Dick Haskins: "Da esplanada da pastelaria assistia à passagem dos espiões"

O escritor de policiais Dick Haskins, ou António Andrade Albuquerque

Dick Haskins foi o primeiro escritor português a internacionalizar-se. Na década de 60, os seus policiais eram traduzidos em mais 30 países.

O escritor de policiais Dick Haskins marca o encontro para as 16 horas no café ao lado da igreja, numa povoação perto de Peniche. É na região onde vive há umas décadas, depois de se ter cansado de Lisboa. As fotografias que se conhecem dele têm mais de quinze anos, as do tempo em que deu algumas entrevistas para promover a reedição das suas obras policiais. Depois, existem as fotografias dos anos 50 e 60, época em que cada livro que publicava na coleção Enigma era um grande sucesso. Que ultrapassavam as fronteiras e eram traduzidas para os leitores de 30 países.

Sabe-se que Dick Haskins tem como nome de batismo António Andrade Albuquerque, com o qual também publicou dois romances. Tem um terceiro inédito, A Metáfora do Medo, em carteira para ser publicado. Mas era com o nome britânico que o seu protagonista, tal como Ellery Queen, eram assinatura e detetive ao mesmo tempo e se apresentava aos leitores. Não escondia o pseudónimo e em alguns dos volumes da coleção de bolso até vinha a informação de quem o autor era.

Quando o sino da igreja bate as badaladas da hora combinada, não há Dick Haskins à vista. Não deverá ser difícil identificá-lo, pois não passam assim tantos automóveis na localidade, e os que por ali circulam vão a uma velocidade que confirmam estar de passagem. Dick Haskins surge quatro minutos depois da hora combinada e estaciona em frente ao café. É ele sem dúvida, assemelha-se às fotografias. Sorri e confidencia que fica sempre bem chegar uns minutos atrasado às entrevistas. Não há pressa, responde-se. Afinal, estamos ali para descobrir o autor por trás do pseudónimo, aquele que vendeu centenas de milhar de livros e se tornou no primeiro autor português internacional. Antes dele, dificilmente algum escritor terá vendido tanto da sua produção literária e sido traduzido em tantas partes do mundo. Ou seja, estamos mesmo perante o escritor mais internacional do seu tempo até à altura de José Saramago ou de António Lobo Antunes.

O seu policial mais bem sucedido intitula-se O Isqueiro de Oiro, mesmo que Dick Haskins não saiba explicar a razão específica da sedução dos leitores por este livro. Talvez contenha os ingredientes que coloca na sua própria vida, afinal quando marcou a entrevista comportou-se como um agente secreto. Concordou em dá-la, marcou o local e a hora. Depois, alterou o local e em seguida a hora, como se estivesse a despistar algum agente inimigo e a evitar que o encontro fosse testemunhado...

Dick Haskins nasceu em 1929. Atravessou uma Guerra Mundial e muitas outras guerras pelo mundo; viu o Homem chegar à Lua; o fim de Salazar e a chegada da Revolução de Abril; acompanhou o fim da Guerra Fria e a mudança de cenário dos livros de espionagem como os que também escreveu. Enfim, uma vida longa, que lhe permitiu escrever muitas histórias que a sua imaginação criou. Tudo o que lhe interessava para um próximo livro era logo anotado numa ficha e quando chegasse a hora utilizava as anotações tomadas em tempo certo. É um autor de uma época em que os leitores não queriam um livro policial assinado por um Albuquerque mas por um Haskins, um nome estrangeiro que soasse às páginas escritas por Agatha Christie, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, ou outros autores famosos no policial clássico do século passado.

Não foi o único autor a rebatizar-se em Portugal, mas tornou-se decerto o mais famoso nas nossas letras policiais. Houve Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado, e Ross Pyn, o nome de guerra de Roussado Pinto. Ross Pyn fez-lhe alguma concorrência, mas nada como o sucesso que Dick Haskins obteve e que ainda hoje se pode encontrar em muitas casas de leitores portugueses obstinados, os que guardam nas estantes os exemplares da Coleção Vampiro, da XIS, da Enigma e da Dêagá.

