Caroços de cereja para aliviar o stress e a ansiedade

Com os caroços das cerejas fazem-se almofadas com poder terapêutico para aliviar stress, ansiedade, cólicas, insónias ou dores musculares. Ao mesmo tempo, troca-se a tão nobre madeira de cerejeira por outras.

Do número 109 da Rua da Cale, no Fundão, saem almofadas de caroços de cereja para todo o país e muitas para o estrangeiro. São um produto 100% artesanal e reciclável, feito por Cristina Leitão, 38 anos, residente em Enxabarda, uma pequena aldeia do concelho onde se concentra uma das maiores áreas de produção de cerejas do país.

"É tudo o mais natural possível e feito com o coração." Daí o nome da marca - Soul Key - e do espaço de medicinas complementares onde são feitas, batizado de Alma e Bem-Estar.

Há quatro anos que Cristina se dedica à confeção de almofadas térmicas de caroços de cereja, conhecidas pelos seus efeitos terapêuticos. A história começou depois de ter entrado em burnout enquanto trabalhava num call center. Num estado de exaustão extrema, que fez que os seus músculos "deixassem de responder", precisava de algo "para descomprimir". Como já tinha ouvido falar do poder relaxante e de alívio de dores destas almofadas, resolveu fazer uma. Seguiram-se tantos pedidos que decidiu abrir um negócio.

Uma parte dos caroços é fornecida por uma organização de produtores - a Cerfundão -, enquanto a outra é oferecida por familiares e amigos. Quando os recebe, Cristina lava-os repetidas vezes para retirar toda a polpa que possa estar agarrada ao caroço. "Só uso água, não há qualquer químico no processo. Posso demorar 48 horas para preparar dez quilos de caroços", conta. Passa depois para a secagem, que leva, em média, 72 horas. E só depois para a produção de almofadas. "Faço tudo de forma artesanal, não tenho nenhuma máquina", sublinha.

Dizem as gerações mais velhas que cada almofada leva dois mil caroços. Cristina não os conta. Dentro dos saquinhos de algodão - "100% algodão" - cabem 600 a 700 gramas. Procura que tenham "uma boa durabilidade", porque a ideia é "que possam ser aquecidas um milhão de vezes". Mas também podem ser usadas a frio. "Substituem um saco de água quente ou de gelo sem o risco de queimaduras."

À termoterapia está associada a aromoterapia, com aromas de lavanda, alecrim ou hortelã, que "proporcionam uma sensação de bem-estar". E só usa "plantas biológicas". Quando a almofada perde o aroma, é reciclada.

Dependendo da vontade do cliente, a almofada pode ser personalizada. Para bebés, por exemplo, costuma fazer nuvens, coelhos, corações. "Também faço viseiras para os olhos, que ajudam a aliviar dores de cabeça e enxaquecas." Cristina conta com a ajuda do filho Bruno, de 12 anos, que é "o maior parceiro" da Soul Key. Sabe que há cada vez mais empresas no mercado a confecionar este produto, mas não quer pensar em concorrência. "Quero manter esta produção artesanal, focada na qualidade."

Enquanto o interesse pelos caroços de cereja parece ser cada vez maior, a procura por madeira de cerejeira está em declínio há vários anos. "Era muito usada para mobiliário, mas entrou em desuso, talvez por uma questão estética. As pessoas já não a apreciam tanto", conta Michael Ferreira, assistente de CEO na empresa José Luís Madeiras, que atualmente só dispõe de cerejeira francesa e americana. Pinto Cardoso, proprietário de uma empresa de comércio de madeiras, confirma: "A madeira de cerejeira produzida cá não tem grande saída. Há quatro ou cinco anos que praticamente não se vende. As pessoas preferem a americana e a francesa."

Não é das árvores de fruto que provém a madeira de cerejeira. A mesma espécie é conduzida para dar fruto ou para produzir madeira, sendo esta última conhecida como cerejeira-brava. "Tem uma grande importância e valor económico, mas a área de produção em Portugal não é muito significativa", diz José Massano, professor na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Há algumas matas de cerejeira-brava em Trás-os-Montes e na Beira Alta, mas têm pouca expressão. "A indústria a jusante não está instalada, o que faz que o produtor florestal não opte por esta espécie. É a lei da oferta e da procura", diz o engenheiro florestal.

Instalada nas florestas nos anos 1940 e 1950 com o estímulo de fundos estatais e do Banco Mundial, a cerejeira-brava, que tem um ciclo de vida longo, "desapareceu devido a esgotamento de produção ou a incêndios",

A madeira de cerejeira "é nobre, de alta qualidade" e destaca-se pela textura, pela durabilidade e por ser fácil de folhear. É usada em mobiliário, decoração de interiores, construção naval, construção de instrumentos musicais e em alguns soalhos. "Tem características únicas", salienta o docente universitário, acrescentando que, no entanto, "há um conjunto de outras espécies de floresta tropical preferidas pelos produtores", pois também são valiosas e existem em maior quantidade.

Instalada nas florestas nos anos 1940 e 1950 com o estímulo de fundos estatais e do Banco Mundial, a cerejeira-brava, que tem um ciclo de vida longo, "desapareceu devido a esgotamento de produção ou a incêndios", não tendo voltado a existir estímulos para que os produtores apostassem na espécie. Ao mesmo tempo, explica José Massano, "as gerações mais novas procuram outro tipo de mobiliário", que não tem proveniência na madeira de cerejeira, nomeadamente em grandes superfícies comerciais. No entanto, o especialista acredita que "se houvesse mais financiamento para esta espécie madeireira, os produtores iriam aderir mais à cerejeira".

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