O algoritmo da felicidade

Afinal, quando acedemos a toda a "informação do mundo", que tipo de conhecimento estamos a construir através do Google? Larry Page será um herdeiro dos enciclopedistas do século XVIII?

Últimos dias do mês de agosto do glorioso ano de 2018. Consulto o Google Play e verifico que posso escolher entre cinco áreas temáticas: aplicações, filmes, música, livros e dispositivos. Nunca o utilizei, não tendo sequer fornecido ao sistema qualquer informação sobre eventuais formas de pagamento dos respetivos conteúdos. Em todo o caso, ao visitar a área dos filmes, depois de duas zonas identificadas por expressões inglesas - "Top Selling Movies" e "New Releases" -, deparo com uma oferta em português: "Recomendados para Si".

Apesar do meu distanciamento, o Google Play tem alguma ideia sobre quem eu sou. Ou, pelo menos, sobre os filmes que quero ver. O título que encabeça a lista de "recomendações" não podia ser mais eloquente: Rampage - Fora de Controlo, "ação e aventura", em que Dwayne Johnson enfrenta George, o gorila gigante que era seu amigo, mas que se tornou violento devido a experiências genéticas...

A lista prossegue mais ou menos no mesmo tom (com banais notas informativas, umas em inglês, outras num pavoroso português com sotaque brasileiro), mas há que reconhecer-lhe uma festiva diversidade. Assim, o Google Play recomenda-me A Forma da Água, a par, por exemplo, de As Cinquenta Sombras Livre (aliás, Cinquenta Tons de Liberdade), neste caso prometendo um fascinante desenlace: "(...) novas ameaças podem atingir um final feliz, antes mesmo que ele comece." Não sei se percebi, mas não é essa questão.

Em que cultura mediática nos obrigam a viver? Como é possível que o prazer cinéfilo tenha sido reduzido a este deprimente caos informativo? Com o seu aparato global de hardware e software, entidades como o Google estão longe de existir apenas como instrumentos de "pesquisa". Em boa verdade, a sua ação não pode ser dissociada da definição de um novo modelo de pessoa e, em particular, da atividade cognitiva.

Como é que o Google me define como indivíduo? Ou será que é suposto não perguntar e seguir em frente? Devo entregar-me como um sonâmbulo à abundância da oferta, aceitar a boa vontade do sistema de busca, gastar 3,99 euros no aluguer do filme e ficar a saber se Dwayne Johnson consegue reconquistar o coração do seu bem amado gorila?...

"Acessível e útil"

Evitemos o alarido tão típico da Net: não se trata de reduzir o Google a uma qualquer dicotomia "pró/contra". Seria como demonizar as maravilhas existenciais que o automóvel nos concedeu ao longo de mais de um século - afinal, sabemos que não podemos omitir o automóvel das nossas ansiosas reflexões sobre a poluição do planeta.

Na sua universalidade, omnipresença e omnipotência, o Google existe como expressão contemporânea do desejo de conhecimento enciclopédico. Relembremos as palavras de um dos seus fundadores, Larry Page: "No essencial, o nosso objetivo é organizar a informação do mundo, tornando-a universalmente acessível e útil" (peço desculpa pela perversão, mas todas as citações foram obtidas através do... Google).

Eis uma afirmação que, até pela sinceridade do seu tom panfletário, suscita uma dúvida básica. Isto é, sobre as bases de onde partimos: até que ponto, ou de que modo, a mera acumulação de informação é geradora de conhecimento?

Fazemos, por exemplo, uma pesquisa sobre um dos registos emblemáticos dos Beatles, "White Album" (à beira de completar 50 anos), e o computador diz-nos que gastou 0,42 segundos para encontrar 2.100 milhões de resultados... Depois de tão vertiginosa experiência, que sabemos - e como sabemos - sobre o álbum em questão? O romantismo de While My Guitar Gently Weeps passou a integrar a nossa visão multifacetada do amor entre os humanos? Será que reconhecemos a estrutura agreste de Happiness Is a Warm Gun como mais ousada do que muitas experiências do hip-hop do século XXI? Sabemos, ao menos, que em 2015 o tema Revolution foi recriado numa versão absolutamente genial para o genérico final do filme de animação dos Mínimos?...

