Premium Eu também. O ano do empoderamento das mulheres

O que mudou com o caso Harvey Weinstein? As mulheres sentiram que podiam falar porque iriam acreditar nelas e porque as suas acusações iriam ter consequências. As mulheres perderam o medo. Mas isso chega?

Na semana passada, Kathryn Mayorga, norte-americana de 34 anos, apresentou num tribunal do condado de Clarck, Las Vegas, uma queixa contra o futebolista português Cristiano Ronaldo. Acusa-o de a ter obrigado a uma relação sexual não consensual. Os eventos terão ocorrido em junho de 2009. Ela chegou a fazer uma queixa na polícia mas não revelou o nome do abusador e acabou por assinar um acordo pelo qual se comprometia ao silêncio em troca de 325 mil euros. O que a levou, então, a falar agora?

A reposta é Harvey Weinstein.

"O mundo mudou para as mulheres que dizem ter sido vítimas de abuso sexual", escreve o jornal alemão Der Spiegel, que é até agora o único órgão que falou com Mayorga. No ano passado, quando as suspeitas foram levantadas pelo Football Leaks, ela não quis comentar. Agora, decidiu pôr tudo a limpo. A advogada Leslie Stoval explicou na conferência de imprensa, há dias, que "as mulheres que se exprimiram e denunciaram os abusos sexuais deram a Kathryn muita coragem e permitiram-lhe apresentar uma participação cível".

É a isto que se chama "o efeito Weinstein", definido pela Wikipedia como "a tendência global para as pessoas acusarem homens famosos ou poderosos de comportamentos sexuais incorretos." Mas a definição é claramente limitadora. Não se trata só - não se trata sobretudo, diríamos - de famosos. Os casos de assédio, de abuso e (os mais graves) de violação que chegam aos jornais são importantes porque dão visibilidade a um problema que é, na verdade, muito mais vasto. Quantas mulheres já foram alvo de algum tipo de comportamento sexual incorreto por parte de um homens?

Ou será melhor perguntar ao contrário: quantas mulheres nunca se sentiram incomodadas pelos comportamentos dos homens? Seja aquele olhar insistente para o decote de uma colega, aquela mão que pousa distraída na perna dela, o homem que se encosta no metro, aquele "comia-te toda" sussurrado na rua, o patrão que faz um convite para jantar para discutir "assuntos de trabalho", o tipo que importuna uma mulher numa discoteca. Nada disto é uma violação. Mas não é por isso que não é grave. Porque a lógica que nos faz aceitar estes comportamentos como normais é a mesma que permite que os homens se achem no direito de forçar as mulheres a terem relações sexuais mesmo quando elas dizem que não querem.

O caso Weinstein

O mundo mudou há precisamente um ano. As acusações contra o produtor de cinema e televisão Harvey Weinstein foram publicadas no jornal The New York Times a 5 de outubro de 2017 e na revista New Yorker no dia 10. Ambos os artigos relatavam o modo como várias mulheres - na sua maioria jovens atrizes - sofreram assédio sexual por parte daquele que chegou a ser considerado o homem mais poderoso de Hollywood. O que estes artigos mostravam era um comportamento habitual de abuso: Weinstein usava as suas assistentes para marcar entrevistas profissionais com as mulheres que pretendia seduzir. Esses encontros aconteciam geralmente num restaurante ou bar de hotel e passavam depois para o quarto, onde Weinstein, já em trajes menores e acenando com promessas de trabalho ou insinuando ameaças à carreira das mulheres, tentava convencê-las a realizar com ele alguns atos sexuais. Esta é a definição mais básica de assédio sexual: alguém que usa a sua situação de poder para obter uma vantagem sexual.

As acusações foram tantas e recolheram tamanho apoio na indústria cinematográfica (de repente, percebeu-se que toda a gente no meio sabia que ele agia assim, toda a gente comentava e, aparentemente, toda a gente achava isso normal) que rapidamente Weinstein foi despedido da sua própria empresa. Caiu em desgraça. Teve direito a uma hashtag só para si: #pervnado. E acabou algemado, apresentando-se perante um juiz.