Até porque as personagens de Dick Haskins não ficaram só nos livros, também passaram para o grande ecrã dos cinemas. Como aconteceu com O Caso Bardot, que foi adaptada ao cinema numa coprodução internacional (Portugal, Espanha e Alemanha) e contou com o galã português António Vilar, bem como os atores então na moda, Peter Van Eyck e Letícia Román. Na década de 60, a RTP adaptou na Noite de Teatro a sua novela Fim-de-Semana com a Morte. Em seguida, a televisão alemã interessou-se numa série de 13 episódios sobre os seus policiais. E em 1979, assinou contrato com a RTP para produzir 12 filmes inspirados nas suas obras. No fim da década de 80 e início da de 90, as editoras Europress e Ulisseia reeditam os seus maiores sucessos. Uma carreira que tinha começado em 1955, aos 25 anos de idade, quando submeteu o seu primeiro livro, O Sono da Morte, à Empresa Nacional de Publicidade (então proprietária do Diário de Notícias). A partir daí, sucederam-se vários títulos, a maioria deles traduzidos nos muitos países que publicaram a obra policial do autor.

Na biografia oficial, Dick Haskins defende o princípio de que um "escritor nasce com a vocação para escrever". Foi por isso que não conseguiu "alterar" o seu destino e, ao "sentir inclinação para a produção literária desde a adolescência", escreveu contos "que se perderam no fundo de uma gaveta e no tempo". Assim sendo, diz, "teceu e orientou os argumentos das aventuras que todos vivemos com os amigos na juventude e que, de uma forma ou outra, deixa sempre um rasto de saudade; ouviu e nunca esqueceu o que o seu professor de Português no Liceu de Passos Manuel, em 1942, lhe vaticinou tornar-se um dia escritor". Situação sobre a qual ainda demorou a tomar posição pois "hesitou entre a Medicina e a Literatura". Já casado e no estatuto de trabalhador-estudante, Dick Haskins decidir-se-ia pelo abandono do curso de Medicina e assumiria a escrita como profissão, mesmo que "continuasse em contacto com a ciência médica sempre."

Dick Haskins em plena produção literária

Ainda alguém o chama por Dick Haskins ou é apenas pelo nome verdadeiro?

Há muita gente dos tempos mais antigos que ainda me chama Dick Haskins, mas é mais normal chamarem-me Albuquerque.

Então, não um tratamento só do passado o nome do seu detetive?

Tanto é do passado como continua a ser do presente, depende de quem fala comigo. No entanto, como Albuquerque é aquele que tem vindo nos jornais mais recentemente e como eu nunca escondi quem estava atrás do pseudónimo, a maioria dos conhecidos acostumaram-se a tratar-me das duas formas.

A maior parte dos seus milhares de leitores da década de 50, 60 e 70 desconheciam o verdadeiro autor por trás do pseudónimo?

Não vou dizer que não existiam muitos que desconheciam, mas também não faltava quem soubesse. Até porque nessa altura eu dei várias entrevistas, fosse uma na antiga Emissora Nacional, fosse outra na televisão, e as pessoas ouviam-me falar em português. O apresentador dizia: "Está aqui o Andrade Albuquerque que é o escritor de policiais Dick Haskins.

E os espetadores tinham curiosidade em saber mais sobre o escritor?

Muita, até houve uma vez que acabou o programa, que naquela altura era todo feito em direto, tanto que tínhamos de sair do estúdio em silêncio, e fui informado que aquele ator, o António Vilar, tinha telefonado para o televisão a pedir para eu não me ir embora porque queria falar comigo. O interesse dele, mal ouviu o que disse na entrevista, era fazer um filme baseado num dos meus livros. O que veio a acontecer, pois conseguiu montar uma coprodução com franceses e espanhóis.

