Missão Guterres: de Lisboa a Pequim e escala em Moscovo

Futuro líder da ONU e Vladimir Putin estiveram ontem reunidos na capital russa e sublinharam a importância do diálogo
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Apesar de ser homem e de ter nascido na freguesia de Santos-o-Velho, no centro de Lisboa, António Guterres acabou por receber o beneplácito da Rússia. Moscovo queria uma mulher da Europa de Leste para secretária-geral das Nações Unidas, tendo começado por apoiar a búlgara Irina Bokova, diretora da UNESCO, mas acabou por classificar a escolha do ex-primeiro-ministro português como a melhor decisão do Conselho de Segurança nos últimos cinco anos.

Foi assim, em clima de harmonia, que Guterres, depois de ter estado no Cazaquistão na quarta-feira, foi ontem recebido por Vladimir Putin em Moscovo. O primeiro encontro entre os dois remonta ao ano 2000, quando o então chefe do governo português visitou o Kremlin. Isso mesmo foi relembrado pelo presidente russo. Putin congratulou Guterres pela sua designação, sublinhou que tem pela frente "um trabalho complexo e de grande responsabilidade" e disse que espera estabelecer com ele o "mesmo diálogo construtivo" que mantinha com Ban Ki-moon.

Nos últimos tempos, no entanto, o Kremlin e o ainda secretário-geral da ONU entraram em rota de colisão depois de o diplomata sul-coreano ter responsabilizado a Rússia pelo estagnar no processo de paz na Síria. Nesta semana, na terça-feira, houve um novo choque entre Moscovo e a ONU, quando Sergei Lavrov - ministro russo dos Negócios Estrangeiros que também se encontrou com Guterres - acusou Staffan de Mistura, o enviado das Nações Unidas para a Síria, de "sabotar" as negociações entre o governo de Bashar al-Assad e a oposição.

No encontro com Putin, Guterres, que começou por agradecer em russo as palavras do presidente, disse "reconhecer o papel decisivo da Federação Russa em todos os aspetos das relações internacionais". O português referiu ainda que tem consciência de que só poderá desempenhar um bom papel se for capaz de manter uma relação construtiva com a Rússia. "Tenho muito que fazer apenas para garantir que a máquina irá funcionar melhor do que no passado", acrescentou ainda o futuro líder da ONU.

De acordo com um comunicado do Kremlin, Putin e Guterres conversaram sobre a eficácia das Nações Unidas, em particular na luta contra o terrorismo, e acerca das situações na Síria e na Ucrânia.

No passado dia 5 de outubro, Vitaly Churkin, embaixador da Rússia na ONU, surgiu perante os repórteres e foi taxativo no discurso: "Temos um claro favorito e chama-se António Guterres". O português tinha acabado de receber 13 votos de encorajamento, duas abstenções e nenhum de desencorajamento. No dia seguinte seria aclamado por unanimidade como sucessor de Ban Ki-moon.

Desde que foi designado secretário-geral da ONU, António Guterres tem passado a maior parte do tempo em Nova Iorque, mas também tem aproveitado as curtas passagens por Lisboa para cumprir alguns compromissos de agenda.

Na terça-feira, na capital portuguesa, ao discursar no âmbito de uma conferência promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, António Guterres foi duro com a classe política dos países mais ricos. O futuro líder da ONU justificou o crescimento do populismo em muitos países pelo facto de os mais desfavorecidos - os "perdedores da globalização" - terem vindo a sentir-se ignorados pelos governantes.

Durante a intervenção no Vision Europe Summit, centrou-se nos refugiados, sublinhando que "a comunidade internacional fracassou" no que diz respeito ao problema sírio. Guterres acredita que as migrações "estão para ficar" e que "sem migrantes as sociedades europeias não serão sustentáveis", mas defendeu que é preciso trabalhar na origem dos problemas para que o movimento de pessoas aconteça "por esperança e não por desespero".

Guterres aproveitou ainda para dar uma bicada em Donald Trump: "Se não investirmos na diversidade, seremos surpreendidos por mais do que certos resultados eleitorais, pois os valores que temos e a segurança global serão postos em causa".

Depois do encontro com Putin, Guterres fará mais uma breve passagem por Lisboa, mas no início da próxima semana, na segunda e terça-feira, estará na China, a convite do governo de Xi Jinping. Na agenda, de acordo o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, estarão as questões quentes do momento a nível internacional, o futuro da ONU e a relação da China com as Nações Unidas. No início da semana, Geng Shuang, numa conferência de imprensa em Pequim, referiu que a viagem de Guterres irá servir para "aumentar a confiança entre as duas partes".

Durante o processo de escolha do secretário-geral, alguns analistas chegaram a avançar a possibilidade de a China - tal como a Rússia - , outro dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (o que lhe garante poder de veto), poder representar um obstáculo para Guterres. "O facto de ter prometido desempenhar o cargo como um ativista pelos direitos humanos também torna a vitória surpreendente, uma vez que a Rússia e a China têm-se mostrado resistentes a aceitar ativistas nos principais lugares da ONU", sublinhava no The Guardian o editor de Assuntos Internacionais, Julian Borger, no dia em que Guterres garantiu a designação.

Depois da visita à China, António Guterres voltará a Nova Iorque onde irá passar a maior parte do mês de dezembro. Para dia 12, às 15.00 (horas de Lisboa), está agendado o juramento da Carta das Nações Unidas. A tomada de posse será a 1 de janeiro. Antes de assumir funções, Guterres voltará a Lisboa, onde, a 23, irá receber o prémio Direitos Humanos atribuído pelo Parlamento.

Ficou ontem a saber-se que o novo chefe da ONU renuncia ao assento no Conselho de Estado, para o qual tinha sido nomeado por Marcelo Rebelo de Sousa. A cadeira deixada vaga será ocupada pelo cientista António Damásio.

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