Espanha: Um grande povo a galope

Espanha é um daqueles países que deixam marca no mundo. Mas não é um país que vive do passado, das memórias da Reconquista ou da descoberta da América. Pelo contrário, é hoje uma potência económica, um colosso cultural, uma democracia pujante desde que se libertou do franquismo, há quase meio século. Vive momentos complicados, com o separatismo catalão? Sim, mas a nós portugueses o mais que se exige é que sejamos capazes de compreender aquela que nos livros da escola surge como o inimigo histórico, mas que na verdade nos seduz, por mais patriotas que sejamos, desde sempre. Afinal, Cervantes, Velázquez, Picasso, são espanhóis.

Leio a carta de um leitor no El País a agradecer o sacrifício por Espanha feito por Roberto Bautista, que três dias depois da morte do pai regressou à seleção nacional para ajudar a ganhar a Taça Davis. Bautista, um valenciano de Benlloch, companheiro naquele grupo de gigantes do ténis de Rafael Nadal, um maiorquino, de Feliciano López, castelhano de Toledo, de Marcel Granollers, catalão de Barcelona, e de Pablo Carreño, asturiano de Gijón. Nesta época tão marcada por separatismos sem pés nem cabeça e por reações nacionalistas tão ou mais descabeçadas, o desporto, uma das muitas áreas em que Espanha costuma mostrar excelência, veio em socorro de um país que tardou séculos a construir, de Afonso X, o Sábio, aos artificies da democracia pós-franquismo, passando pelos Reis Católicos, pela Reconquista e pela conquista da América, pelo triunfo dos Borbóns sobre os Habsburgos ou pela Pepa, essa maravilha constitucional nascida em Cádis da revolta contra os invasores napoleónicos.

É uma história tremenda esta de Espanha, que vai beber aos romanos, aos visigodos e também ao Al-Andaluz, mesmo que a embaixadora Marta Betanzos prefira olhar para o futuro e diga que o país "não precisa de recordar o seu passado porque, como Portugal, é uma das nações mais antigas, que deixou já a sua marca no mundo. O seu presente, e também aqui sobejam os dados, é ser um dos pilares fundamentais em que assenta o grande projeto civilizador que é a União Europeia. O seu futuro estamos a construir, juntamente com países como Portugal, com um mesmo ideal de aposta no progresso e na liberdade".

Acho que conheço bem Espanha e os espanhóis. Deslumbram-me o cosmopolitismo de Madrid e de Barcelona, mas encantam-me a alma de Sevilha, Mérida, Oviedo, Bilbau ou Córdova. E que dizer de um final de tarde em Zafra ou Cádis? Confesso não conhecer as Baleares nem Melilha, mas são-me familiares as Canárias e Ceuta. Por isso este artigo é de simpatia, de simpatia por um grande país, daqueles que moldam a história do mundo, também de simpatia por um vizinho com que mantivemos sempre uma história atribulada (e temos problemas em aceitar a legitimidade dinástica dos Filipes) mas de que tanto nos aproxima. Um dia, um historiador português disse-me que nas muitas guerras entre portugueses e espanhóis (houve Aljubarrota, mas também um exército português a entrar em Madrid) nunca um dos lados massacrou o outro. Talvez por sermos tão parecidos. E também é verdade que para inimigos históricos é impressionante que foi há dois séculos que guerreámos pela última vez. Aliás, tirando algumas polémicas com a gestão das águas do Tejo, felizmente a grande tensão recente tem que ver com os méritos respetivos de portugueses e espanhóis na viagem de Fernão de Magalhães completada por Juan Sebastián Elcano há 500 anos.

Costumam, por vezes, os independentistas catalães argumentar que Filipe IV em 1640 preferiu matar a rebelião na sua região do que esmagar os conjurados reunidos em torno de D. João IV. Pode ser útil para cativar simpatias, mas confunde a Catalunha, parte da Coroa de Aragão que pouco a pouco, depois do casamento de Fernando com Isabel, se foi fundindo com Castela, com o país fundado no século XII, que só por razões de sangue passou para Filipe II e mesmo assim mantendo uma separação formal, basta pensar que o Brasil continuou a falar português e que em Goa o vice-rei jamais poderia ser um espanhol. Mas a persistência de um separatismo catalão, que já teve outros episódios, é uma realidade, tal como o é de parte dos bascos, com o extremo a ser o terrorismo já derrotado da ETA.

O centralismo de Madrid, exacerbado quando os Borbóns se tornaram reis no século XVIII e depois reafirmado por Francisco Franco (o vencedor da Guerra Civil de 1936-1939), foi sempre malvisto de Portugal e sempre ressentido em muitas regiões espanholas, mas pertence hoje ao passado. Como disse ao DN o historiador Luís Perdices de Blas, "a diversidade foi uma característica de Espanha e graças à Constituição de 1978 é uma peça básica do nosso sistema político atual".

