1864

Matateu e Vicente. Dois irmãos na história de um Belenenses centenário

O Belenenses, clube da Cruz de Cristo, faz 100 anos nesta segunda-feira e mesmo só com um título de campeão conquistado faz parte da história do futebol português e de Lisboa. Tem um dos estádios mais bonitos do país e vários jogadores e treinadores que deixaram marca.

Fundado a 23 de setembro de 1919, num banco de jardim em Belém, o Clube de Futebol Os Belenenses completa nesta segunda-feira 100 anos de existência. Um centenário cheio de histórias, de momentos e figuras, cujo ponto desportivo mais alto terá sido alcançado em maio de 1946, precisamente o mês e o ano em que o clube foi campeão nacional pela primeira e única vez.

Desta equipa do Belenenses que foi campeã nacional (antes tinha ganho o Campeonato de Portugal em três ocasiões, 1927, 1929 e 1933) fazia parte uma das grandes figuras do clube, Artur Quaresma, que nesse ano de glória participou em 22 jogos e marcou 14 golos, ele que representou o emblema do Restelo entre 1936 e 1948.

Artur Quaresma foi um dos três jogadores do Belenenses que num célebre jogo entre as seleções de Portugal e Espanha, em fevereiro de 1938, nas Salésias, numa partida combinada entre Salazar e Franco, teve a coragem de desafiar o regime. Numa altura em que era tocado o hino e jogadores e público se levantaram de braço estendido a fazer a saudação fascista, num estádio cheio de figuras ligadas ao regime e embaixadores da então Itália fascista e da Alemanha nazi, três jogadores, todos do Belenenses, recusaram-se a seguir o exemplo. Artur Quaresma manteve as mãos atrás das costas; Simões e Amaro fecharam o punho. O gesto saiu-lhes caro.

"Fomos à PIDE. Eu, deixando o braço em baixo, disse que me esquecera de o levantar. Não houve mais problemas porque o Belenenses moveu influências. Nunca fui político, mas embirrava com aquelas coisas do fascismo. O Barreiro era foco de comunistas opositores ao regime e eu era amigo de muitos. Mas fiz aquilo sem premeditação, foi um ato natural", contou Quaresma anos mais tarde, ele que morreu em dezembro de 2011. Na revista Stadium, na altura, saiu uma fotografia retocada pela censura em que os jogadores apareciam com os dedos esticados.

Nas décadas de 1950 e 1960 atuaram no Belenenses as duas maiores figuras de sempre do clube. Matateu e o seu irmão Vicente Lucas. Começaram por brilhar nas Salésias, na Ajuda, mas depois mostraram-se no Estádio do Restelo, inaugurado a 23 de setembro de 1956, no espaço de uma antiga pedreira cedida pela Câmara Municipal de Lisboa, com vista para o Tejo e para a Torre de Belém.

"Nunca fui político, mas embirrava com aquelas coisas do fascismo", contou Artur Quaresma, jogador do Belenenses que num jogo entre Portugal e Espanha, em 1938, recusou fazer a saudação fascista.

Matateu, a oitava maravilha do mundo

Nascido em Lourenço Marques, Moçambique, Matateu chegou ao clube de Belém em 1951, oriundo do Grupo Desportivo 1.º de Maio, filial do Belenenses - ganhou 30 contos de luvas e auferia 1600 escudos de salário por mês. Logo na estreia pelos azuis, nas Salésias, nesse mesmo ano, frente ao Sporting, deixou o seu cartão-de-visita: marcou dois golos na vitória do Belenenses por 4-3 e deixou o campo carregado em ombros. "Os adeptos azuis, em completo delírio, invadiram o campo e levaram-no em ombros até à cabina. Disse-se então, e era verdade, que pela primeira vez em Portugal homens de raça branca levaram em ombros e em triunfo um homem de raça negra", pode ler-se num texto no site oficial do Clube de Futebol Os Belenenses.

O avançado, que além dos golos também se destacava pelas assistências, nunca conseguiu ser campeão nacional (esteve perto, em 1955, ano em que o Belenenses perdeu o campeonato a quatro minutos do fim ao consentir um empate com o Sporting), mas tornou-se uma figura da seleção portuguesa e um dos melhores jogadores a atuar em Portugal - apontou mais de 200 golos na carreira e foi o melhor marcador do campeonato por duas vezes (1952-53 e 1954-55).

Matateu brilhava no Belenenses, mas foi ao serviço da seleção nacional que ganhou projeção internacional. Como num jogo em maio de 1955 contra a poderosa Inglaterra, quando fez a assistência para o primeiro golo marcado por José Águas e depois fez o 2-1 para Portugal (que venceu por 3-1), com um grande golo depois de driblar vários adversários e bater o guarda-redes Williams.

"Um negro, sempre sorridente, natural de Moçambique, África Oriental Portuguesa, é esta noite o rei do futebol português. Em Moçambique foi-lhe dado o nome de Lucas da Fonseca, mas há muito tempo que já ninguém se preocupava com isso. Passaram a chamar-lhe Matateu - um cognome que significa a 'oitava maravilha do mundo' - desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão. E foi essa oitava maravilha do mundo do futebol que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada", podia ler-se à data no jornal inglês Daily Sketch.

"Passaram a chamar-lhe Matateu - um cognome que significa a 'oitava maravilha do mundo' - desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão", escreveu a imprensa inglesa após um Portugal-Inglaterra onde Matateu brilhou.