Claro que Weinstein não foi o primeiro homem famoso ou poderoso a ser acusado de assédio ou de abuso sexual. Se não quisermos ir mais longe, basta referir Donald Trump, que entre 1976 e 2013 foi acusado por mais de 20 mulheres de comportamentos sexuais impróprios. Durante a campanha eleitoral de 2016, um vídeo mostrando Trump a gabar-se dos seus feitos sexuais e a fazer declarações claramente machistas ("Grab them by the pussy. You can do anything") causou reações de repúdio mas não impediu a sua eleição como Presidente dos Estados Unidos. O que fez a diferença no caso Weinstein é que desta vez as vozes das mulheres estavam a ser ouvidas. E estavam a acreditar nelas. Talvez porque este era, de facto, um caso tão flagrante que seria impossível virar as costas e fingir que nada se estava a passar. Talvez porque as mulheres já andavam nesta luta há muito tempo, muitos pequenos passos já tinham sido dados e esta foi apenas a gota de água que fez transbordar o copo.

A 15 de outubro, no rescaldo das acusações a Harvey Weinstein, a atriz Alyssa Milano usou a hastag #MeToo para chamar a atenção para os abusos de que tantas mulheres são alvo. Ao contrário do que se possa pensar, o movimento Me Too não nasceu com Weinstein. A ativista Tarana Burke começou a usar a expressão Me Too (eu também) no longínquo ano de 2006 na rede social Myspace como parte de uma campanha para promover "o empoderamento através da empatia", especialmente entre as mulheres negras vítimas de abuso sexual. Há um ano a expressão ganhou uma visibilidade inesperada. Através do Twitter o #MeToo começou a ser usado para incentivar outras mulheres a denunciarem outros casos de assédio nos locais de trabalho e não só, muito para além da indústria cinematográfica. A ideia que está na base do slogan é simples: por um lado, apoiar as mulheres que deram a cara dizendo-lhes "não estás sozinha", e, por outro, mostrar como este problema atinge o enorme número de mulheres.
Isto aconteceu há um ano. Na Califórnia, as queixas de assédio sexual aumentaram 83% nos primeiros três meses de 2018. Em Nova Iorque a subida foi de 60%, Em Los Angeles, inicialmente, o volume de queixas foi de tal ordem que a polícia criou uma equipa especial só para os crimes sexuais. Mas, até agora, os procuradores não apresentaram uma única acusação criminal. O que é, afinal, o habitual. Segundo um relatório de 2012, apenas uma em nove queixas de violação ou de tentativa de violação apresentadas à polícia de Los Angeles (LAPD) resultaram em detenção. E menos de uma em 20 deram origem a uma pena de prisão. Mesmo o caso Weinstein (que foi acusado em Nova Iorque), em Los Angeles encontra-se num limbo e ainda não foi feita qualquer acusação.
Muitas vezes as acusações são feitas demasiado tarde e já fora dos prazos legais. Ou então as denúncias surgem depois dos eventos e já não é possível recolher provas forenses. Outras vezes o processo é tão desgastante que as vítimas acabam por desistir. Ou aceitam acordos financeiros. Ou então, simplesmente, a investigação não consegue avançar até um ponto em que seja possível formalizar a acusação. Das denúncias nas redes sociais à barra do tribunal vai um passo de gigante e que só raras vezes é dado. Sim, o ator Bill Cosby foi condenado. Sim, Harvey Weinstein está à espera de julgamento. Kevin Spacey foi despedido da série onde era protagonista. E houve mais umas quantas notícias de despedimentos ou retiradas estratégicas. Mas... e depois? E agora?

Nós por cá também

A deputada Isabel Moreira não tem dúvidas de que o movimento #Metoo "teve a virtude de dar uma voz coletiva às mulheres. Empoderá-las. Há uma lógica de empatia, de identificação: mulheres de todo o mundo deixaram de se sentir sós, a partir de relatos de mulheres que foram abusadas num determinado momento da sua vida, quando não eram poderosas, e que, por terem agora uma voz, através do seu testemunho multiplicam milhares de vozes que estão silenciadas. As mulheres sentem-se menos sós e mais fortalecidas."

