Se aproveitássemos a ideia dum Ano Zero da Nova Europa, título do seu livro, e aplicássemos às eleições europeias, elas podem mudar efetivamente algo, ou seja, estamos a fazer um grande exercício democrático, a organizar as maiores eleições do mundo a seguir às indianas, mas do ponto de vista do destino da Europa, há a possibilidade de haver novidades depois do dia 9? Bom, de acordo com a última sondagem, a maioria prevalece nas três principais famílias europeístas, com um crescimento expectável da extrema-direita, mas não suficiente para alterar os equilíbrios a um ponto de tornar o processo colegislativo, o processo de decisão do Parlamento, num processo cheio de atrito e inquinado em determinadas políticas comunitárias. Nesse sentido, há alguma água na fervura sobre as expectativas iniciais. Ou seja, não haverá propriamente uma nova Europa saída das eleições. Acho é que as avaliações que se farão a nível nacional, em função da sustentabilidade dos partidos da extrema-direita, se se aguentam, se crescem, talvez daí possa resultar uma dinâmica distinta do ciclo político anterior. A nova Comissão Europeia pode não ser uma mera questão de continuidade, como seria previsível? Se as três famílias principais validarem a Comissão, a partir da maioria absoluta, não vejo porque é que há de haver descontinuidade. .Continuidade que é com Ursula von der Leyen. Sim. Mas se depois, ao nível de chefes de Estado e de Governo mais da direita radical presentes no Conselho Europeu, ou na negociação para os top jobs, se a família política da primeira-ministra italiana tiver uma influência negocial, aí podemos dizer que haverá alguma alteração na correlação de forças. E é essa dinâmica que espelha mais a avaliação nacional, ou seja, cada ato, em cada país, é mais espelhado no Conselho Europeu do que propriamente no Parlamento Europeu. Depois, como o Conselho Europeu tem uma preponderância maior no processo europeu do que o Parlamento, aí pode dizer-se que há um respaldo, talvez diferente, nos equilíbrios à volta da mesa. E aí a figura do Presidente do Conselho não é irrelevante. Se for uma figura fantoche no bolso de algum chefe de Estado em particular, tende a expor mais a amplitude do atrito à volta da mesa. Se for uma figura com um pedigree político maior, com maior reconhecimento das várias famílias, e com um grau de diálogo mais ou menos igual entre todas, pode ditar uma agenda mais construtiva..Esse perfil de uma figura com um pedigree político forte aplica-se ao ex-primeiro-ministro António Costa? Adequa-se sim. Mas não significa que António Costa esteja na primeira linha para este cargo. A primeira linha pressuporia que ele tivesse o caminho desimpedido em função do handicap nacional que tem neste momento. Agora, é sempre um nome que gera uma expectativa generalizada nas principais famílias políticas. Mas essas principais famílias políticas do Parlamento Europeu podem não ser as principais do Conselho. Porque aqui entre não-alinhados e direita radical o peso é semelhante ao que tem o Partido Socialista Europeu..Quando fala do handicap, está a falar do judicial, porque o facto de ser do Partido Socialista e este não estar no poder, não costuma afetar o apoio a altos cargos? Não me passa pela cabeça que o Governo português, tendo a hipótese de ter um presidente do Conselho Europeu português, não estivesse unanimemente à volta desse nome. Seria um tiro no pé. Seria contra o interesse nacional. O handicap é meramente o judicial. .Von der Leyen tem dito que há três linhas vermelhas na hora de aceitar apoios para a reeleição à frente da Comissão Europeia. E está a falar para os partidos que vêm da extrema-direita, mas também para quem a critica de antemão por aceitar eventuais apoios à direita do PPE. Essas linhas vermelhas são o respeito pelo Estado de Direito, o compromisso europeísta e o apoio à Ucrânia. O futuro da Europa vai ser definido pelo comportamento em relação a estas linhas vermelhas? Eu, no livro, levanto essas questões e muitas outras que acho que também vão influenciar o futuro europeu. Mas o Estado de Direito, a democracia, o respeito pelo quadro jurídico das liberdades e dos direitos consagrados nas várias Constituições, está tudo plasmado nos tratados europeus. É respeitar os tratados. Quem não respeitar os tratados vive sob o espectro das sanções e do articulado que prevê perdas de direitos de voto, sanções, congelamento de fundos, etc., etc. O que tenho defendido e escrito é que nós, quando é para acionar, não devemos ser temerosos porque senão deixamos engrossar o infrator. E, portanto, fomos demasiado temerosos porque um dos infratores, ou dois dos infratores, faziam parte das principais famílias políticas. A partir do momento em que há uma mudança de Governo na Polónia, a sanção cai, o artigo 7.