Os nossos heróis de ouro Carlos e Rosa

Maratona

Os nossos heróis de ouro Carlos e Rosa

Dois portugueses, admirados dentro e fora de fronteiras. Carlos Lopes, campeão olímpico de 1984 em Los Angeles, até teve direito a ser personagem num episódio de Os Simpsons. E Rosa Mota, campeã de 1988 em Seul, é até hoje estrela na Coreia.

Los Angeles 1984 - Quando Lopes fez o país ficar acordado

Quantas vezes já ouvi dizer: "fiquei a noite toda acordado para ver o Carlos Lopes em Los Angeles"? Não foi só para ver. Naquele agosto de 1984 havia nos portugueses uma crença profunda no atleta do Sporting, quase que uma raiva por o grande campeão estar a aproximar-se dos 40 anos e faltar-lhe ainda o ouro olímpico, o mesmo ouro, aliás, que faltava a Portugal. O espólio do país limitava-se a algumas medalhas de pratas, uma delas do próprio Lopes oito anos antes em Montreal nos 10 000 metros, e mais umas poucas de bronze, incluindo as ganhas dias antes na América por António Leitão nos 5000 metros e por Rosa Mota na maratona.

"Eu sabia que ia ganhar", contou o atleta ainda nos Estados Unidos ao enviado do DN, Oscar Mascarenhas. E, ao longo dos anos, continua a repetir em entrevistas que sim, que acreditou sempre que aquele era o seu dia. Nem o atropelamento duas semanas antes dos Jogos Olímpicos quando treinava na Segunda Circular, em Lisboa, o abalou. "Foram só umas esfoladelas", recordou em entrevista a Cipriano Lucas, antigo atleta e então jornalista aqui no DN, quando se celebraram os 25 anos da medalha de ouro do atleta oriundo de Vildemoinhos, em Viseu.

Houve em Los Angeles ouro português, houve bandeira portuguesa, houve hino português. Pela noite dentro, de olhos postos no ecrã, todos seguimos a transmissão em direto da RTP. Eu tinha 12 anos e ainda me comovo a lembrar aquela noitada, tal como me comovo a dizer ao meu filho como foi uma vitória cheia de classe, mas sobretudo de grande justiça. Um atleta como Carlos Lopes merecia ser o campeão e logo da maratona, a prova rainha.

Por estranho que pareça, a minha mais longínqua memória de Carlos Lopes é só dois anos mais antiga: um quarto lugar nos europeus de Atenas. A puxar pelos outros, como percebi depois que era a sua marca, o português pagou caro as despesas da corrida e foi ultrapassado quase no fim por três adversários com menos categoria. No ano seguinte, no meeting de Estocolmo vi de novo Lopes a puxar, a puxar tanto que corria para bater o recorde do mundo, mas de repente, velocíssimo, Fernando Mamede passa pelo colega do Sporting e é ele quem vence com um tempo do outro mundo. O falhanço de Mamede nos 10 000 metros em Los Angeles, depois de tanto prometer, foi outra das razões para a expectativa nacional em torno de Lopes na maratona.

O hino a tocar em Los Angeles naquele 12 de agosto, a bandeira lá no mastro mais alto, o franzino Lopes (1,67 m, então 53 kg) herói de todos nós, são imagens inesquecíveis. Por qualquer razão, talvez por Lopes com 37 anos ser o mais velho maratonista de ouro e ainda por cima recordista olímpico, os autores de Os Simpsons (que achavam que já tinha 38 anos) lembraram-se do português num dos episódios da série, em 2001. Bem-humorado, já com uns quilos a mais, Carlos Lopes chegou a brincar com a aparição, dizendo que mesmo assim a barriga dele não se comparava ainda à de Homer.

Seul 1988 - Corre Rosa, corre por Portugal

A primeira vez que visitei Seul, Ronaldo era tão famoso que havia fotografias suas em várias lojas de desporto; e Mourinho, em fase alta como treinador do Chelsea, decorava os carrinhos no aeroporto. Mas todos os sul-coreanos, assim que percebiam que eu vinha de Portugal, perguntavam-me era por Rosa Mota. Sim, por Rosa Mota, pela "grande maratonista portuguesa", apesar de a sua medalha de ouro olímpica ter sido conquistada então já há mais de 25 anos.

Foi em Seul, a 23 de setembro de 1988, nuns Jogos Olímpicos que para a Coreia do Sul coincidiram com a transição da ditadura militar para a democracia, que a pequena portuense confirmou a sua classe de maratonista, depois do bronze em Los Angeles. Há outra razão para Rosa Mota ser especialmente acarinhada pelos sul-coreanos, o valor que estes dão à maratona, com um episódio dramático na história nacional a estar relacionado com a prova: em 1936 um coreano ganhou a maratona nos Jogos Olímpicos de Berlim, mas como o seu país estava ocupado pelo Japão teve de correr sob a bandeira do colonizador, de pouco valendo a forma como no pódio disfarçou o Sol Nascente no equipamento branco. Este maratonista campeão, herói sul-coreano, chamava-se Song Kee-chung, e foi ele quem, já velhinho, entrou no estádio em Seul com a tocha olímpica, deixando em lágrimas os milhares de espectadores.

Quem assistiu no local aos Jogos de 1988 foi Jin Sun Lee, na época estudante de português na universidade. "Fomos chamados de repente para apoiar a maratonista portuguesa e deram-nos bandeiras verdes e vermelhas. Eu pensava que era uma mulher grande, mas quando vi pela primeira vez a Rosa Mota pensei como é que tão pequenina tem tanta força", recorda Jin, que entretanto acabou por fazer do nosso país a sua casa e hoje fala português com total à vontade.

Foi automático o carinho dos portugueses por Rosa Mota assim que em 1982 ganhou a maratona nos campeonatos europeus em Atenas. Torci depois por ela a milhares de quilómetros de distância quando correu pelas ruas de Los Angeles, sonhando nós com o ouro mas ela celebrando só o bronze. A hora de Rosa Mota estava marcada para 1988, aquele 1984 seria de um maratonista português, mas no caso Carlos Lopes.

Novamente de olhos no ecrã, era o tempo em que só havia RTP e o comentador Jorge Lopes incentivava "corre Rosa, corre por Portugal!", vi a maratonista a correr em Seul, cidade que na altura nunca imaginaria que se tornaria uma das minhas preferidas. E foi fantástico quando largou a concorrência e se percebeu que de novo o hino de Portugal soaria nuns Jogos Olímpicos. Ainda há dias recordei este momento mágico: estava a conversar com o embaixador Song Oh, recém-colocado em Lisboa, quando este puxa do telemóvel e me mostra uma fotografia sua com Rosa Mota. Felicíssimo ao lado da campeã.

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