Para Maria José Machado, presidente da associação de mulheres UMAR, nada disto é novidade. O que está a acontecer agora com o assédio sexual é bastante parecido com o que aconteceu com a violência doméstica: as mulheres tinham medo e vergonha e preferiam ficar caladas a levantar a sua voz contra o abusador. "É um processo", explica Maria José Machado. Em 2010 quando a UMAR fez a Rota dos Feminismos contra o assédio sexual encontraram muitas pessoas que defendiam a cultura latina e o piropo. Não foi há assim tanto tempo. "Penso que esse debate evoluiu imenso. Esta mediatização do assédio vai mostrando que mesmo as mulheres com poder passam por situações destas e portanto as outras mulheres percebem que 'isto não é só comigo'. Isto não aconteceu porque eu atendi o telefone ou porque eu aceitei ir tomar um copo com aquela pessoa ou porque me vesti de determinada forma. As vítimas hoje já não se sentem tão culpabilizadas e esse é o princípio do empoderamento das vítimas. Percebem que a culpa é dele. E isso leva-as a pedir ajuda."

Maria José Machado garante que neste último ano "aumentaram as denúncias de assédio e a procura de ajuda profissional, sobretudo nos casos de assédio sexual no trabalho. As mulheres estão a procurar defender-se e defender o seu posto de trabalho". Mas os resultados estão ainda muito aquém do que seria desejável: "A nossa legislação ainda é muito frágil. Está criminalizada a importunação sexual mas não o assédio sexual. Não há ainda uma legislação capaz de defender as vítimas."

O jornalista Miguel Somsen, que acompanha estes temas com grande atenção na sua página de Facebook, concorda que há de facto, uma maior "consciência sobre a existência de um tema, o abuso sexual, que antes era considerado tabu e que agora não é", mas considera que isso não chega. As denúncias públicas tardam em chegar: "O facto de não terem surgido apenas comprova que ainda não estão criadas as condições para as mulheres em Portugal fazerem o seu #metoo. E isto diz tudo sobre este assunto, e também sobre a forma como muitas pessoas censuram e continuam a descartar as denúncias tardias: em Portugal ainda está tudo por fazer; e o facto de a maioria das pessoas achar que estes assuntos têm o seu tempo e depois deveriam prescrever acaba por contribuir para que o silêncio das vítimas se prolongue."

Na opinião de Rita Ferro Rodrigues, que gere a plataforma Capazes, ainda não há, de facto, "uma perceção prática, das mulheres fazerem denúncias ou contarem as suas histórias, e certamente que elas existem, porque as coisas têm um tempo e o nosso tempo ainda não é esse aqui em Portugal. Uma denúncia é uma coisa muito séria e muito íntima, cada pessoa é que sabe quando tem de a fazer."

No entanto, a ativista está otimista: "As mulheres estão a familiarizar-se com os seus direitos e com determinados conceitos que, por ignorância e por vivemos numa cultuara de silenciamento, antes desconheciam." E Isabel Moreira concorda: "Em Portugal fala-se mais hoje no assédio sexual do que se falava, não há dúvida nenhuma. Escreve-se mais, discute-se mais, quer na academia, quer ao nível político, quer na sociedade civil. As pessoas estão mais despertas para essa questão, estando mais despertas para a questão do assédio estão mais despertas para a igualdade de género, que é a base que está por detrás do assédio, é o sexismo."