º. A partir do momento em que o outro partido, o da Hungria, sai da principal família política, tem o preço de ficar menos condicionado pelas regras dessa família política que é uma família política de primeira linha no Parlamento. Portanto, o que eu quero dizer é que devemos cumprir os tratados. À Comissão cumpre zelar pelo cumprimento dos tratados, não pode ser de outra maneira. Sobre a evolução da guerra: sim, porque a evolução da guerra vai determinar a correlação de forças que estará na mesma das negociações futuras. E tenho a certeza que nenhum europeísta, muito menos um presidente ou uma presidente da Comissão Europeia, quererá que as regras europeias sejam ditadas por um invasor, por um infrator e por alguém que não tem nenhum pedigree democrático como a Federação Russa. Nós temos que garantir que a correlação de forças beneficia a Ucrânia na mesa das negociações. Primeiro ponto. Para que qualquer quadro negocial tenha sustentabilidade no tempo e seja mais de acordo com as nossas regras. Claro que numa negociação há sempre cedências, mas nós precisamos de não estar numa posição de vulnerabilidade. E a evolução do conflito é que ditará o nível ou não de vulnerabilidade do lado ucraniano e dos seus aliados..E a Europa tem que estar unida para ter força para conseguir apoiar de facto a Ucrânia, certo? Tem que estar sempre unida. O principal problema da União Europeia, o principal desafio, é manter a coesão entre Estados-membros. Quando a oferta partidária disputa mais os termos do consenso europeísta, a coesão fica mais em xeque. Há menos consensos nacionais que, por sua vez, forjam menos consensos europeus. Esse é o nível de tensão que eu acho que vale a pena acompanhar: como é que vários processos eleitorais deterioram o consenso europeu dentro dos países. E depois isso tem o respaldo comunitário. Tem o respaldo comunitário nas questões energéticas, na digitalização e na revolução verde, ou na acomodação dos futuros alargamentos ou não. Veja, por exemplo, o acordo de governo nos Países Baixos. Primeiro, um dos pontos, retomar a energia nuclear, que é, aliás, também uma das traves mestras de um futuro hipotético Governo da CDU alemã. Segundo ponto, o ceticismo em relação ao alargamento..Ou seja, estamos a falar muitas vezes de algo que parece política interna, que parece um mero jogo de alianças partidárias - no caso uma adaptação ao facto de um partido da direita radical ser o mais votado - mas pode condicionar toda a política europeia? Absolutamente. A política europeia é a política nacional. E por isso é que nós temos que estar sempre sobre esta dinâmica de roldanas, entre os impactos nacionais sobre o europeu e o impacto europeu sobre os nacionais. Sem cair naquele chavão de que quando temos um sucesso é nacional, quando temos um problema ele é europeizado..Estamos em campanha eleitoral europeia. Quando acompanha a campanha aqui em Portugal, sente que questões como o alargamento, o apoio à Ucrânia, a revisão dos tratados - por exemplo, a questão de deixar de haver decisões por unanimidade - fazem parte do debate, ou o debate é muito concentrado no país, quase uma segunda volta das legislativas? Eu não vejo problema em que, primeiro, o debate seja pincelado por todas essas questões que enunciou. O processo de decisão, digamos, o pacto verde, o alargamento, a guerra, acho que vai bater sempre aí. Pode não ser nos termos que eu gostaria que fosse, mas não é essa a expectativa que eu tenho. E depois também acho natural que, dentro desta lógica que eu enunciei de nacional e europeu sempre em diálogo, haja permanentemente também uma avaliação sobre o contexto nacional. Isso é válido para todos os países. Isso só prova que mesmo numa eleição europeia, mesmo discutindo questões europeias, nós discutimos também questões nacionais porque elas são indissociáveis. O que podemos é dizer como é que nós reforçamos o nosso papel de Portugal nas instituições. Com mais articulação entre os eurodeputados nacionais ou mais articulação entre as famílias políticas mais representativas dos deputados nacionais. Todos pensamos que dois terços dos mandatos portugueses vão para os dois principais partidos. Essa noção de compromisso entre essas famílias é também um raciocínio aplicável ao nacional, um compromisso maior nas políticas públicas mais importantes por parte dos dois principais partidos. Acho que é um debate a fazer. Outro é como é que nós podemos ter uma voz perante a deslocalização do eixo gravitacional no futuro alargamento ainda mais para o leste. Como é que nós continuaremos a estar nos processos de decisão core, do centro. Como é que nós nos distinguiremos de outros com a nossa