"O país está anestesiado nesta gestão puramente política e tática"

Entrevista a Pedro Reis, o social-democrata que tomou posse esta semana como presidente do Instituto Sá Carneiro. Teme que após o verão estale uma nova a crise económica e com ela venha uma política. Diz ainda que com a decisão sobre as sanções a Comissão Europeia tirou a Costa o álibi para não governar
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A não-aplicação das sanções por não cumprimento do défice foi uma vitória do Governo português?

São uma vitória de Portugal. É o país como um todo, que fez sacrifício enormes ao longo destes anos, que viu ser feita justiça. É uma vitória do Governo anterior no sentido em que foi reconhecido que foram feitas reformas estruturais, é uma vitória deste Governo, desmultiplicando as suas várias frentes, é uma vitória do Presidente da República. Não nos foram acrescentados mais problemas, mas também não nos foi tirado nenhum problema, com o facto de não haver sanções.

Esta folga que foi dada ao governo pela UE não complica o trabalho da oposição?

Mal seria a oposição que viva das más notícias. Eu não vejo as oposições a assentarem a sua estratégia, a sua narrativa, o seu discurso, e o seu projeto para o país com base na negativa. Considero infelizmente que, de facto, podemos estar no limiar de uma fase muito complicada para o país. Há alguns sinais na própria Comissão Europeia, algumas luzes de alerta que estarão ligadas, quando pedem que se pense em medidas de consolidação orçamental e até se chega a apontar eventualmente a subida do IVA, quando se pede que se evidencie os atrasos nos eventuais pagamentos que estarão a começar a acontecer, quando se pede que se prepare o Orçamento com um claro mapeamento de como está a correr a despesa, eventualmente já reconhecida ou não reconhecida. E quando se olha para uma economia que não está a crescer, quando se procura o investimento que não aparece, já para não entrar nos grandes temas, no sistema financeiro, nas exportações. Infelizmente eu não vejo que nós tenhamos tempo para abrandar as medidas que têm que ser tomadas. Começa a faltar tempo a Portugal.

As exigências de Bruxelas sobre a necessidade de mais medidas parecem-lhe razoáveis?

Há aqui uma certa anestesia no país e os sinais de alerta começam a aparecer. Eu entendi as afirmações do Presidente da República nessa linha. As pessoas sentem que houve uma descompressão, com as eleições e a saída da troika, e depois têm alguma desconfiança que este Governo, esta coligação de que como é que vai sustentar e pagar isto. O Governo ainda não começou verdadeiramente a governar. Até agora, eu vejo as reversões, que não estão a dar os resultados que eram suposto. Depois faço muito este exercício com as pessoas com quem vou estando, que é: indique-me lá uma medida que tenha tomado este Governo, diga-me uma medida que o marcou, uma medida que faz acreditar que vem aí o crescimento da economia. Tenho muita dificuldade em encontrar pessoas que me respondam a isto concretamente. O país está anestesiado nesta gestão puramente política e tática. O Governo a querer aguentar-se, a oposição a querer reencontrar o seu discurso e o seu registo, dá quase a sensação que ninguém está realmente a puxar o país para a frente. Sinceramente, espero estar completamente enganado, mas como antevejo, eu vejo no horizonte, sinais que a execução orçamental tende a piorar, que se calhar há despesa não reconhecida, ou ainda não contabilizada, que a receita fiscal não me parece que esteja a crescer, não vejo investimento. Não percebo de onde pode vir o crescimento da economia e com ele a consolidação orçamental. E tenho medo que, depois do Verão, acordemos para uma realidade mais complicada. Entre o imobilismo, o taticismo político e o estado de negação, tenho medo que não seja um ano que acabe muito feliz.

Mas do ponto de vista da consolidação orçamental, o Governo tinha apontado como meta no caso do défice de 2,2%, e a Comissão veio dizer que pode ir até aos 2,5%, o que parece facilitar a execução orçamental...