E o filme teve sucesso?

Muito, porque o António Vilar era um ator com muita fama, um verdadeiro galã daqueles tempos, e o realizador também conseguiu ter outros bons atores no elenco, como era o caso do alemão também muito conhecido na época, o Peter van Eyck.

Era o António Vilar que queria fazer o filme?

Sim, ele mesmo. Estava muito entusiasmado, tanto que disse no telefonema para não me deixarem abandonar o estúdio porque queria falar nessa mesma noite comigo. Mas eu não fiquei à espera, deixei a morada e ele que me contactasse no dia seguinte.

A sua carreira tem muito a ver com os livros mas os filmes também não deixam de marcar forte presença?

A adaptação dos meus livros para o cinema ou televisão surgiu sempre por interesse de outros, não era eu quem o pretendia.

Como é que dá início à escrita de livros policiais?

Para mim, tenho a certeza que é um micróbio que já nasce dentro da própria pessoa. E se tiver pessoas que nos entusiasmem a escrever, como me aconteceu a mim, ainda é mais fácil.

Como foi que se passou consigo?

Eu tinha um professor no Liceu Passos Manuel, quando tinha uns 13 anos, que era o António José Saraiva. Ele mandava-nos fazer umas redações e, depois de as corrigir, vinha ter comigo na sala de aula e dizia que as apreciava muito. Eu, que já gostava bastante de escrever, ficava todo satisfeito. Só que nessa altura, nunca pensaria que a minha vida iria dar essa volta toda e que seria um escritor. Ele dizia-me "tens muita habilidade", e ainda estou a vê-lo a emendar os erros de português nas minhas redações.

Mas o seu destino não era ser médico?

É verdade, era isso que queria seguir como profissão, mas quando era mais velho questionava-me se o micróbio da escrita não era tão importante como o da Medicina, ou se não era mais forte. Foi por ser escritor que optei, mesmo que tenha sempre continuado a interessar-me pela medicina e nunca deixei de ler livros sobre essa área.

Nunca se arrependeu de não ter tirado Medicina?

Nunca, até porque gosto muito de Medicina e continuo a ler livros sobre o assunto e até a estudar. Talvez se a escrita não se tivesse atravessado pela frente, nunca tivesse interrompido o curso.

Foi fácil tornar-se um escritor?

Sim, por isso mesmo é que ainda hoje me admiro como há pessoas que dizem "eu vou escrever um livro". Isso não é para quem quer, seria como uma pessoa sem curso de Medicina se atrever a fazer uma operação à apendicite. Não o consegue. Portanto, acho, tem que se nascer com esse micróbio. Não é para qualquer um.

Como descobre a sua veia literária para o policial?

Foi pelo policial que tudo começou, sim. Só muito mais tarde é que escrevo outro género de livros, dois romances que se passam pela altura da Segunda Guerra Mundial, que não sendo policial não deixam de ter um fiozinho de mistério. E depois ainda escrevi um terceiro, que está por publicar: A Metáfora do Medo. Esse cenário da Guerra Mundial não surge por acaso, faz parte das minhas memórias porque vivi essa época e houve muita coisa que nunca esqueci. O que posso dizer é que apaixonei-me pela Segunda Guerra Mundial.

Esses dois livros não têm uma personagem coincidente?

Sim, porque eram um único livro. Comecei a escrevê-lo e como havia tanto para contar foi crescendo bastante. Quando o levei à editora, ficaram tão assustados com a dimensão - já ia numas mil e tal páginas -, que decidi separá-lo em duas partes. O que não foi difícil, porque por natureza já continha duas histórias. Portanto, não foi precioso fazer muitas alterações, mesmo que ainda tenha dado algum trabalho.

Como é que escreveu tantas páginas. À mão, na máquina ou no computador?

No computador claro. A máquina de datilografar é coisa de outro tempo.

No entanto, era para o policial que tinha queda. Não foi nesse género que se tornou famoso?

