O dilema do BCE

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O Banco Central Europeu, com o seu Conselho a preparar-se para reunir hoje em Frankfurt, vê o seu âmbito de ação influenciado não apenas por questões regionais, mas também por outros bancos centrais mundiais com relevância sistémica.

O BCE está desconfortavelmente encaixado entre, por um lado, a Reserva Federal dos EUA - que tem a capacidade, mas não a vontade, de se aventurar mais profundamente na política monetária não convencional - e, por outro, o Banco do Japão e, em menor medida, o Banco Popular da China, que continuam dispostos a fazer mais, mas com medidas que parecem cada vez mais ineficazes no apoio à atividade económica.

Trilhando esse equilíbrio delicado, o BCE deverá optar por fazer mais. No entanto, apesar de as suas medidas incrementais não convencionais serem suscetíveis de ter ainda algum impacto a curto prazo, o banco central estará a aproximar-se mais do ponto de se tornar cada vez mais ineficaz e talvez arrisque ser contraproducente.

As autoridades do BCE estarão sob uma pressão significativa para expandir o apoio do banco a uma economia europeia que está a perder ritmo de crescimento e que tem visto ultimamente a sua taxa de inflação ficar negativa. Com este objetivo virá a tentação de aumentar o ritmo de compras mensais em larga escala de títulos de dívida, o programa conhecido como quantitative easing (flexibilização quantitativa), e pode ir ainda mais longe ao empurrar as taxas de juro para terreno negativo e ao alterar a estrutura das taxas.

Tais medidas iriam contrastar fortemente com o caminho tomado pela Reserva Federal, que saiu do seu programa de quantitative easing e, pela primeira vez em quase dez anos, aumentou as taxas de juro, não porque a economia dos EUA tenha alcançado o ponto de descolagem, mas porque as autoridades estão cada vez mais preocupadas com os danos colaterais e as consequências indesejadas da dependência excessiva e prolongada da experimentação política do banco central.

Em vez disso, o BCE estaria a aproximar-se do seu homólogo do Japão, que está com dificuldades para cumprir os objetivos estabelecidos, apesar de ter surpreendido recentemente os mercados com extensivas medidas de estímulo à economia.

Embora não haja certezas sobre o poder continuado de políticas experimentais, é provável que as decisões do BCE desta semana tenham algum impacto sobre as taxas de câmbio e os preços dos ativos financeiros, bem como o potencial de virem a ter algumas repercussões económicas benéficas.

Concretamente, elas ajudariam provavelmente a enfraquecer o euro, o que iria apoiar as atividades de substituição de importação e exportação. E é provável que ajudem os mercados de ações europeus a superar-se, pelo menos em termos relativos, o que ajudaria marginalmente a proteger o consumo.

No entanto, esses efeitos a curto prazo dissipar-se-ão rapidamente a menos que sejam complementados por uma mudança política europeia mais ampla - o afastamento da dependência excessiva em relação ao BCE e o avanço na direção de uma resposta política abrangente que intensifique as reformas estruturais pró-crescimento, aborde as deficiências da procura agregada, lide com as bolsas restantes de endividamento excessivo e fortaleça a arquitetura económica e financeira regional.

Além disso, como disse o então presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke, em agosto de 2010, os "benefícios" das políticas não convencionais trazem com eles "custos e riscos".

A dependência excessiva continuada da economia europeia do banco central está a tornar-se cada vez mais uma proposta de difícil defesa, uma vez que aumenta a vulnerabilidade política do BCE e prejudica a sua eficácia política a longo prazo, cria um ambiente mais complicado para os bancos e distorce a alocação de capital. Com efeito, o BCE pode ficar vulnerável ao seguir o caminho do Japão, vendo os benefícios em declínio a serem ultrapassados pelo aumento dos custos e dos riscos.

[citacao:O BCE estará a aproximar-se mais do ponto de se tornar cada vez mais ineficaz e talvez arrisque ser contraproducente]

Quando o Banco do Japão surpreendeu os mercados, há algumas semanas, ao tornar as taxas de juro negativas, provavelmente não antecipava o que se seguiu: uma moeda mais forte (e não mais fraca), uma onda de vendas no mercado de ações (em vez de um aumento súbito das cotações), um Parlamento furioso a exigir explicações e evidências do aumento da desintermediação do sistema bancário. Este é um aviso sério de que, para além de um certo ponto, o ativismo não convencional prolongado do banco central - especialmente quando envolve taxas de juro nominais negativas - pode deixar de ser parte de uma solução de curto prazo para passar a causar complicações que não são fáceis de conter.

A principal questão a colocar antes da reunião do BCE não deve ser se as autoridades vão fazer mais. Isso é certo. Pelo contrário, é saber quanto tempo vão demorar a aproximar-se inadvertidamente da situação lamentável em que o Banco do Japão se encontra agora - a de uma eficácia das políticas reduzida e um aumento da vulnerabilidade política.

Ninguém que se preocupe com a saúde da Europa e da economia global quereria que outro banco central com importância sistémica chegasse a esse ponto.

Chairman do Conselho de Barack Obama para o Desenvolvimento Global

Exclusivo DN/Bloomberg

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