoiantes foram assassinados na sexta-feira, no centro da capital..O crime aconteceu na Avenida Joaquim Chissano, centro de Maputo, com fontes no terreno a relatarem uma emboscada por homens armados à viatura em que ambos seguiam, depois das 23.00 locais (menos uma hora em Lisboa), tendo sido disparados vários tiros que acabaram por atingir os dois ocupantes mortalmente. Durante a madrugada de ontem circularam em Moçambique vídeos de extrema violência das duas vítimas e da viatura atingida aparentemente por mais de duas dezenas de tiros..O advogado Elvino Dias, conhecido defensor de casos de direitos humanos em Moçambique, era assessor jurídico de Venâncio Mondlane e da Coligação Aliança Democrática, formação política que apoiou inicialmente o candidato presidencial até a sua inscrição para as eleições gerais de 9 de outubro ter sido rejeitada pela Comissão Nacional de Eleições. Mondlane viria depois a ser apoiado pelo Podemos, cujo mandatário nacional às legislativas e provinciais, Paulo Guambe, também seguia na viatura alvo do crime..A polícia confirmou este sábado que o veículo em que seguiam Elvino Dias e Paulo Guambe, foi “emboscado” e um terceiro ocupante ferido - uma mulher que seguia no banco traseiro que foi atingida a tiro nos membros superiores, não correndo risco de vida. “Foram abordados e bloqueados por duas viaturas ligeiras de onde desembarcaram indivíduos que, munidos de armas de fogo, fizeram vários disparos que provocaram ferimentos e a morte dos indivíduos acima identificados”, disse à Lusa o porta-voz da Polícia da República de Moçambique da cidade de Maputo, Leonel Muchina..Segundo a mesma fonte, as vítimas tinham estado a confraternizar num mercado de Maputo, tendo ocorrido “supostamente” uma “discussão derivada de assuntos conjugais”, de onde “posteriormente terão sido seguidos”. .“Apelamos a todos os mandatários de partidos políticos, cabeças de lista e outras figuras a se furtarem de frequentarem locais expostos e suscetíveis de ocorrência de crimes. (...) E apelamos também à calma e serenidade das pessoas”, acrescentou o porta-voz da PRM..Para o presidente do Podemos Elvino Dias e Paulo Guambe foram mortos por “motivos políticos”. “Foi uma morte planificada e preparada (...), tendo em conta também o contexto em que estamos, com o partido a fazer uma luta pela luta justiça eleitoral. Estamos a terminar agora impugnações a nível dos distritos porque as eleições foram fraudulentas”, declarou Albino Forquilha, presidente do Povo Optimista para o Desenvolvimento de Moçambique (Podemos)..Forquilha afasta assim a hipótese de “assuntos conjugais” avançada pelas autoridades, lembrando ainda que os responsáveis pelo duplo homicídio usaram armas do tipo AK47. “Estes assassínios que ocorreram aqui não diferem do que aconteceu em 2019 [ano em que o ativista moçambicano Anastácio Matavel foi morto a tiro por um grupo composto por elementos das forças policiais, nas vésperas das eleições gerais]. São pessoas do nosso sistema, comandados pela Frente de Libertação de Moçambique”, declarou Forquilha, lembrando que as duas vítimas, que estiveram envolvidas na fundação do Podemos, desempenhavam um papel fundamental na luta pela justiça eleitoral que o partido está desencadear.