Um país entre o ódio e o amor

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Vamos olhar para o lado, para um país em quase todos os aspetos incomparável a Portugal. No domingo, milhões de brasileiros voltaram às ruas para exigir a a demissão da presidente Dilma Rousseff. Os protestos não são de hoje, mas a enorme contestação ganha agora novos contornos, com as suspeitas que ferem de morte Lula da Silva. Aquele que foi presidente do Brasil, entre 2003 e 2011, ex-sindicalista, ex-metalúrgico, o mesmo de quem o intelectual inglês Anthony Giddens disse acreditar poder "salvar o mundo", é suspeito do crime de branqueamento de capitais no âmbito do processo Lava--Jato, que investiga casos de corrupção em torno da Petrobras.
O Ministério Público de São Paulo pede a detenção de Lula, Nicolás Maduro, presidente venezuelano, comenta barbaramente o caso dizendo que, se o seu homólogo fosse preso, seria como um Nelson Mandela da América do Sul, e ontem, a imprensa brasileira noticiava que Lula tornar-se-ia no primeiro ex-chefe de Estado a voltar ao poder como ministro, aliás, superministro, num cargo feito à sua medida. Este seria o melhor esquema encontrado para obstruir o caminho da justiça. E quando se pensa que o pior já passou, saltam de debaixo do tapete suspeitas fulminantes sobre ministros, senadores e, até, sobre Dilma Rousseff, que tenta evitar a queda até ao último minuto. O próprio Lula já avisou que andará pelo país e pediu ao seu partido, o PT, para "levantar a cabeça".
Esta está longe de ser a primeira crise política do Brasil. Habituámo-nos a olhar para este enorme país como algo que não quebra, que sempre se recompõe de todos os tombos, por maior que eles sejam. Mas, agora, à enorme desigualdade social e à pobreza, à crise do petróleo e à debilidade da economia, junta-se uma agressiva desilusão - pode sempre ficar pior - em relação à classe política e às elites brasileiras. Desilusão é a palavra certa no caso do Brasil, porque o que os brasileiros viveram foi uma violenta ilusão com Lula e o PT. E a desilusão é, como sabemos, somente o sentimento mais corrosivo. O risco de desagregação social agrava-se e sinal disso é o crescente confronto entre os manifestantes e os insultos racistas a que estamos a assistir nas manifestações. Os líderes no Brasil despertam na população sentimentos extremos, entre o ódio e o amor, entre a corrupção que grassa no seio do PT e os apoios sociais que foram criados nos tempos de Lula. A situação já é, neste momento, grave e explosiva, mas pode piorar mais ainda. As perspetivas de crescimento e de evolução de outros indicadores económicos têm sido, sucessivamente, revistas em baixa. A economia e a política, condenadas uma à outra.

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