Como Trump e Putin estão a mudar a Europa

Está tudo numa frase do Twitter: "Viva Trump, viva Putin, viva la Le Pen e viva la Lega!" A descrição do italiano Matteo Salvini tem a virtude de não precisar de tradução. Estes "vivas" resumem os dias que correm na União Europeia

Esta é uma novidade. Pela primeira vez, as duas maiores potências militares mundiais parecem agir concertadamente na Europa. A estratégia é clara: apoiar, financeira e politicamente, os partidos nacionalistas, que contestam a fragilizada "eurocracia". Os temas sentem-se à flor da pele e dão votos, um pouco por todo o lado. A pressão migratória, a identidade religiosa, o combate ao islamismo, a promessa de que com fronteiras fechadas a economia melhora, a quimera de uma "liderança forte". Muitos dos partidos que se reclamam deste ideário já conquistaram o poder, em vários países europeus, como a Itália, a Áustria, a Polónia, a Hungria, a República Checa, a Eslováquia. Outros estão a tentar, como Marine Le Pen, em França, Geert Wilders, na Holanda, Nigel Farage, na Inglaterra, ou a AfD, na Alemanha.

E, desde a semana passada, há uma internacional-nacionalista em formação. Chama-se O Movimento e tem como porta-voz informal Steve Bannon, um norte-americano que ajudou a criar Donald Trump."Tudo o que estou a tentar ser", afirmou em Itália ao The New York Times, "é a infra-estrutura do movimento populista global".

Em França, ao lado de Marine Le Pen, Bannon foi mais longe: "Deixem que vos chamem racistas. Deixem que vos chamem xenófobos. Usem isso como uma condecoração." Nesse momento em que apoiava publicamente a extrema-direita francesa, Bannon sabia que o partido recebera nove milhões de euros de empréstimo do First Cezch-Russian Bank, depois de contactos políticos com o Kremlin. Bannon sabia também que, em Itália, ou na Áustria, ou na Hungria, os seus companheiros políticos elogiam Putin e recebem o seu apoio. Em constante viagem entre capitais europeias, o antigo estratega-mor de Donald Trump, tem uma imagem do futuro da Europa em mente. "A história está do nosso lado."

Mas a história, a verdadeira, sobre o que passou, não guarda nenhum momento em que Washington e Moscovo tenham como preferência política comum o nacionalismo europeu. Pelo contrário: da última vez que convergiram, sobre a Europa, foi para combater o racismo e a xenofobia na segunda guerra mundial. Depois voltaram a divergir durante as décadas da guerra fria. Até agora.

Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, falou com o DN sobre esta mudança. Se está "preocupado" com o crescimento dos partidos nacionalistas europeus (ver texto no primeiro caderno), mostra-se quase sarcástico a comentar a estratégia comum de Trump e Putin. "Quanto a haver uma convergência, ambos negam. Quem sou eu para a afirmar?" Mas não deixa de avaliar o que a Casa Branca e o Kremlin mostram querer para a Europa. O apoio dos EUA à construção da União Europeia, que era até agora claro, parece ter mudado, diz. "Manifestamente, com esta administração, essa não é essa prioridade." Santos Silva também não vê "nenhum interesse estratégico russo para a construção europeia".

Por estes dias, Trump e Putin convidam-se, mutuamente, para encontros nas respetivas capitais - depois de terem tido uma reunião em Helsínquia - e decorrem investigações judiciais nos EUA para determinar se houve interferência russa na eleição presidencial americana.

Em quase todos os países europeus (Portugal é uma das exceções) há notícias sobre o envolvimento de uns e outros, ou dos dois, em eleições locais. Do referendo da Catalunha ao do Brexit, das eleições na Alemanha às da Holanda. Os principais apoiantes do nacionalismo europeu dominam a estranha máquina de convencimento em que se transformou a internet.

Os principais apoiantes do nacionalismo europeu dominam a estranha máquina de convencimento em que se transformou a internet

A Cambridge Analytica, que teve acesso aos dados de 87 milhões de utilizadores do Facebook, e trabalhou nas campanhas de Trump e pelo Brexit, foi criada por um dos principais financiadores políticos do presidente americano. Robert Mercer é também um mecenas da intrincada rede de "notícias falsas" que ajudam - apenas pela repetição de mentiras - a formar opinião entre os eleitores. A Europa é um destino privilegiado dessas campanhas, basta ver sites como o Gatestone Institute, de que a família Mercer é dona. Ali podemos ler mentiras escritas como verdades: Londres é uma colónia islâmica, os refugiados estão a espalhar doenças, ou fazem violações em massa.

Mercer foi um dos principais financiadores do jornal que Steve Bannon dirigiu, Breitbart. O director do Gatestone Institute foi John Bolton, até ser nomeado por Trump para seu conselheiro de segurança nacional.