Tudo começa em 1959, quando fui trabalhar para a editora Ática. Eu já tinha escrito três livros mas nunca os tinha mostrado a ninguém. Estava a dar-me bem na empresa e um dia lembrei-me de lhes entregar esses originais para que os pudessem analisar e ver se tinham interesse.

Foram logo aceites?

Não, e estiveram para nunca o ser. Havia dois funcionários que estavam encarregados de receberem os originais e um deles achou que aquilo não teria valor. Então, disse ao colega: "Guardamos isto aqui, nem vale a pena ler, e depois dizemos-lhe que foi recusado." Mas o outro discordou, foi o que me contou mais tarde, e mandou o trio de originais para quem de direito. O tempo passou, e um dia recebo um telefonema da mulher de um dos donos a dizer que gostava muito do que eu tinha escrito e que desejava chegar a um acordo comigo para os publicar.

Em que coleção publicou?

A editora decidiu montar uma coleção para publicar livros de policiais e convidaram-me para a dirigir. Chamava-se Enigma. Nessa altura, uma parte das pessoas sabia que eu era o Albuquerque que dirigia a coleção mas desconheciam que também era o Dick Haskins que publicava nela. Até houve um senhor que pedira para falar com o diretor da coleção e criticou as minhas obras, o que o deixou numa má posição quando me identifiquei.

Era uma coleção para rivalizar com a famosa Vampiro?

Sim. Havia a Vampiro, a XIS e a Enigma.

Havia muita gente a querer escrever policial?

No nosso país não havia assim tantos pretendentes. Pelo menos que eu saiba, nessa altura não havia ninguém.

Mas não havia escritores rivais portugueses?

Não existiam nessa altura.

Como é que se dá a invenção do nome Dick Haskins?

Foi por acaso. Eu estava à procura do pseudónimo e gostei de um nome que vi. Era o de um ator inglês, o Jack Hawkins, só que fiz confusão com o nome. Mais tarde é que venho a descobrir que ele não se chamava Haskins como eu pensava, mas Hawkins. Quanto ao Haskins, eu procurei por alguém assim chamado mas nunca encontrei. Não era muito vulgar! Até que numa das vezes em que fui a Londres e tentei descobrir se Haskins era um nome que existia, vou na rua e vejo num tapume de uma obra cujo empreiteiro tinha esse apelido. Fiquei mais descansado, pois confirmei que não era inventado. Não é vulgar, mas acertei através de um engano.

Desde início que sentiu necessidade de usar um pseudónimo para ser escritor?

Sim, porque para o género policial é preciso que o nome tenha alguma sonoridade. Como todos aceitaram o pseudónimo, até acho que entusiasmava os leitores, correu tudo bem na altura. Não sei se hoje seria assim tão fácil.

Tem noção de quantos livros vendeu nessa época?

Sei lá, muitos... Então, se eu for contar com as edições no estrangeiro é difícil calcular.

Em quantos países teve os seus livros traduzidos?

Em trinta e tal países. Desde que há Internet até já descobri edições que nunca autorizei a publicação. Andei atrás dos editores e dos tradutores para saber porque é que os publicavam sem contrato mas a única coisa que consegui mesmo foi ver as capas dessas edições. Tentei contactá-los, mas nunca cheguei à fala. Pode-se dizer que esta multiplicação de edições também seria uma verdadeira história policial, pois terá havido conivência com gente de cá. Mas essa é uma daquelas investigações difíceis.

Como é que inventava as histórias. Era uma época bastante diferente da atual, quando basta ver um noticiário e surgem imensos crimes e situações que podem servir de inspiração. Como era?

Desde bastante jovem que eu gostava muito de inventar histórias. Nem era para livros, mas para as brincadeiras entre crianças. Eu é que lhes dizia logo quem era o polícia ou o ladrão; eu é que organizava quem e de onde é que apareciam, sobre quem disparar... Aquelas brincadeiras próprias da infância. Por isso é que eu tenho a impressão de que já terei nascido com o micróbio do livro policial.

