"O progresso impressionante" à beira do precipício da corrupção

Lula e Dilma tiraram milhões da pobreza e deram corpo a nova classe média. Mas a que preço? Corrupção tolda desenvolvimento e crédito. Brasil é uma potência mundial, vale mais de metade da Alemanha
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Antes de o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula da Silva e de Dilma Rousseff chegar ao poder em 2002, o Brasil era um país muito mais pobre, desigual e iletrado do que é hoje.

Era uma verdadeira nação de terceiro mundo que, no entanto, nunca deixou de ser uma potência económica regional e mundial. E onde a corrupção também nunca deixou de travar o desenvolvimento prometido.

Arrasada por décadas de hiperinflação até 1997 (a subida dos preços chegou a 3000% em 1990) e altamente dependente do apoio financeiro externo (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial), a economia brasileira erguer-se-ia por fim a partir de 2003, puxada pelo forte desenvolvimento do setor petrolífero (universo Petrobras), pela maior abertura ao investimento estrangeiro, por uma política cambial mais determinada e por um pacote de políticas antipobreza e de ordenamento do vasto território que reverteria a favor do consumo privado, de mais saúde pública, do mercado de habitação e que ajudaria a suportar com o tempo uma classe média mais abrangente. O Brasil tem 204,5 milhões de habitantes.

Os efeitos benéficos internos da subida de Lula ao poder são confirmados por várias instâncias internacionais. As mesmas denunciam, todavia, que apesar dos progressos a pobreza e a desigualdade continuam em níveis insustentáveis; a corrupção e o clima de suspeita permanente são males que continuam imparáveis, devoradores.

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A equipa da OCDE que segue o país recorda que "o Brasil fez um progresso impressionante na última década na melhoria da qualidade de vida dos seus cidadãos. Nos últimos anos, o país evidenciou um recorde de crescimento na inclusão e na redução da pobreza". E observam mesmo que "o dinheiro, embora não possa comprar felicidade, é um meio importante para alcançar padrões superiores de vida". Mas concedem que "no Brasil, o rendimento médio interno disponível líquido ajustado per capita é inferior à média da OCDE". Já o FMI mostra que de 2003 até 2015 o PIB per capita ajustado brasileiro subiu uns significativos 63%.

O Banco Mundial também tem uma leitura favorável dos anos Lula e Rousseff, mas só até 2013, altura em que rebentou o escândalo Petrobras.

A task force do Banco Mundial para o Brasil confirma que "entre 2003 e 2013, o Brasil viveu uma década de progresso económico e social em que mais de 26 milhões de pessoas saíram da pobreza e a desigualdade foi reduzida significativamente (o coeficiente de Gini caiu 6% em 2013, chegando a 0,54). O rendimento dos 40% mais pobres da população cresceu, em média, 6,1% (em termos reais) entre 2002 e 2012", em comparação aos 3,5% que foi a média da população total.
Elogia os resultados do famoso Programa Bolsa Família (o rendimento mínimo que beneficiou mais de "50 milhões de brasileiros pobres") e muitos outros programas de organização hídrica e acesso a água potável, a cuidados de saúde básicos, em regiões remotas do país como o Ceará (Nordeste) ou o Acre (interior amazónico). Essas políticas valem ainda hoje ao PT grande apoio popular e eleitoral.
Ainda assim, "a redução da pobreza e da desigualdade vem mostrando sinais de estagnação desde 2013", avisa o Banco Mundial.

Petroblast

Hoje, depois de anos de crescimento sólido (exceto 2009, o da grande crise mundial) e de uma inflação baixa face aos padrões históricos estratosféricos (5,9% ao ano no período Lula/Rousseff), o Brasil está de novo em apuros. Depois da recessão de 3,8% em 2015, o PIB pode bisar na marca (ou até piorar neste ano). O pior ano foi 1990, o primeiro do polémico presidente Collor de Mello no poder que, ironicamente ou não, foi o único até hoje a ser deposto por impeachment (impugnação).

Em 2013, rebentaria com estrondo a rede de negócios obscuros e fraudulentos envolvendo a estatal Petrobras, a maior empresa do país (valeria 13% do PIB, e centenas de políticos e empresários por todo o país). Foi o início da derrocada. Até hoje a Lava-Jato não tem fim à vista.

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Em declarações ao Estado de Minas, o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, afirmou que "tudo conspirou contra a Petrobras". "Além das denúncias, da prisão de diretores e do endividamento astronómico, a empresa não consegue cumprir a meta de produção e, para piorar, o preço do barril de petróleo caiu no mercado internacional."

Já em janeiro, o economista-chefe do FMI, Maurice Obstfeld, reforçou a ideia. "No Brasil, a configuração política não melhorou, obviamente. De facto, até piorou com o início dos procedimentos para a impugnação e o alcance cada vez maior das alegações de corrupção".

Faltaria a estocada final. Em 2008, Lula receberia da Standard & Poor"s, pela primeira vez na história, o desejado rating soberano de investimento de qualidade (não especulativo). No ano passado, em setembro, perderia o galardão. O Brasil, tal como Portugal, voltou a ser "lixo" para os investidores estrangeiros.

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