Se as mulheres têm agora mais consciência do que é o assédio sexual, também os homens têm muito a aprender. Como explica Miguel Somsem: "O assédio é uma consequência de um abuso de poder, que será uma consequência de uma sociedade laboral assimétrica, que é o resultado da desigualdade de oportunidades, que é o resultado de um mundo dominado por homens e determinado pelas decisões de homens. Esta é a realidade. Portanto os homens estão, mais do que nunca, aterrorizados pelo #metoo, que descartam como se fosse uma erva daninha surgida do politicamente correto, e permanecem agarrados ao poder nas suas casas dos segredos ou torres de marfim. Aqueles que não têm poder continuam agarrados a modelos patriarcais machistas tolerados diariamente pelas nossas instituições. Portanto quando os homens hoje vêm dizer que "agora já não se pode dizer nada", eu rio-me. Desde quando se assumiu antes que eles podiam dizer ou fazer tudo?"

Rita Ferro Rodrigues acredita que neste momento já ninguém pode dar a desculpa de que não sabia que isto não era permitido. "Já há uma censura moral, que tem de existir, sobre determinados comportamentos que antes eram considerados perfeitamente aceites. Eu acredito que isso faz com que, de forma preventiva, alguns desses comportamentos estejam agora mais controlados. Isso é um resultado deste debate", explica.

A sociedade parece estar mesmo a mudar. "Agora compete às instituições - como a polícia e os tribunais - não defraudar as vítimas", avisa Maria José Machado. E nem vamos falar da questão do sexismo nas sentenças judiciais, que isso daria todo um outro artigo.

Ajustar o foco: o importante são as mulheres

Enquanto em Portugal ainda estamos na fase do "as mulheres estão a acordar", nos Estados Unidos cada vez mais se sente que este é o momento do tudo ou nada. Lendo os testemunhos de algumas mulheres que se envolveram no movimento no último ano a sensação que fica é a de uma enorme desilusão. "O otimismo que tinha ao início já esmoreceu", afirmou Sarah Tither-Kaplan que, em janeiro, revelou ter visto o ator James Franco assediar várias mulheres nos locais de filmagem. Depois disso, foi criticada nas redes sociais, perdeu amigos, perdeu oportunidades de trabalho e perdeu a fé na indústria. Entretanto, Franco continua a a trabalhar como se nada tivesse acontecido. E está longe de ser o único.

A ativista Tarana Burke publicou há dias um artigo na Variety fazendo um balanço muito cinzento deste ano: "O que o mundo reconhece como o movimento Me Too foi construído com o trabalho de pessoas comuns que sobreviveram a situações de violência sexual, de muitas formas. Algumas foram abusadas em crianças, outras assediadas no local de trabalho, ou violadas. Em outubro, milhões de pessoas começaram a levantar as mãos e a vozes e a dizer: eu também. Mais de 12 milhões em 24 horas no Facebook. Meio milhão em 12 horas no Twitter. E o número continuou a crescer." Mas, graças à visibilidade dada meios de comunicação ao caso Weinstein e a outros casos, ao mesmo tempo que o movimento crescia afastava-se cada vez mais do seu foco. E em vez de ser uma campanha de empoderamento das mulheres começou a parecer-se cada vez mais com uma caça às bruxas. Quem vai ser o próximo acusado?, é o que todos perguntam.

"Em vez de se centrarem na violência sexual, o foco está no acusado e no que está em jogo para ele. O que vai acontecer às suas carreiras? Quais as consequências para as empresas para as quais trabalham? E para a indústria de que fazem parte?" Mas quantos artigos se escreveram sobre as consequências para as mulheres? "As experiências dessas pessoas são o espelho de muitas outras. Conhecer essas histórias dá voz a todos os que sobrevieram à violência sexual, em oposição a todos os que praticaram essa violência", diz Tarana Burke, que defende o uso da palavra "sobrevivente" em vez de "vítima", precisamente porque quer que o foco não esteja no perpetuador do abuso mas na capacidade da pessoa ultrapassar o trauma.

E deixa um aviso para o segundo da era pós-Weinstein: "Não podemos desvalorizar a experiência dos sobreviventes que arriscam tudo ao dar a cara, seja a contar a sua história, seja a partilhar uma hashtag (...) Se não mudarmos o nosso foco e olharmos verdadeiramente para as pessoas que estão a dizer "eu também", estaremos a desperdiçar uma oportunidade valiosa para mudar a forma como pensamos a violência sexual."

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