Filhos únicos só com um filho. Estão aí os netos únicos

Portugal tornou-se um país de filhos únicos e está já a chegar à geração dos netos únicos. Fomos conhecer famílias em que esta opção assenta na falta de condições sociais para ter mais filhos.

Sem irmãos, sem cunhados e apenas com um filho, o Natal de Cristina Rivotti e da família mais próxima junta à mesa sete pessoas. "Somos poucochinhos", descreve. Por isso, a farmacêutica admite que, se depender de si, Duarte, de 3 anos, não será como a mãe e o pai: filho único. No entanto, esta é uma realidade cada vez mais comum em Portugal. Onde o número de famílias com um filho cresceu de 44% para 55% do total de famílias em apenas 20 anos (1991 a 2011). E no ano passado mais de metade dos bebés que nasceram - 44 472 em 86 154 - eram primeiros filhos. O DN foi conhecer famílias que já vão na segunda geração de filhos únicos e é comum entre todas que ter só um filho não foi um plano, é uma consequência das circunstâncias. "Fazemos o que podemos com o que temos", sintetiza Patrícia Correia, de 43 anos.

A filha tem hoje 11 anos, mas Patrícia, que se separou do pai dela ainda grávida, não se vê a ter mais filhos no futuro próximo. E apesar de ter uma meia-irmã de um segundo casamento do pai, a diferença de idades e a falta de ligação entre elas faz que se considere filha única.

Enquanto crescia, Patrícia não sentiu falta de ter um irmão por perto. "Sempre tive muita gente à volta, muitos primos e filhos de amigos dos meus pais que tinham uma vida social muito ativa", descreve. Um modelo que lhe fez bem e que tenta reproduzir para a filha. Mas se a mãe ainda teve primos com quem brincar, ela não os terá. Por isso, ganham relevância os laços de afinidade e os tios passam a ser os melhores amigos dos pais e os primos os seus filhos.

Apesar de ter apenas 30 anos, Cristina acredita que Rodrigo, de 2 anos e meio, será filho único

É isso mesmo que sublinha Cristina Neto. "Os tios do Rodrigo são os amigos mais próximos." Apesar de ter apenas 30 anos, Cristina acredita que Rodrigo, de 2 anos e meio, será filho único: "Por causa da situação financeira, da precariedade dos empregos e da falta de tempo. Ia ser difícil dar a educação que queremos a mais do que uma criança."

Laços de afinidade substituem os de sangue

Com os núcleos familiares cada vez mais reduzidos, a demógrafa e diretora da Pordata Maria João Valente Rosa explica que as famílias de sangue vão ser substituídas pelas de afinidade. "A forma como concebíamos a família está a mudar. Algo que se está a perder com o tempo é a noção de que os laços de sangue é que contam. Cada vez mais o que conta são os laços da afinidade. Isso também já obriga e está a fazer repensar esse conceito de família."

E embora reconheça que "crianças que não têm outras crianças para brincar, para disputar atenção", seja "complicado", também não é "necessariamente mau desde que saibamos adaptar-nos, não podemos continuar a pensar que o que conta é a ligação de sangue", sublinha a diretora do portal de estatísticas da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Não ter com quem brincar não foi fácil para Cristina Rivotti. Mas foi a chegada à adolescência e não ter ninguém de uma idade próxima com quem dividir as asneiras, as dúvidas e as alegrias típicas da idade, que mais lhe custou nisto de ser filha única. Valeu-lhe "um grupo coeso de amigas" que ainda hoje mantém. "Criámos uma família que escolhemos e que não tivemos. De uma dessas amigas até só madrinha do filho dela e ela é madrinha do Duarte."

São os amigos de Patrícia Correia, mas também já os da filha de 11 anos que vão dando corpo às ligações de fraternidade, que segundo o psicólogo Jorge Gravanita fazem falta no crescimento. "É desejável que as crianças cresçam com alguém que é seu igual, mas que pode ser seu rival", considera o especialista.

