Esperto, ágil e perspicaz, dizem os chineses sobre o Rato, que dá nome a um ano de grandes desafios

"Em termos de signos, o Rato é considerado esperto, ágil e perspicaz, de fácil adaptação às circunstâncias e acumulação de riqueza", explica a professora Wang Suoying, chinesa a viver em Portugal há três décadas e fluente na nossa língua. Ora, é o ano do Rato que se inicia neste sábado, 25 de janeiro, com celebrações em toda a área cultural chinesa, de Pequim a Taipé, passando por Singapura ou a diáspora espalhada pelo mundo e ainda por boa parte do resto da Ásia Oriental. Em Portugal, a comunidade chinesa fez o essencial da festa pública no fim de semana passado, com um desfile em Lisboa, porque agora é tempo para a parte íntima, familiar, das celebrações.

Ao contrário do Zodíaco, em que cada signo dura um mês, o sistema chinês atribui um ano inteiro a cada um dos 12 signos, todos animais, incluindo um mítico Dragão. E o primeiro do ciclo é exatamente o Rato, com muitas lendas a explicarem que isso se deve à sua inteligência, alguns dirão antes chico-espertice, pois na corrida decisiva para escolher quem teria direito a figurar entre a dúzia de magníficos, o Rato subiu para cima do lombo do Boi para saltar para o chão apenas no último segundo e assim ganhar a todos. Antes, tinha já enganado o rival Gato sobre a hora da corrida, afastando-o de vez da lista de signos, que ficou a seguinte: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cabra, Macaco, Galo, Cão, Cavalo e Porco.

Se o animal se repete a cada 12 anos, já o elemento associado vai mudando (Madeira, Terra, Água, Metal e Fogo), pelo que os nascidos neste ano serão do signo Rato, mas em especial do Rato de Metal, o que significa que desde 1960 não havia nascidos desta combinação é só os voltará a haver em 2080. No ano passado foi o Porco de Terra, em 2021 nascerão os Bois de Metal. Mas muito cuidado com as contas: é preciso ver quando é que o calendário lunar coloca o início do Ano Novo chinês, e em 2020 os nascidos até 25 de janeiro não serão Rato mas sim Porco.

Sendo o Rato um animal celebrado pelos chineses (cerca de 1500 milhões de pessoas no mundo) como inteligente, significa isso que o ano do Rato costuma ser bom? A professora Wang é otimista mas cautelosa na resposta. Diz ela que "nem sempre. No último ano do Rato, 2008, verificámos por um lado um terramoto de magnitude 8 que abalou todo o distrito de Wenchuan, no sudoeste da China, e, por outro, o grande sucesso dos Jogos Olímpicos em Pequim. O ciclo de 12 animais começa pelo Rato, pelo que o ano do Rato, representando o início de um novo ciclo, implica sempre novas esperanças, novos desafios e novos esforços. Em 2020 a China vai atingir as suas metas através dos esforços".

Outro grande desafio é a demografia. Desde 2015 acabou a política de um só filho e os governantes chineses, satisfeitos por terem num primeiro momento conseguido controlar o crescimento populacional, esperavam assim contrariar o envelhecimento da sociedade. Mas no ano passado só nasceram 15 milhões de chineses.

Se olharmos para as perspetivas da China para os próximos meses, percebe-se que os seus líderes, a começar pelo presidente Xi Jinping (do signo Serpente, como Mao Tsé-tung, o fundador da República Popular), terão de procurar o máximo de inspiração na tal perspicácia do Rato. Será preciso acalmar os protestos pró-democracia em Hong-Kong, tentar cativar Taiwan para o regresso à mãe-pátria, evitar uma guerra comercial com os Estados Unidos liderados por Donald Trump e manter o crescimento económico acima dos 6% (em 2019 foi 6,1%, o valor mais baixo desde 1990), de modo a manter os níveis de prosperidade que vêm de trás. Desde 1949, ano do triunfo da revolução comunista, o PIB da China cresceu 175 vezes, mesmo que o maior contributo tenha começado com as reformas económicas de Deng Xiaoping no final da década de 1970.

Outro grande desafio é a demografia. Desde 2015 acabou a política de um só filho e os governantes chineses, satisfeitos por terem num primeiro momento conseguido controlar o crescimento populacional, esperavam assim contrariar o envelhecimento da sociedade. Mas no ano passado só nasceram 15 milhões de chineses, o que pode impressionar por ser tanto como a população portuguesa, mas na realidade revela que também no antigo Império do Meio os casais cada vez mais ficam satisfeitos com um só filho, no qual podem investir para ter sucesso numa sociedade cada vez mais competitiva. Tendo em conta que os nascimentos foram tão fracos num ano do Porco, signo que simboliza a abundância, é difícil esperar que no ano do Rato que agora começa a situação se inverta. Aliás, estudos feitos em algumas parcelas do mundo chinês, como Taiwan, Singapura e Hong Kong, revelam que quando muito será em 2024 que a China talvez tenha um bom ano em termos de nascimentos, pois será ano do Dragão e esse, sim, ainda mais do que o Porco, é o signo mais celebrado na cultura asiática. É ainda habitual, embora menos do que no passado, que algumas famílias planeiem o filho para coincidir com o signo que mais desejam.

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