Portugal, afinal, não precisa de Cristiano Ronaldo?

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O talento excecional de um indivíduo, nascido com um dom único, trabalhado para a perfeição em esforço contínuo, anos e anos a fio, é derrubável. Basta um pequeno toque no sítio certo. Cristiano Ronaldo sabe isso.

O talento excecional, mesmo na arte, nunca é apenas a expressão de um indivíduo, é a expressão da relação de um indivíduo com um coletivo. Como? Através do reconhecimento que o artista tem no meio. Por isso o artista procura o aplauso. Cristiano Ronaldo sabe isso.

O talento excecional não é propriedade privada. Para ocupar um lugar único e diferenciado, para distinguir o artista de outros artistas, a sociedade tem de reconhecer a sua originalidade, tem de contextualizá-lo na História, tem de ver nele um fenómeno único, tem de desfrutá-lo. Por isso a individualidade do artista resulta da apreciação coletiva. Cristiano Ronaldo sabe isso.

Na meia-final do Campeonato do Mundo de 1970 o capitão da seleção alemã, Franz Beckenbauer, jogou um prolongamento de cinco golos com o braço enfaixado, por causa de uma clavícula partida. A Alemanha perdeu para a Itália por 3-4. Foi considerado o jogo do século.

Cristiano Ronaldo foi magoado no joelho aos oito minutos da final do Campeonato da Europa do passado domingo. Tentou, durante 20 minutos, prosseguir. Saiu de maca, a chorar. Portugal ganhou por 1-0 no prolongamento. Para os portugueses é o jogo de todos os tempos.

Nesta competição Ronaldo aceitou papéis secundários: defendeu, passou bolas, desmarcou, cobriu, ocupou espaços. Não foi o craque arrogante que põe a equipa ao seu serviço. Recusou o estatuto de super-homem ariano. Por isso, a seleção portuguesa sobreviveu à sua lesão.

Durante todo o mês foi líder com palavras e gestos que uniram a equipa numa cumplicidade igualitária, mas mostrou porque o seu talento lhe dá autoridade indiscutível, quase ditatorial, e o reconhecimento espantado do público: um golo de calcanhar mágico frente à Hungria e outro de cabeça em voo estratosférico ao País de Gales.

E quando com a França tudo parecia perdido, ele não recolheu ao balneário para lamentar a sorte. Ficou na linha lateral, perna enfaixada, em saltos coxos, a gritar, a incentivar, a mostrar que estava lá para os outros, que acreditava, que para vencerem não precisavam das pernas dele... Nem Beckenbauer!

A seleção portuguesa, afinal, dispensa Cristiano Ronaldo? Neste Campeonato da Europa descobriu que depende dele, sim senhor, mas não apenas do seu espantoso talento individual. A equipa portuguesa precisa tanto do capitão como do artista. A equipa portuguesa precisa do atleta excecional que pensa e trabalha em benefício do coletivo. Precisa, portanto, do melhor líder futebolista de sempre.

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