Quanto tempo é que demorava a escrever os seus livros?

Não demorava muito tempo a escrever, pode dizer-se que cada um dos títulos ocupava-me uma média de uns três meses se os escrevesse de seguida.

Montava a história por antecipação, com tudo planificado, ou ia escrevendo à custa da inspiração conforme avançava no enredo?

Dependia do momento. Às vezes tinha um tema e avançava logo. Mas na maioria das vezes encontrava a tema num ficheiro onde guardava as ideias que iam surgindo no meu dia-a-dia. Uma coisa era certa, cada vez que tinha uma ideia anotava-a imediatamente. Em muitas situações, estava a meio da escrita de um livro e nascia-me a ideia para o próximo. Isso acontecia-me muito pois era um tempo em que o cérebro não parava e eu precisava de ir sempre tomando notas.

Então, não lhe faltavam nunca temas para os livros?

Nunca, era um correr de livros de seguida, porque quando acabava um bastava-me ir buscar uma ficha ao arquivo e podia dar início a outro. Assim, era fácil escrever, mas também porque como achava piada ao que fazia não parava.

Qual era o intervalo de publicação dos policiais?

O meu normal era publicar sempre uma média de dois livros por cada ano.

Com edições de quantos exemplares?

A média das tiragens era habitualmente entre os cinco e os dez mil exemplares. Mas também havia reedições constantes, que obrigava a manter as maquetes da composição por algum tempo até deixar de ser preciso reimprimir. Naquela altura, o livro era composto com carateres e ainda me lembro do chefe da tipografia vir-me perguntar se já podiam desmanchar as páginas que tinham servido para a impressão do livro ou se era preciso guardar para novas edições. Quando não era preciso, eu mandava-o desmanchar e dizia-lhe que se voltasse a ser necessário havia que compor de novo.

Os volumes do Dick Haskins tinham o mesmo formato que os da Vampiro?

Sim, era o tamanho daquilo que na altura se chamava o livro de bolso.

Entre as suas leituras, também estavam os livros dos seus rivais?

Sempre, principalmente a Agatha Christie, a Dorothy L. Sayers, o Dashiell Hammett ou o Ellery Queen. Mas isso não quer dizer que fossem livros que me influenciasse na escrita, era apenas porque gostava de os ler.

Os seus livros tinham outro espírito e um estilo diferente dos policiais estrangeiros que referiu?

Sim, sem dúvida. O que posso dizer é que mesmo que não prestassem eram bem diferentes e tinham o meu estilo.

Quais eram os países onde era mais traduzido?

Os leitores estrangeiros que mais apreciavam os meus livros eram os da Alemanha. Era um sucesso! Eu até ficava admirado com o número de edições que eram reimpressas. Nunca percebi a razão.

Não eram só os alemães que o liam?

Não, havia muitos outros países e em quase todo o mundo. Em 1963, era publicado nos seguintes: Suíça, Áustria e Espanha. Depois, podem-se acrescentar outros: França, Itália, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Estados Unidos, México, Colômbia, Argentina, Uruguai e Brasil. Foi por isso que decidi manter-me como escritor em definitivo.

Recebia correspondência dos seus leitores mundiais?

Sim, chegavam cartas, umas de leitores portugueses, outras de estrangeiros. Se fosse agora, com o e-mail seria muito mais fácil essa troca de correspondência. Até havia quem me pedisse opiniões sobre como escrever um policial de sucesso, às quais eu só respondia quando notava que existia mesmo interesse por parte de quem me escrevia.

O livro policial voltou a estar na moda os tempos mais recente. Já leu alguns dos autores nórdicos?

Não, não li. Não sinto grande interesse por esses autores.

Nem leu os volumes da trilogia de Stieg Larsson?