radial de relações no resto do mundo. Que tipo de mais-valias é que temos para oferecer neste quadro comparativo. Como é que nós maximizamos o papel de Portugal e dos 10 milhões de habitantes que aqui temos. Acho que são dinâmicas entre o nacional e o europeu que valia a pena que os candidatos a deputados se predispusessem a responder. Mas devo dizer que são para mim claros os posicionamentos dos candidatos, dos partidos, e os lados da história em que estão. E nesse sentido acho que a campanha, não sendo uma campanha eufórica e mobilizadora como uma legislativa, nunca será, não tem propriamente desiludido..Habituámo-nos muito a procurar líderes europeus e geralmente não olhamos para os presidentes da Comissão, olhamos mais para o presidente francês, hoje Emmanuel Macron, ou para o chanceler alemão. Antes Angela Merkel e agora Olaf Scholz. Há algum líder evidente neste momento na Europa? Bom, mais uma vez, é preciso que haja uma grande apetência de um líder para os assuntos internacionais, portanto, algo que está no ADN dele e isso manifesta-se na criatividade das propostas, na forma proativa com que está na diplomacia. Acho que o presidente Macron é o protótipo disso. Ou então é alguém que precisa de ganhar uma enorme legitimidade interna e popularidade para depois conseguir afirmar-se mais na cena internacional, não tendo um ADN internacionalista, chamemos-lhe assim. Portanto, vejo todos, no quadro da fragmentação partidária existente em toda a Europa, com fraca popularidade interna e fraca legitimidade interna. Estamos sempre a falar de níveis de 30% dos seus partidos..Mesmo Macron que tem esse ADN internacionalista exibe fragilidade interna. Macron mascara a fragilidade interna porque o sistema francês é incomparável. É um sistema que pela própria transformação dos últimos anos está muito focado na figura deste presidente. Nem é na figura da Presidência da República, é neste presidente. Ele alterou o sistema político..Moldou-o a partir da imagem dele. Sim, à imagem dele, com todos os riscos que isso traz. Mas depois atinge uma dimensão internacional, gosta desse tabuleiro e dentro de uma certa linhagem francesa confunde o interesse europeu com o interesse francês permanentemente e considera que tem um papel a desempenhar no debate europeu. E tem. Mas não é o único. Acho que também estamos num tempo em que no quadro internacional, global, não só europeu, os pequenos e médios Estados encontraram radicais de atuação mais multialinhados, como eu digo no livro. Portanto, menos estanques em blocos. E maximizam mais as suas valências internas. Sejam na energia, nas matérias-primas, na sua posição geográfica, nos seus portos, etc. Até na sua diplomacia. Por exemplo, no caso dos Emirados, do Qatar. Mas no quadro europeu também acho que há espaço para os pequenos e médios. E aí vê-se, por exemplo, os Bálticos a sobressair com alguns protagonistas, ministros dos Negócios Estrangeiros, primeiros-ministros, normalmente até primeiras-ministras. E depois um ou outro líder que vai sobressaindo regionalmente, como é o caso da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que beneficia de um fator interno que tem a ver com a existência de partidos mais radicais do que o dela. Figuras mais extremistas do que ela, que a fazem necessariamente uma figura mais eleitoralmente acomodada. Não quero chamar moderada, mas dá para distanciar-se. Isso ajuda. Também acho que nesse raciocínio dos pequenos e médios, que têm condições e apetências para o debate europeu, para o debate internacional, o perfil do político português é um perfil que se poderia afirmar neste contexto. Porque é um perfil que conhece tão bem os meandros da política europeia como os meandros da política africana, ou da política latino-americana, ou até da política da América do Norte. O espanhol é a mesma coisa. Não há muitos no quadro europeu que tenham um entendimento das relações internacionais tão integrado. Depois se utilizam, se maximizam essa postura ou não, é outra coisa. O que eu quero dizer é que, dentro desse quadro de perfis, não temos que estar sempre a olhar para o eixo franco-alemão, porque muitas vezes não vem daí a diferença da qualidade. Às vezes vem dos pequenos e médios estados. Eu acho que os perfis portugueses, se tivéssemos uma retaguarda, por exemplo, com um MNE mais financiado no orçamento, se tivéssemos mais quadros intermédios nas instituições internacionais, se tivéssemos, no fundo, um batalhão mais coordenado e reforçado a trabalhar mais para eles e para os interesses nacionais, com outros recursos, podíamos maximizar as características que Portugal tem no quadro europeu e fora deste. .O Ano Zero da Nova Europa Bernardo Pires de Lima Tinta da China 206 páginas