A arte do diálogo cinematográfico confunde-se, por vezes, com uma contenção que se aproxima do silêncio. No clássico E.T., o Extraterrestre (1982), Steven Spielberg filma a despedida de Elliott e do seu amigo de outra galáxia através de uma austera troca de palavras. À beira da sua nave pronta a partir, diz o E.T.: "Vem." Ao que Elliott responde: "Fica." Que acontece neste minimalismo?.A comoção do adeus envolve tudo aquilo que os distingue: não moram na mesma casa. A história dos filmes pode ser contada também através das muitas histórias das nossas casas, dos lugares a que pertencemos ou queremos pertencer - do abrigo do vagabundo em O Garoto de Charlot (1921), de Charlie Chaplin, até ao artifício cénico de Dogville (2003), de Lars von Trier, passando pelo apartamento de De Olhos Bem Fechados (1999), decorado por Stanley Kubrick com pinturas de sua mulher, Christiane..Pelo cinema português, por exemplo, perpassa todo um imaginário, de uma só vez realista e simbólico, marcado pelas singularidades das casas. Lembremos Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, título emblemático do nosso cinema novo, observando o nascimento das Avenidas Novas de Lisboa: náufragos do romantismo clássico, o sapateiro e a empregada doméstica (Rui Gomes e Isabel Ruth) circulam pelas novas casas, tentando encontrar um modo de viver, e sobreviver, num cenário em tudo e por tudo alheio às suas origens..Há mesmo casas portuguesas que existem como puros fantasmas. Assim acontece em Benilde ou a Virgem Mãe (1975), de Manoel de Oliveira, adaptação da peça de José Régio filmada numa "casa-fantasma", prodigioso cenário construído nos saudosos estúdios da Tóbis. Sem esquecer, claro, que o próprio Oliveira nos legou um filme póstumo, Visita ou Memórias e Confissões (rodado em 1982, mostrado em 2015), que é, afinal, uma crónica íntima sobre a casa da sua família..A casa nunca é estranha às leis e aos valores da paisagem social. Óbvio. Mas um óbvio a que nem sempre prestamos a devida atenção. Jacques Tati, mestre das artes europeias da comédia, foi um observador metódico das ilusões e imposturas da "sociedade de consumo", precisamente através das casas. O Meu Tio (1958) pode mesmo ser visto como um derradeiro conto moral sobre a decomposição da França tradicional. O seu símbolo modelar é a casa do próprio Tati: ele habita um pequeno prédio com qualquer coisa de brinquedo, festivo e acolhedor; o seu sobrinho vive com os pais num dos novos bairros, numa casa de tão arrevesado modernismo que, no limite, bloqueia a possibilidade de qualquer relação (ainda) humana..Numa obra-prima de 1966, Duas ou Três Coisas sobre Ela, Jean-Luc Godard prolongou a reflexão de Tati através de uma visão de profundo desencanto. As novas casas da classe média ("ela", no título, refere-se à "região parisiense") são concebidas como mecânico prolongamento de rituais de trabalho e família viciados nos valores mercantis do consumo: na imagem final do filme, a cidade é mesmo figurada através de uma "construção" feita com embalagens de produtos desse mesmo consumo..Num contexto bem diferente, Alfred Hitchcock foi também um analista das relações de inocência e culpa vividas em casas que são verdadeiras personagens. Lembremos o cenário deliciosamente teatral de A Corda (1948), tão sereno e confortável que parece rejeitar o próprio crime que nele se comete logo nos momentos iniciais. E também, claro, a mansão gótica de Psico (1960), verdadeira reconfiguração arquitetónica do universo interior de Anthony Perkins, aliás, Norman Bates..Terá sido em Janela Indiscreta (1954) que Hitchcock foi mais longe na abordagem da casa como território emblemático do clássico American Way of Life. O filme evolui, aliás, como uma aventura de duas casas. Do lado de cá, temos James Stewart, fotógrafo de profissão, uma perna engessada, sozinho no seu apartamento nova-iorquino, aguardando as visitas regulares de Grace Kelly. Mas Hitchcock é um perverso de todos os paradoxos: a futura princesa do Mónaco não é, de momento, a obsessão do nosso herói. Acontece que do lado de lá está a casa que ele observa com as suas lentes, pressentindo o consumar de um crime... Tudo acontece no interior de um maravilhoso pátio urbano, verdadeiro microcosmos citadino em que, por assim dizer, se recria o espírito das pequenas comunidades através das quais o país cresceu para oeste. Só que, desta vez, a proximidade do outro é também o primeiro e fundamental fator de inquietação - o thriller confunde-se com o ensaio filosófico..No imaginário de Hollywood, Hitchcock acabou por desempenhar o papel de um analista ambíguo: os seus filmes apresentam-nos heróis que ainda procuram a proteção redentora dos cenários clássicos, mesmo quando já não parece haver redenção possível. Sobra, por isso, a nostalgia dos tempos clássicos, simbolizada, por exemplo, pela jovem Judy Garland, sob a direção de Vincente Minnelli, em Meet Me in St. Louis , vivendo e cantando a utopia de uma família em perfeita harmonia com o seu cenário interior. Foi em 1944. E, por uma vez, o título português, embora não respeitando o original, soube condensar a mensagem do filme. Convém lembrá-lo: Não Há como a Nossa Casa.