Não, também não li. O que eu gosto de ler são os clássicos do policial, os da Agatha Christie ou do Raymond Chandler, por exemplo, aqueles livros a que eu estava habituado a ler desde que era novo.

Voltemos aos seus livros. De todos eles, qual era o que gostava mais ou fosse melhor?

Essa é uma pergunta difícil de responder e a razão é simples: gosto deles todos. Se for perguntar essa preferência aos leitores, eles diriam que é O Isqueiro de Oiro. Foi dos preferidos, teve imensas reedições, mesmo que não seja essa a minha opinião. Não acho que seja o melhor entre todos eles. Talvez o nome tenha ficado no ouvido dos leitores!

Então, diga lá qual é o preferido?

O meu preferido é O Espaço Vazio, que tem um enredo muito bom e ao qual eu me dediquei de alma e coração. Além disso tudo, a história deste livro contém uma "bomba" que ninguém espera enquanto lê o livro. Foi daqueles que quando terminei de escrever me deixou realmente satisfeito porque tive a sorte de ter essa ideia [a "bomba"], que não tem um enredo vulgar e o final é totalmente inesperado. Só posso dizer que não passa pela cabeça de ninguém o desfecho que arranjei! Eu fiquei todo satisfeito por ter conseguido que determinada personagem fizesse uma descoberta que nem o leitor fora capaz de descobrir ou intuir. É, penso, uma inspiração muito feliz.

Até que ponto os seus personagens mudam ou permanecem de livro para livro?

O único personagem que tinha sempre lugar era o Dick Haskins, porque eu escrevia na primeira pessoa. Facilitava-me poder transmitir o que pensava para o personagem. Era assim como que a meter-me na sua pele.

Colocava várias situações autobiográficas nos livros?

Que me lembre, não. Talvez um pouco da minha maneira de ser, de como é que eu via isto ou aquilo, e como tentava resolver as situações que se passavam no livro. Posso dizer que é uma personagem que pensa como eu penso.

Não tem originais na gaveta?

Não, está tudo publicado. Agora, só falta o romance inédito.

E não pensa escrever mais nenhum policial?

Nunca se sabe. Pode ser que ainda me volte a meter nisso.

Que outros autores portugueses, fora do policial, gosta de ler?

Só gosto de ler autores estrangeiros, mas não estou a desvalorizar os portugueses. Gosto bastantes de romances estrangeiros, principalmente aqueles que têm o tal fiozinho de mistério, como os do Graham Green. Tenho tudo dele em casa, como um que está tão bem escrito que até chorei. Essa capacidade mostra a força excecional de um autor que consegue transmitir o drama de tal maneira que o leitor não resiste. Também gosto de Somerset Maugham.

E de John le Carré?

Já li, mas não é dos meus preferidos.

Porque é que os autores portugueses não o atraem?

Acho que há muitos livros que não fazem falta. Um excesso, sem querer ofender ninguém. Além de que certos autores têm alguma petulância, atitude que não existe no estrangeiro.

Em O Sono da Morte tem um jornalista que descobre a solução. É uma classe que ajuda nas investigações policiais ou atrapalha?

Depende do jornalista. Se se dedicar a um caso de origem criminosa e viver aquilo com paixão, é muito capaz de fazer uma boa investigação e ajudar. Mas tem de ser jornalismo sério, não é o vulgar.

No tempo de Dick Haskins não havia laboratórios forenses como os que vemos nas séries de TV atuais. Como é que desembrulhava a intriga?

Já havia um pouco, mesmo que não tanto como hoje em dia. A ciência está sempre em evolução.

Usaria essas técnicas nos livros?

Sim, mas de passagem, porque gosto é de aprofundar o mistério, o porquê, e as partes em que analiso as situações que aparecem. O que está por trás e os pormenores.

Fazia muita investigação?

Não, era tudo criação e invenção. Não precisava porque o que usava da parte médica era do meu conhecimento e o que não sabia investigava em livros de Medicina. Às vezes, trocava impressões com alguém para ver a sua reação perante o que estava a escrever. E eles nem desconfiava que serviam de cobaias.

