Poderia um colaborador de Cavaco Silva acumular essas funções com as de participante num programa televisivo (e radiofónico) no qual semanalmente se desmontam com humor as incidências da política nacional? Conhecendo Cavaco, dificilmente tal seria imaginável. Mas com Marcelo Rebelo de Sousa isso vai ser possível..O poeta e crítico literário Pedro Mexia será o adjunto do novo Presidente da República para a área da cultura - mas nem por isso deixará de ter assento no Governo Sombra, um programa da TSF (que também passa na TVI) em que, ao lado do humorista Ricardo Araújo Pereira - provavelmente o melhor imitador nacional de Marcelo, como se viu no último referendo do aborto - e do jornalista João Miguel Tavares, sob a condução de Carlos Vaz Marques, se passam em revista os principais acontecimentos políticos da semana..Esta possibilidade de acumulação dá ideia de como Marcelo irá dessacralizar em Belém o exercício do mandato de Presidente. Mas, mesmo dessacralizando, nem por isso permitirá que haja um relaxamento na autoridade política que o número um da hierarquia do Estado tem sempre de manter..Afinal, podendo o inquilino de Belém mudar, não mudarão os seus poderes constitucionais: vigiar as leis, promulgá-las ou não, sujeitá-las ou não ao crivo do Tribunal Constitucional - ou carregar no botão da "bomba atómica" demitindo o governo ou dissolvendo a Assembleia..Marcelo Rebelo de Sousa manter-se-á vigilante sobre a ação governativa e Portugal vai voltar a ter, como teve nos últimos cem dias e entre 2006 e 2011, uma situação em que o Presidente é de um partido (PSD) e o primeiro-ministro de outro (PS)..[artigo:5067743].Desta vez, porém, os dois chefes parecem entender-se bem. António Costa foi aluno de Marcelo em Direito e vem daí uma relação que foi sempre boa. Negociaram Orçamentos quando Marcelo liderava o PSD e Costa era o ministro dos Assuntos Parlamentares de Guterres - e fizeram-no divertindo-se..O que Costa já permitiu a Marcelo na relação com o governo nunca Sócrates viu com bons olhos em relação a Cavaco (nem este, quando era primeiro-ministro, em relação ao presidente Mário Soares): contacto direto com os ministros. No Palácio de Queluz, onde teve gabinete entre a eleição e a posse, o PR eleito conversou com o ministro das Finanças, Mário Centeno, que não conhecia, sobre o Orçamento para 2016. Também manteve contactos diretos com os dois ministros que tutelam áreas em que o Presidente tem um papel: o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e o ministro da Defesa, Azeredo Lopes..O que a Constituição diz é que o primeiro-ministro "é responsável perante o Presidente da República" e os ministros perante o primeiro-ministro (e os secretários e subsecretários de Estado perante os respetivos ministros). Portanto, em teoria, nada obriga a que haja uma relação direta dos ministros com o PR - e se existir, como já existe, ela só revela um nível de informalidade e confiança na coabitação Marcelo-Costa sem paralelo nos últimos anos. Costa, ele próprio, dificilmente esconde a satisfação por ter Marcelo em Belém. Não foi por acaso que o PS não apoiou oficialmente nenhum candidato..[artigo:5067834].O que Marcelo já prometeu sobre a forma como exercerá o mandato é que será igual a ele próprio. "Proximidade" foi uma palavra que o próprio definiu como chave na sua relação com o país. Onde em Cavaco se via rigidez e distância, em Marcelo ver-se-á informalidade, empatia e "afecto", outra das suas palavras-chave da campanha que o levou a Belém. A festa da posse começará hoje. Sintomaticamente, acabará com uma exibição de hip hop no bairro do Cerco, um dos mais problemáticos do Porto.