Milhares acompanharam esta quinta-feira a recriação histórica da operação militar que derrubou o regime.
Milhares acompanharam esta quinta-feira a recriação histórica da operação militar que derrubou o regime.António Pedro Santos / Lusa

O perdão. Um estava com Junqueira dos Reis, o outro com Salgueiro Maia

Uma história entre dois militares de Abril que mostra a fragilidade dos dois lados da barricada: as forças revolucionárias e as do Estado Novo.
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O dia começou no Terreiro do Paço, com paradas, desfiles, exibições de artilharia, que mais não eram do que demonstrações das capacidades dos veículos, por mar, terra e ar. Houve também apresentações políticas, até porque o Presidente da República é o máximo responsável pelas Forças Armadas.

No fundo, a celebração foi militar e os civis não o esqueceram em nenhum momento deste 25 de Abril. Mas os militares lembram-se de que, a qualquer momento, em 1974, bastava um tiro ter sido disparado inoportunamente e o dia da liberdade teria acabado com sangue derramado.

Depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter cumprido todo o protocolo, acompanhado pelo presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, “os veículos que fizeram Abril”, como foi anunciado nos altifalantes, transformaram o Terreiro do Paço, em Lisboa, num museu a céu aberto.

Berlier Tramagal, Unimog, AML, M47 e chaimites são nomes que descrevem a Revolução dos Cravos. São veículos militares, são antigos, não são usados em operações, mas a obsolescência é compensada com a história.

O momento alto seria a chegada deste aparato ao Largo do Carmo, o centro nevrálgico de todo este dia. E foi com aplausos e agradecimentos por parte de quem estava na rua que os militares que fizeram Abril chegaram ao Largo do Carmo. Vieram nos carros de combate, postos a funcionar pela Associação Portuguesa de Veículos Militares Antigos.

Veículos militares reconstruiram o percurso de Marcello Caetano, do Largo do Carmo até à Pontinha. António Pedro Santos / Lusa

Sem novidade, Lisboa voltou a ser polvilhada com cravos vermelhos. Nas lapelas, nos cabelos, nas mochilas, em tatuagens e nas mãos. E todos os militares os tinham, a condizer com as boinas que revelam o seu passado.

Na recriação histórica da deposição do então Presidente do Conselho, Marcello Caetano , apelidade de “Operação Fim de Regime”, os veículos antigos percorreram as ruas de Lisboa, já o tinham feito em Santarém,até à Pontinha, onde o antigo chefe do Governo terminou o seu dia, há 50 anos, afastado do poder.

“Viemos de Santa Margarida [base militar] com quatro carros de combate aqui para Lisboa para o Regimento de Cavalaria 7, na calçada da Ajuda”, começoupor descrever António Branco, que em 1973 era um furriel com 23 anos, a cumprir o serviço militar obrigatório.

“Na manhã do 25 de Abril fomos opor-nos às forças do movimento que vieram de Santarém”, assumiu, enquanto participante do outro lado do movimento militar que se opôs às forças revolucionárias.

À sua frente, na viagem que fez na recuperada Berlier Tramagal  até à Pontinha, estava António Gonçalves. Agora são amigos, mas no dia 25 de Abril de 1974, ambos militares, pertenciam a fações opostas. António Gonçalves, com emoção, admitiu que demorou a perdoar a antónio Branco por ter estado no outro lado da história.

“Quando lá chegámos com os carros de combate, eles já estavam em posição no Terreiro do Paço”, acrescenta António Branco, enquanto se lembra de que ficou “na Rua do Arsenal. Outros ficaram na Ribeira das Naus. Depois, o nosso alferes Sottomayor era o mais graduado dos chefes de carros de combate.

Eram três furriéis, eu e mais dois, e o Sottomayor. E ele disse que não fazia fogo contra os outros.” Mas o equilíbrio era frágil, como contou ao DN o antigo furriel.

“Depois, apareceu o brigadeiro Junqueira dos Reis a dar ordens para fazermos fogo. E o Sottomayor, como disse que não fazíamos fogo, veio a Polícia Militar e levou-o preso.”

Como é  que nenhum das partes abriu fogo? António Branco admitiu que a sorte foi haver “um carro de combate que não tinha chefe de carro, porque dormia cá em Lisboa, e não aparecia a ordem do 25 de Abril”.

“Eu era chefe do carro de combate do outro lado. Também não ia fazer fogo contra os camaradas.”

António Branco acrescenta que “tinha medo de um tiro do carro de combate” onde estava. “É que o M47 era o carro com o maior poder de fogo do exército português”.

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