Para Page, tais perguntas serão irrelevantes. O paradoxo tecnológico em que se coloca envolve um conceito instrumental do próprio trabalho humano: "Sempre acreditei que a tecnologia deve fazer o trabalho difícil - descoberta, organização, comunicação -, de modo que os utilizadores possam fazer aquilo que os torna mais felizes: viver e amar, em vez de arranjar confusões com computadores irritantes! Isso significa que os nossos produtos trabalham sem se dar por eles."

Sem se dar por eles? Convenhamos que é modéstia a mais para um sistema de busca que regista 3.500 milhões de pesquisas diárias... O que está em causa não é "tudo o que o Google me permite fazer". Trata-se, isso sim, de colocar uma pergunta técnica e existencial: "Como sou através do Google?" Ou ainda: "No mundo global, coletivizado e generalista do Google, que significa dizer eu?"

Que sistema social?

Será Larry Page um herdeiro dos enciclopedistas do século XVIII e, em particular, do seu racionalismo e espírito de tolerância?

Digamos que há nele uma mesma vontade, ética e política, de partilha de saber e engrandecimento dos outros: "O homem mais feliz é aquele que dá felicidade ao maior número de outros homens", escreveu Denis Diderot (1713-1784), resumindo a vocação da obra monumental - Encyclopédie, ou Dictionnaire Raisoné des Sciences, des Arts et des Métiers (35 volumes, 1751-1772) - cuja organização coordenou com Jean le Rond d'Alembert. Com uma diferença que está longe de ser secundária. Para Diderot e, de um modo geral, para os mestres do Iluminismo, há (ainda) uma natureza que se perfila como pano de fundo dos gestos humanos e da sua dimensão moral: "Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros." No caso de Page, a sensualidade multifacetada da natureza deu lugar à gélida precisão dos algoritmos.

A sua lei é: não comandar ninguém, celebrando o algoritmo como a comovente encarnação da neutralidade cognitiva. Para além do determinismo redentor do seu apelido (page=página), foi também Page que criou o principal algoritmo aplicado nas pesquisas Google (PageRank), determinando a importância das páginas disponíveis na Net e, por fim, hierarquizando-as para, de alguma maneira, consumarem o milagre de corresponder às nossas pesquisas. Se Dwayne Johnson e o seu gorila gigante me aparecem como hipótese de consumo, isso significa apenas que o algoritmo se preocupa com a minha felicidade - mesmo que isso me deixe indiferente, eventualmente indignado, como é que eu dialogo com as boas intenções de um algoritmo?

Que sistema social estamos a construir através deste saber informático e informatizado? A pergunta justifica-se tanto mais quanto há, pelo menos, duas gerações que interiorizaram a "ideia" de que o conhecimento se define apenas pelo número de clicks a que nos obriga - sendo essa obrigação apresentada como expressão de uma natureza inquestionável.

Dir-se-ia que à clássica conceção vertical do saber, com entidades e categorias hierarquizadas, sucedeu um mundo virtual de monótona horizontalidade: tudo está disponível no mesmo plano, no mesmo território homogéneo, enorme planície de links regidos por algoritmos. Já não é ficção científica - tornou-se modelo social.

Na minha memória, reaparece uma imagem com 50 anos (trinta anos anterior ao nascimento do Google). É o rosto do astronauta interpretado por Keir Dullea em 2001: Odisseia na Espaço, de Stanley Kubrick. Face ao sadismo do computador HAL 9000 - disposto a sacrificar as vidas humanas para consumar os objetivos do seu programa -, o pânico do adulto cruza-se, nos olhos de Dullea, com a magoada nostalgia da infância.

Para que conste: posso rever o filme de Kubrick no Google Play por 2,99 euros, menos um euro que o gorila de Dwayne Johnson. Enfim, não me posso queixar: a democracia digital oferece a inteligência a preço de saldo.

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