Nem conversava com a polícia?

Não, porque a maior parte dos livros passavam-se em Londres, onde estive muitas vezes por longas temporadas. Então, passeava por todo o lado e até tinha algumas aventuras inesperadas que acabavam por me inspirar. Uma noite houve um assalto numa farmácia em Picadilly Circus e eu assisti a tudo, com tiros disparados pela Scotland Yard. Num tempo em que à meia noite a praça estava vazia e ainda havia smog em Londres. Noutra vez, achei que estava a ser perseguido porque ouvia o eco de outros passos atrás de mim quando ia deitar uma carta no marco do correio para as minhas filhas. Achei que ia ser assaltado, mas de repente ele ultrapassou-me e disse-me "Good night, sir". Era um polícia que estava fazer a sua ronda!

Escrevia de dia ou à noite?

De dia pouco, mas à noite muito, tanto que minha mulher chamava-me à atenção pelos serões.

Os seus livros resultavam da inspiração, portanto?

Sim, era capaz de passar um dia inteiro e não escrever nada se faltasse a inspiração.

Como planeava o livro?

Organizava o princípio, o meio e o fim. Algumas vezes até me perguntava como é que conseguiria deslindar aquela história, só que eu não desistia e era persistente. Tinha as ideias e ia-as anotando. Houve uma noite em que sonhei com um argumento e levantei-me logo para anotar tudo em vez de esquecer.

Cada um tem a sua técnica.

Sim, a minha era anotar tudo em fichas para não me esquecer. Entre os amigos, chamavam-me o "fichinhas", por estar sempre a tomar notas nas fichas. Portanto, a maior parte dos meus livros policiais nasciam enquanto escrevia um e ia tendo ideias para o seguinte.

Qual é o ingrediente principal para um livro destes ter sucesso?

Primeiro, escrever corretamente o português. Segundo, ter boas ideias. Terceiro, ser metódico e nunca deixar de acabar de escrever o livro por mais que custe.

Teve discípulos?

Houve quem me perguntasse como é que se fazia um livro, mas nunca tive alguém com suficiente força de vontade.

Ainda podemos encontrar as edições originais?

Ainda há nos alfarrabistas, até os anunciam.

Quando havia reedições, revia e alterava o livro?

Não há nenhum livro que não tenha uma gralha, por isso dava um toque aqui ou ali.

Entre os concorrentes que tinha, Dennis McShade e Ross Pyn, de quem gostava mais?

Só conhecia bem o Ross Pyn e era muito boa pessoa. Gostava dos seus livros.

A vida para si foi sempre um mistério?

Essa é uma belíssima pergunta mas não a sei responder. Senti atração pelo mistério desde cedo. Talvez porque acompanhei a Guerra Mundial com muito interesse e tinha um primo muito mais velho que era da contraespionagem. Ele contava-me coisas sobre os espiões que por cá andavam e eu apaixonei-me pelo tema. Perguntava-lhe muitas coisas quando frequentávamos a pastelaria Coimbra, na rua Alexandre Herculano, e da esplanada assistíamos à passagem dos espiões e ele apontava quem eram. Ainda hoje os estou a ver, como era o caso de uma espia muito bonita que todas as noites passeava os cães.

Guardou todas essas coisas na memória para os livros?

Aquilo tudo impressionou-me. Estou a contar isto e é como se estivesse a ver o passado. Ficou tudo registado cinematograficamente.

Gostava de ter mais leitores?

Claro, mas acho que há menos leitores para todos os escritores.

Os seus livros vão sobreviver?

Essa também é uma boa pergunta. Espero que sim, que fiquem na história como ficam os outros. Não me quero comparar como o Ellery Queen, por exemplo, mas tenho livros que ninguém esquece. Acho que o que conta é o que está feito, que bom ou mau foi escrito com honestidade.

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