Porque vivo apenas com a minha filha e a minha mãe e não quero que ela sinta que somos só nós

Patrícia esforça-se por dar essas ligações à filha. "Não há fim de semana que não tenha amigas lá em casa. Não quero que ela sinta que está sozinha, porque vivo apenas com a minha filha e a minha mãe e não quero que ela sinta que somos só nós", aponta. E embora a filha tenha passado por uma fase em que pediu um "mano", Patrícia está convencida de que foi apenas "porque tinha 7 anos e estava na fase em que gostava de brincar com bonecas", já que nunca mais falou no assunto.

Depois, ainda contam com uma família alargada que se junta com regularidade. "No Natal, vêm os primos do Alentejo, de Angola e estamos todos juntos. No verão, vamos sempre para a casa que temos no Algarve e juntamo-nos lá. Claro que estes são momentos só de diversão e se ela tivesse um irmão seria diferente, teria de lidar com a tensão, mas acho que ela acaba por não sentir falta", resume.

Já Cristina Rivotti e o marido João são os únicos que ainda esperam dar a volta à situação e dar um irmão a Duarte. Talvez porque também admitem ter sentido a falta de irmãos ou mais crianças para partilhar, por exemplo, momentos como o Natal. "Lá em casa jantávamos e podíamos abrir logo os presentes porque não havia mais nada para fazer", recorda a farmacêutica de 30 anos.

Além disso, Cristina e João estão conscientes de que o filho "não terá primos". "Mesmo quando faltarmos não queríamos que ele fosse sozinho, porque ele não terá mais ninguém de sangue." Por agora, essa é uma condição que lhe garante "muito mimo e algum ciúme entre os avós" que disputam o neto único. Algo que a farmacêutica e o agente da PSP querem evitar, tendo mais um filho.

Além de não quererem que Duarte passe pelo mesmo que eles passaram: ou seja, as expectativas elevadas dos pais e concentradas apenas neles. "A nível da escola sentimos mais a pressão. Um receio maior em não falhar", confessa Cristina Rivotti. Daí que Maria João Valente Rosa fale da necessidade de encontrarmos "a melhor forma de funcionarmos com estes novos tempos das famílias" para evitar "a pressão incrível sobre o filho único". Uma ideia também defendida por Jorge Gravanita que fala da necessidade de criar laços na comunidade, criar uma família para lá da biológica.

Hugo Santos, marido de Cristina Neto, sentiu essa pressão. "Do meu lado não existiu, mas do meu marido sim. Os pais dele criaram expectativas em relação ao Hugo que sentiu esse peso e isso é algo que quero afastar do meu filho", esclarece Cristina, operadora de call center.

Como não está nos planos alargar a família, o casal de 30 anos quer precaver já que o filho venha a sofrer com as expectativas e a pressão mesmo que positiva que os avós possam fazer. "Da nossa parte não irá haver pressões", até porque como filhos únicos "não gostámos que fizessem isso connosco."

Cristina sublinha que os pais nunca lhe passaram o peso de expectativas. E ela também nunca sentiu necessidade de ter um irmão. "Acho que por ciúmes e com o passar do tempo comecei a ter o meu espaço e não estava disposta a dividi-lo."

Evitar o estigma do egoísmo

A outra preocupação é evitar cair no estigma do filho único mimado e egoísta. Patrícia habituou a filha a brincar com muitas crianças e a dar o que já não quer usar. "Vamos dando brinquedos, é importante ela saber partilhar, e aprender o significado da palavra solidariedade." Da sua própria experiência não se lembra de alguma vez a terem chamado egoísta: "Fui mimada, mas nunca senti que isso afetasse a minha relação com os outros."

Rodrigo e Duarte são mais pequenos, mas os pais assumem que se preocupam com o facto de estes não virem a ser mimados de mais. "O Rodrigo foi para a creche muito cedo", o que faz que não se sinta o único bebé a quem fazem todas as vontades. "Ainda é muito pequeno, mas mesmo sem ter de falar nisso, ele não é individualista, porque focamos a nossa educação na partilha", defende Cristina Neto.

Cristina Rivotti e o marido têm consciência de que o filho é muito mimado, mas como desejam que a sua condição de filho único seja transitória, acreditam que quando esse irmão chegar ele aprenderá a partilhar atenções. E se isso não acontecer, Duarte está já habituado a conviver com os filhos dos amigos dos pais, os seus "tios" e "primos", e aprenderá nessa família de afinidade a partilhar e a dividir atenções.

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