Claro. Os problemas que nós temos não são só nossos. Também estamos a ser contaminados por uma Europa que anda perdida há não sei quantas décadas, falta crescimento, e os mercados externos, e vamos ver o que é que acontece nas eleições americanas, e Angola como é que sairá da situação em que está, e o Brasil. Eu sou tão crítico em relação ao atavismo que vejo em Portugal, em termos de governação, como sou crítico em relação ao imobilismo da Europa. Acho que a Europa está a perder o comboio do futuro e da competitividade, do crescimento e do investimento. O meu ponto é que eu temo é que o défice que não fique só nos 2,5%. E não sei até que ponto é que tudo isto, o não há sanções e os 2,5% de défice, não é tirar álibis ao Governo português para deixar de se encostar a outras razões e começar a governar.

Isso pode depois a levar a uma atitude ainda mais dura, no futuro, por parte da Comissão Europeia?

Como eu interpreto esta posição da Comissão Europeia é estabelecer um novo contrato, talvez o início do contrato com este novo Governo de responsabilidade.

Podem mesmo ser necessárias medidas adicionais até final do ano, o tal plano B?

Se a situação se degradar, ainda por cima nas várias frentes, económica, financeira, finanças públicas, já nem vou complicar o raciocínio com feitos externos, só vejo duas hipóteses. Primeira: vai ter que se lançar mão de medidas de consolidação orçamental e temo que possam vir do aumento de impostos. Segunda, que eu não quero acreditar: é todo aquele cenário de antecipação de eleições e antes que os maus resultados das políticas que estão a ser levadas apareçam.

Prova-se que o modelo de incentivo ao consumo interno está errado, como dizia o PSD?

A verdade é que houve um cheirinho de consumo e foi a descompressão. As pessoas estiveram apertadas durante muitos anos e precisam quase de equilíbrio emocional. É preciso disciplina mas é preciso alma, e acho de facto que houve e teve um cheirinho no consumo. Mas com a retribuição das pensões e dos salários da função pública, por aí fora, foi marginal, e, por outro lado, o povo português é muito maduro e está desconfiado do que pode vir aí, não acendeu o rastilho do consumo; as exportações, o investimento e por aí fora é o que se vê; Angola teve um certo efeito, mas o Brasil, a China e por aí fora, estamos a falar de mercados que andam à volta dos 3% das nossas exportações, o que aconteceu foi que os empresários, as empresas, estrangeiras e portuguesas, puseram no congelador o investimento, portanto não houve criação de emprego. Ou seja, o motor da economia não arrancou e este é o ponto. É preciso exigir ao Governo que se concentre menos discursos, menos inauguração, menos vacas que voam, e mais no investimento, mais exportações e por aí fora. O que me preocupa é que as pessoas começam a desanimar seriamente e a afastar-se da política e a não acreditar em nenhuma das soluções. E aí sim, eu começo a ficar preocupado com o sistema, com o regime no bom sentido. As pessoas estão a começar a considerar que estamos condenados e nós não estamos condenados. Há maneiras de sair disto.

A banca também é um dos problemas nacionais e para a economia portuguesa?

Acho que a banca é essencial para a economia, é crucial. A nossa banca tem que deixar de ser assunto em Portugal. Não há banca saudável sem economia saudável. E há ainda trabalho de casa para fazer. O balanceamento do tipo e do modelo de ajuda que for ser dado à Caixa exige cuidados máximos, e isso não se resolve só com ajuda máxima, porque ajuda máxima pode distorcer o mercado. A solução que houver para o Novo Banco impacta os outros bancos.. O cuidar da diversidade acionista e nacional na nossa banca, quem defende a independência, defende a diversidade. Há aqui muitas frentes, no investimento, na execução orçamental, na banca, não fugimos de 2016 e 2017 serem anos transformacionais, para o bom ou para o mau.

Os problemas da CGD são da responsabilidade do anterior governo e a comissão de inquérito é benéfica para um banco em funcionamento?

Todos os indicadores que tenho, e não tenho especial informação, é de que esta última administração, se há coisa que fez, foi justamente limpar. Sou sempre a favor de auditorias, comissões de inquérito, e não embarco nisso de que é um banco que está ativo e portanto pode ferir a sua credibilidade ou reputação. Acho que não, acho que já estavam aí as dúvidas e portanto, se alguma coisa a comissão de inquérito pode fazer, é ajudar a esclarecê-las. E isso em última análise defende a Caixa.