Tal como o catedrático da Universidade Complutense de Madrid, também a embaixadora Betanzos elogia o muito que foi conseguido graças ao bom senso que imperou em 1978, apenas três anos depois da morte do ditador: "A democracia representou já para Espanha meio século de contínuo desenvolvimento social, económico e cultural, que converteu hoje o nosso país num parceiro fundamental da União Europeia e numa das democracias mais vivas do mundo. Em concreto, a 13.ª 'melhor democracia do mundo', segundo um estudo do Instituto Internacional para a Democracia dado a conhecer em Estocolmo precisamente na semana passada. A democracia fez também da Espanha um dos países com maior pluralidade cultural e descentralização administrativa, ao mesmo nível ou superior a outros países fortemente federalizados como a Bélgica ou a Suíça."

O texto sobre os Reis Católicos destaca-se pelo tamanho entre as mais de mil entradas do Dicionário de História de Espanha escrito por Carlos Ferrera Cuesta. Percebe-se o porquê quando se pensa que, mesmo mantendo as instituições antigas de cada componente da Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela lançaram as bases do Estado moderno, que relegou para os livros de História os reinos de Leão, de Castela, de Aragão e de Navarra, todos nascidos dessa Reconquista que termina exatamente em 1492, ano da tomada de Granada, também da chegada de Cristóvão Colombo à América. Um Estado que pretende reunir uma pluralidade enorme, mesmo quando expulsa judeus e depois também mouriscos.

"1492 é uma data fundamental da história espanhola. Não só os Reis Católicos terminam a unificação do país como, graças à viagem de Colombo, lançam as bases de uma futura prosperidade", comenta Miguel Ángel Moratinos, alto-representante da ONU para a Aliança das Civilizações durante uma passagem nesta semana por Lisboa. "O que é indesmentível é que essa Espanha que chega até hoje traz consigo, além da diversidade linguística, também um pluralismo cultural que tem muito que ver com a herança judaica e islâmica. O passado árabe e a forte presença judaica torna Espanha, tal como Portugal, excecional. Recordo que quando se debateu a ideia de uma Constituição europeia se insistiu no legado cristão. Eu, como espanhol, sempre insisti que as origens da Europa eram bem mais diversas", acrescenta o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol.

Viaja-se hoje por Espanha e percebe-se que falar do domínio de Castela sobre as periferias é um absurdo. As duas Castelas estão a esvaziar-se, a perder população, e Madrid, embora cheia de vitalidade, é hoje muito mais do que castelhana. Além da capital, a prosperidade que emana de uma grande potência económica como é Espanha nota-se sobretudo na tal periferia, sobretudo na Catalunha e no País Basco, as regiões tradicionalmente mais industrializadas por estarem mais próximas dos mercados europeus. Com autonomias vastíssimas, fruto do tal consenso de 1978, catalães e bascos pecam hoje por ser pouco solidários com outras parcelas de Espanha, como a Extremadura, o que faz pensar que o separatismo que alguns defendem não é de pobres e oprimidos, mas de ricos e privilegiados. A descentralização, porém, trouxe vantagens em geral, mesmo à citada Extremadura, agarrada a Portugal. Hoje Badajoz, Mérida ou Cáceres exibem sinais evidentes de desenvolvimento, algo novo numa região que, por ter sido sempre mais pobre, deu há 500 anos muitos dos conquistadores das Américas, soldados da fortuna como Francisco Pizarro, de Trujillo, ou Hernán Cortés, nascido em Medellín.

Nas duas últimas eleições gerais surgiu em Espanha um partido que se alimenta da reação ao separatismo catalão mas também de um inesperado ódio aos imigrantes e dos fantasmas renascidos da Guerra Civil, quando pareceu haver duas Espanhas. É bizarro este Vox pois tenta renovar uma ideia errada de Espanha, a de uma Espanha hiperconservadora e católica fechada. Uma ideia feita como a da Lenda Negra, esquecendo-se os discursos em defesa dos índios de um Bartolomeu de Las Casas. É um tempo complicado em termos políticos, como novos partidos a somarem-se a socialistas e conservadores, também um tempo de alguma desilusão com a monarquia, restaurada depois da morte de Franco e legitimada naquela noite de 23 de fevereiro de 1981 quando Juan Carlos ordenou via TVE aos golpistas que regressassem aos quartéis, tendo ao seu lado um jovem Filipe, hoje rei, a quem acordou para ver como se exercia o ofício.

Filipe VI, um dia orgulhoso por ver a herdeira, a princesa Leonor, discursar em catalão em Gerona, noutro, protocolar, junto com a rainha Letizia, a celebrar em Havana os 500 anos da capital de Cuba, uma das últimas pérolas a desaparecer do extinto império colonial, em 1898. Oito décadas antes, do México à Argentina, já a maior parte da América tinha voltado costas aos Borbóns, sobretudo a esse rei de má fama que dá pelo nome de Fernando VII, que até prisioneiro de Napoleão foi (mais perspicaz, o nosso D. João VI mudou a corte para o Brasil).