A Rússia tornou-se especialista nessa batalha política online. Recentemente, a Comissão Europeia identificou 3500 casos de "fake news" difundidas da Rússia para a UE, em várias línguas. O comissário para a segurança, Julian King, afirmou no Parlamento Europeu que "parece haver, francamente, poucas dúvidas de que a campanha de desinformação pró-Kremlin é uma estratégia orquestrada".

Há vários anos que Bernardo Pires de Lima estuda a política europeia da Rússia. No seu livro Putinlândia (ed. Tinta da China) adverte: "Putin está a construir um império de influência na Europa. Não precisa de ocupar territórios inteiros - basta apoiar bolsas separatistas."

Ao DN, o investigador de política internacional vê uma semelhança na ação dos presidentes russo e americano, sobre a Europa: "O desenlace pretendido pelos dois círculos de poder é o mesmo." Entalada entre duas potências nucleares, que têm um discurso errático (Trump) ou hostil (Putin), "o problema europeu é saber como lidar com isto sem desagregar". "É um momento singular."

Porém, para Pires de Lima, "é prematuro olhar para Trump e Putin como dois pratos da mesma balança". Há, na sua opinião, uma diferença fundamental. O "clã que gravita à volta de Putin" tem uma influência decisiva na política do Kremlin. Em Washington "não é claro que o círculo de poder que esteve na origem de Trump tenha a mesma capacidade organizadora".

"É prematuro olhar para Trump e Putin como dois pratos da mesma balança"

Há, no entanto, garante Pires de Lima, uma vantagem que os partidos nacionalistas na Europa aprenderam a retirar. "Hoje em dia é vantajoso em muitos debates europeus que se anuncie a proximidade com Putin. É um trunfo eleitoral." Seja nos países de Leste, onde essa identificação é histórica, seja no Ocidente em que a figura "forte" de Putin - o líder que dá murros na mesa e mostra "fibra" - cativa insuspeitos democratas.

Em países como a Alemanha, a Áustria ou a Itália há coligações de governo em que ministros importantes já foram ao Kremlin saudar Putin. Alguns, como o ministro Horst Seehofer, da CSU, lideram partidos conservadores tradicionais. Esse é um risco. "Os partidos conservadores estão a enveredar pelo facilitismo", critica Bernardo Pires de Lima.

Seja por se coligarem com os nacionalistas, seja por terem nas suas fileiras o "herói" de Steve Bannon. Esse é Viktor Orbán, o húngaro que está a construir uma versão muito diferente daquilo a que chamamos democracia. Em Budapeste, tanto Trump como Putin são vistos como aliados.

Mas não é só entre os conservadores que o problema se põe. Na Eslováquia e na Roménia, os social-democratas também fazem parte desta rede de influência eurocéptica.

E mesmo na Polónia, onde a Rússia não cativa o partido nacionalista Lei e Justiça, a "história" a que se referia Steve Bannon parece estar a ser escrita do mesmo modo. Trump escolheu Varsóvia para a sua primeira visita à Europa. E o governo local - apesar das suspeitas, nunca confirmadas, que mantém sobre a ação de Moscovo na morte do ex-presidente Lech Kaczyński - defende o fim das sanções europeias à Rússia.

Que Trump, ou Putin, possam querer uma Europa com fronteiras nacionais, governos autoritários, liberdades reduzidas, identidade à flor da pele, tudo isso dependerá sempre de um detalhe importante: a valorização que os europeus façam do que têm a perder, ou a ganhar, com isso. Se Bannon tiver razão sobre o sentido da história, a mudança que já se vê será maior no futuro.

Ler mais

Exclusivos

Adolfo Mesquita Nunes

Premium Derrotar Le Pen

Marine Le Pen não cativou mais de dez milhões de franceses, nem alguns milhões mais pela Europa fora, por ter sido estrela de conferências ou por ser visita das elites intelectuais, sociais ou económicas. Pelo contrário, Le Pen seduz milhões de pessoas por ter sido excluída desse mundo: é nesse pressuposto, com essa medalha, que consegue chegar a todos aqueles que, na sequência de uma crise internacional e na vertigem de uma nova economia digital, se sentem excluídos, a ficar para trás, sem oportunidades.

João Taborda da Gama

Premium Temos tempo

Achamos que temos tempo mas tempo é a única coisa que não temos. E o tempo muda a relação que temos com o tempo. Começamos por não querer dormir, passamos a só querer dormir, e por fim a não conseguir dormir ou simplesmente a não dormir, antes de passarmos o resto do tempo a dormir, a dormir com os peixes. A última fase pode conjugar noites claras e tardes escuras, longas sestas de dia com um dormitar de noite. Disse-me um dia o meu barbeiro que os velhotes passam a noite acordados para não morrerem de noite, e se ele disse é porque é.