Também a France Football se rendeu ao talento de Matateu pelos grandes jogos que fez com a camisola do Belenenses na Taça Latina, diante dos colossos Real Madrid e AC Milan. "Alfredo Di Stefano cede o seu lugar de vedeta a Matateu, o extraordinário negro de Moçambique. Esperava-se Di Stefano e tivemos Matateu. Uma revelação!", lia-se na prestigiada revista francesa.

Matateu, que bebia várias cervejas por dia e até no intervalo dos jogos, foi brilhando com a camisola do Belenenses e de Portugal e na época 1963-64, com 37 anos, deixou os azuis, representando depois o Atlético, Amora, Desportivo de Gouveia e Chaves, antes de se radicar no Canadá, falecendo em janeiro de 2000, aos 72 anos.

O Corta Vicente que secou Pelé

Matateu já era uma estrela dos azuis e da seleção quando o seu irmão Vicente Lucas assinou pelo Belenenses, em 1954, o único clube que o extremo-esquerdo representou durante a curta carreira e do qual é ainda hoje a maior referência viva.

"Primeiro fui o irmão do Matateu, depois fui 'o gajo que era bom', e só depois o Vicente Lucas ou o Pezinhos de Lã. Depois fui o Corta Vicente. Na altura, o futebol era rei na rádio. Nos relatos, quando iam descrever um lance meu, era sempre a mesma coisa: 'Corta, Vicente.' Ainda hoje é uma forma carinhosa de me lembrarem o jogador que fui. Se cortas ou roubas a bola ao Pelé tens o currículo feito, mas eu fui mais do que isso", contou numa entrevista ao DN, em agosto de 2018.

"Nos relatos, quando iam descrever um lance meu, era sempre a mesma coisa: 'Corta, Vicente.' Ainda hoje é uma forma carinhosa de me lembrarem o jogador que fui", contou Vicente Lucas ao DN.

E lá está... Pelé. Apesar de insistir que a sua carreira foi mais do aquele célebre jogo pela seleção nacional no Mundial de 1966, contra o Brasil, no qual secou o rei Pelé, esse jogo ficou para a história: "Foi uma coincidência marcar o Pelé. Acho que nessa altura não havia isso da tática. O Otto Glória, que treinava o Belenenses e conhecia o Pelé, disse-me assim: 'Fica de olho nele, se ele for à casa de banho tu vais com ele.' Eu tentei, ele fugia pela esquerda, pela direita, pelo meio... Um jogador daqueles não se podia marcar, era difícil, um jogador extraordinário que não tinha um lugar certo para jogar. Marquei-o e não me saí mal. Não sei como o fiz, mas fiz.

E nós ganhámos por 3-1. Mas digo-lhe uma coisa: nem Pelé nem Eusébio se comparavam ao Matateu. E não digo isto por ser meu irmão, mas porque era um jogador do caraças."

Quando o Belenenses defrontou o Real Madrid e o AC Milan na Taça Latina, a revista France Football, que tantos elogios fez ao seu irmão Matateu, também destacou Vicente Lucas: "Confirmou toda a sua classe. Com um estilo e uma souplesse magnífica, efetua um vai e vem contínuo. Com 19 anos, Vicente Lucas é, sem dúvida alguma, um dos melhores médios europeus."

O ano de 1966 ficou marcado pelos melhores (Mundial de 1996, onde Portugal brilhou e garantiu o terceiro lugar) e também pelos piores motivos, pois foi nesse ano que Vicente Lucas teve um grave acidente de carro e perdeu um olho, uma fatalidade que o obrigou a pôr um ponto final na carreira de jogador de futebol aos 30 anos.

Uma história também de treinadores

Artur Quaresma, Matateu e Vicente Lucas foram alguns dos melhores futebolistas da história centenária do Belenenses, clube que atualmente atua nos distritais, depois de em 2018 ter tomado a decisão de se separar da SAD e começar tudo de novo. Além do campeonato nacional conquistado em 1945-46, o Belenenses ganhou também três Taças de Portugal (1941-42, 1959-60, 1988-89).

O clube da Cruz de Cristo tem também uma história feita de treinadores, casos de Otto Glória, que orientou os azuis entre 1959 e 1961, depois de ter deixado o Benfica. Ou Fernando Riera, o chileno que esteve ao comando do clube entre 1954 e 1957 e que depois viria a transferir-se para o Benfica, onde perdeu a final da Taça dos Campeões Europeus de 1962-63.

Otto Glória, Fernando Riera e Helenio Herrera (um dos impulsionadores do catenaccio) foram alguns dos ilustres treinadores do Belenenses.

Entre Otto Glória e Fernando Riera, o Belenenses teve como treinador Helenio Herrera, técnico franco-argentino que tinha ganho dois campeonatos espanhóis pelo Atlético de Madrid anos antes e que mais tarde, já na década de 1960, depois de ter passado pelo Barcelona, onde foi duas vezes campeão espanhol, viria a ficar na história do Inter Milão - além de três títulos de campeão italiano venceu duas Taças dos Campeões Europeus.

Helenio Herrera foi um dos grandes dinamizadores do catenaccio, uma tática defensiva, com marcação homem a homem, onde surge um líbero a apoiar os quatro defesas, que já tinha sido utilizada por vários treinadores (a primeira vez pelo austríaco Rappan na década de 1930 e depois já em Itália por Nereo Rocco), mas que no Inter de Milão teve um enorme sucesso.

Exclusivos