Mas muita da grandeza atual de Espanha vem dessa América, onde o espanhol é a língua dominante. "Nós espanhóis temos bastante consciência de que a nossa língua é um ativo indiscutível, mas que não nos pertence em exclusividade. Dos 7,6% da população mundial que é hispanofalante, desses 577 milhões de pessoas que falam e se comunicam em espanhol, nós espanhóis somos só 46 milhões. Por isso se o espanhol nos afirma no mundo, fá-lo na parte proporcional que nos corresponde, e sempre em conjunto com o resto dos países com que o partilhamos. O espanhol do século XXI é uma língua policêntrica, e isso dá-lhe um imenso valor acrescentado", afirma Iñaki Abad Laguina, diretor do Instituto Cervantes em Lisboa.

Sorte a nossa portugueses que tão facilmente entendemos o espanhol (cuidado, porém, com os falsos amigos, nunca elogie uma espanhola dizendo que ela está espantosa). Isso dá-nos acesso a jornais de grande qualidade como o El País, a escritores como Arturo Pérez-Reverte (recomendo Assédio, que trata do cerco de Cádis) ou Miguel de Cervantes (apesar das excelentes traduções de José Bento e de Miguel Serras Pereira), filmes como os de Pedro Almodóvar, mas também a todo o universo latino-americano, do chileno Pablo Neruda ao mexicano Octavio Paz. Contudo, e os minhotos são os primeiros a sabê-lo pela proximidade com a Galiza, também espanholas são línguas como o galego, irmão mais velho do português, como o catalão, um primo, ou esse basco ou euskera que não tem parentesco com as outras línguas ibéricas, sendo um sobrevivente da era pré-romana (em que partilhamos com os espanhóis o herói Viriato).

O diretor do Cervantes em Lisboa fala dessa pujança das outras línguas espanholas, sublinhando que "em geral, e no âmbito da criação literária, a natureza e o caráter plurilingue de Espanha é uma ideia que não se questiona. Porque, além do mais, essa diversidade enriquece-nos sob todos os pontos de vista. Os últimos prémios de grande prestígio que se entregaram em Espanha foram um reconhecimento explícito desse facto: o Prémio Cervantes para Joan Margarit, poeta catalão; o Prémio Nacional de Letras para Bernardo Atxaga, escritor em euskera; e o Prémio Nacional de Poesia para a galega Pilar Pallarés. A normalidade talvez seja o mais destacável neste tema. As tensões linguísticas que podem detetar-se em certos territórios respondem única e exclusivamente a agendas políticas, e nunca a um conflito entre línguas. E o respeito criativo entre todas as línguas em Espanha é uma constante histórica desde o início da democracia e continua no presente".

O maior poeta português sabia espanhol, o que nessa época, meados do século XVI, não era raro entre as elites. Aliás, se Luís Vaz de Camões podia escrever em espanhol, também Filipe II, I de Portugal, estava completamente à vontade com o português, língua da sua mãe, mulher de Carlos V mas filho de D. Manuel I.

Tanto em comum, tantas diferenças, entre um Portugal sempre voltado para o mar, uma Espanha dividida entre o apelo de Tordesilhas e as aventuras militares europeias, que mesmo quando Carlos V abdicou e separou os seus domínios entre o filho e o irmão mais novo (Fernando I, imperador alemão). E Camões e Cervantes também partilham algo único entre os grandes das letras, o terem sido soldados e viajantes, um indo tão longe como a Ásia, o outro combatendo em Lepanto e sendo prisioneiro em Argel.

Cervantes, escritor de nome tão célebre como o trio de pintores Diego Velázquez, Goya e Picasso (Madrid, cidade do Prado e do Rainha Sofia, museus de excelência, fica a uma hora de avião, a seis de carro), conseguiu criar uma personagem tanto ou mais célebre, esse D. Quixote ao mesmo tempo tão espanhol e tão universal. Um motivo de orgulho para os espanhóis, pois assumiram como símbolo o cavaleiro da triste figura, o que só mostra como são confiantes. "Sem dúvida alguma a figura de Cervantes e do seu D. Quixote combinaram um sentimento de identidade literária transversal. Ninguém se sente excluído em Cervantes. Todos encontramos um lugar nele. É verdade que cada um à sua maneira, mas precisamente aí reside o seu valor: que é multifacetado e transcende a geografia", nota Iñaki Abad Leguina.

Vai longo este artigo de homenagem a Espanha e aos espanhóis, a todos eles, mesmo aqueles que hesitam em continuar a sê-lo. Já falei de Juan Carlos, que preferiu ser rei de uma democracia do que sucessor de um ditador, e do episódio da sua oposição ao 23F (há versões mais complexas sobre o golpe do coronel Antonio Tejero (como a de Javier Cercas no excelente Anatomia de Um Instante). Ora, li a primeira vez a sério sobre o rei, era eu estudante, num livro-entrevista assinado por José Luis de Villalonga. Mas o que retive mais foi o poema de Ortega y Gasset que antecedia as perguntas e respostas. Essa epígrafe continua para mim a ser a melhor definição de Espanha: "O que é a Espanha? É a poeira que se levanta em turbilhão no caminho da história, depois de um grande povo por ele ter passado a galope." Bautista, além de grande tenista, adora cavalos.

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