[citacao: O problema do PSD é não ter mais vinte Passos Coelho, da sua fibra e experiência]

O que é que vai mudar no Instituto Sá Carneiro?

O meu objetivo é ir buscar, sensibilizar e trazer pensamento de independentes para dentro do Sá Carneiro, que depois o partido, e o país, utilizará como entender. É independência e qualidade que procuro. Acho que o país em si já evoluiu, nós todos já evoluímos, os dirigentes é que não. No Sá Carneiro, se quisermos fazer alguma coisa nova, é começar por dizer: onde é que estão, no país, as pessoas qualificadas, em todas as disciplinas? Não pode ser só economistas e gestores. Gostava muito que o Instituto descobrisse, identificasse, sensibilizasse e recebesse o contributo da professora de Aveiro, do cientista de Guimarães, do empreendedor de Faro e por aí fora.

Qual é hoje em dia a matriz do PSD? O Instituto vai puxar o PSD para a esquerda ou para a direita?

O papel do Instituto Sá Carneiro é justamente ajudar as pessoas a responder a "afinal o PSD é o quê, quer ser o quê?". A resposta é clara: é um partido social-democrata, centro-direita, ou centro-centro, liberal nos costumes e na economia. Quando as pessoas se questionam, às vezes não sabem bem, "o PSD é o quê?", lá está um campo para ser discutido.

Pedro Passos Coelho é o melhor líder que o PSD tinha tido neste momento?

Não tenho dúvidas nenhumas disso. Eu vou-lhe dizer uma coisa, eu acho que o problema do PSD não é tê-lo como líder, é não ter mais vinte Passos Coelho. No sentido da fibra e da experiência de homem de Estado e de primeiro-ministro, da coragem e da determinação. Até fujo à questão de que se é o líder certo porque acho que isso é quase doentio. Acho sinceramente que o país tem tantos problemas, o PSD tem tantos desafios também para se reinventar e reciclar, acarinhemos o que é de melhor, que é o líder.

Deu a entender que ainda teme que haja uma crise política antes do final da legislatura. Se houver essa tentação, obviamente que o Pedro Passos Coelho será o candidato do PSD...

Espero bem que sim.

Mas, se não houver essa crise entretanto, acha que as autárquicas são um momento crucial para o PSD, no sentido de tentar perceber, de facto, como é que o eleitorado reage a toda esta conjuntura política?

Acho que todas as eleições são barómetros. Não alinho nisso de que tem as suas próprias realidades e que tem o seu perímetro de consequências, mas barómetros são. Há duas discussões no desporto nacional da política, do comentário político, na análise política, que é Passos Coelho pode ser o líder se houver eleições rápidas, já não será se for numa segunda fase da legislatura; Passos Coelho pode ser o líder até às autárquicas, se aquilo correr mal, pode já não ser. Eu tenho uma maneira completamente diferente de ver isso, admitindo que são estas as questões, Passos Coelho vai sempre às próximas legislativas. Ou seja, não tem a ver nem com as autárquicas, nem o momento em que as legislativas acontecerem. Eu acho que realmente é preciso governar e preciso que as pessoas sejam responsabilizadas pelos seus resultados.

E o próprio partido consegue aguentar esse esforço de esperar pelo líder novamente como candidato?

Acho que não é um esforço do partido.

Mas o PSD sempre foi muito sanguinário...

Foi, mas muita coisa mudou. Quer dizer, o PSD sanguinário consome líderes quando não lhe cheira a poder e tudo isso é verdade, estatisticamente verdade. Mas no caso de Passos Coelho, essa eventual vontade de o afastar tem muita fabricação política. No momento da verdade, até às próximas legislativas, quando ele se quiser apresentar o partido estará com ele.

Mas o partido tem ou não nomes para se sucederem a Passos Coelho?

O partido tem que tratar da qualidade dos seus quadros e dos seus dirigentes. Eu acho que é um desafio, também para o PSD e para os outros partidos, mas posso falar do PSD como militante, pensar como é que está a sua incubadora de líderes futuros, qual é o estado da incubadora. E eu acho que isso é um desafio grande para o PSD.

(No DN de amanhã será divulgada a nova estrutura e os desafios do Instituto Sá Carneiro nesta nova presidência de Pedro Reis)

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