"Nós não somos Astérix, não temos a poção mágica mas temos a força das nossas convicções", declarava o presidente do Parlamento da Valónia, André Antoine, para explicar a determinação da região francófona da Bélgica em não ratificar o tratado geral de economia e comércio entre a União Europeia (UE) e o Canadá, cuja assinatura estava prevista para amanhã em Bruxelas..A referência à conhecida figura de banda desenhada foi retomada ontem na primeira página do Libération, em que a Valónia é comparada à aldeia dos irredutíveis gauleses, num mapa onde, surpreendentemente, Portugal desaparece e países como a Grécia e o Reino Unido não são assinalados. Questionado sobre o facto, o editor da publicação que supervisionou o especial de terça--feira, Vittorio de Filippis, desvalorizou as ausências. "O desenho é mesmo assim." No original da banda desenhada de Uderzo e Goscinny o mapa centra-se apenas na antiga Gaulia (atual França), sendo por vezes visíveis partes da Alemanha, Itália e Grã-Bretanha. Nada mais..Para o editor, a solução encontrada é a "síntese" entre "sentido de humor e um problema sério". De Filippis diz haver "um pequeno lado gaulês na resistência dos valões". E que sucede de forma "talvez imprevista para todos nós". Em particular num momento em que há "todo um deslumbramento com o comércio livre". Todavia, apesar do espírito de resistência, "os valões acabarão por ceder", pensa o jornalista, e cita a entrevista ao Libération do ministro-presidente da Valónia, Paul Magnette: "não sou um altermundialista." "Isto diz tudo", considera De Filippis. E o "tratado será assinado na data prevista". Ao final do dia, o gabinete do primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, assegurava que "será assinado" amanhã. Magnette, europeísta convicto, não quer "enterrar o tratado", como disse recentemente, mas renegociar aspetos que diz terem sido decididos de "forma pouco democrática"..O tratado, conhecido pela sigla CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement), é uma enorme "compota de textos, 300 páginas e 1300 anexos, duas ou três declarações interpretativas", afirmou o líder parlamentar valão, para quem é essencial "uma base jurídica sólida" a pensar também em dois outros tratados da mesma natureza ou semelhantes que a UE negoceia com EUA, Japão e Vietname. Ainda que a capital política da Valónia, Namur, esteja a mais de 680 quilómetros de Erquy, na Bretanha francesa, onde um dos criadores de Astérix reconheceu ter situado a aldeia dos irredutíveis gauleses à ocupação romana, os valões parecem partilhar do mesmo sentimento de irredutibilidade face àquilo que o Libération classificava, com sentido de humor, de "Pax Canada"..A não acontecer amanhã a assinatura do CETA, a UE e a Comissão terão sofrido uma clara humilhação, não muito distinta da que, de forma sistemática, fortificados com a poção mágica, Astérix e os aldeões de Erquy infligem, de forma recorrente, aos romanos..Perda de soberania.No plano dos factos, na UE têm-se verificado fenómenos de contestação a acordos de livre comércio. Nomeadamente à Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento que está a ser negociada com os EUA. Esta é particularmente criticada por estar em causa, segundo os opositores, o desmantelamento de uma série de mecanismos que iria favorecer as empresas americanas..Para os detratores da parceria, os Estados perderiam parcelas importantes de soberania para as multinacionais, ficando em situação de maior debilidade se confrontados com processos das grandes empresas. A parceria escaparia a qualquer tipo de controlo democrático pelas diferentes instâncias nacionais..Ainda quanto ao CETA, cujas negociações demoraram sete anos (até setembro de 2014), o facto de se prever um período de vigência provisória sem obrigatoriedade de os Parlamentos nacionais e regionais dos Estados da UE procederem à sua ratificação, é outra crítica que lhe é dirigida. Um direito que o Parlamento valão decidiu exercer já..A oposição não é de agora. Logo a 6 de outubro, o ecologista Stéphane Hazée, evocando a semelhança do mecanismo de arbitragem em conflitos entre um Estado e uma empresa com o da parceria, criticava o acordo. Além da Valónia, a região bilingue de Bruxelas, governada por uma coligação de esquerda, se opõe ao CETA. Em contrapartida, a Flandres defende o tratado que concede ao Canadá acesso preferencial a um mercado de mais de 500 milhões de pessoas, superior à daquele que é hoje o principal parceiro comercial, os EUA..[artigo:5457781]