ISIS recua mas permanece uma ameaça na Síria e Iraque

Tropas fiéis ao regime de Assad vigiam deslocação de comboios de civis à saída de Aleppo. Quase toda a cidade está agora nas mãos das forças de Damasco

Grupo extremista sunita tem sofrido revezes nos dois países, mas continua com capacidade operacional. Reconquistou Palmira e resiste em Mossul. O seu fim não está próximo.

A queda iminente do setor de Aleppo ainda nas mãos da oposição ao regime de Bashar al-Assad e a reconquista de Palmira pelas forças do Estado Islâmico, ou ISIS (da sigla em inglês para a designação do grupo extremista sunita), veio mostrar que a longa guerra civil, iniciada em 2011, é cada vez um conflito entre a organização islamita e as autoridades de Damasco.

Ao mesmo tempo, o grupo, apesar de importantes derrotas no Iraque, continua a resistir em Mossul, onde os combates duram há dois meses, mostra que o ISIS apresenta uma enorme capacidade de resistência. Os islamitas dominam ainda a quase totalidade da malha urbana e uma parte da periferia após uma batalha iniciada a 17 de outubro.

O setor de Aleppo nas mãos da oposição era controlado principalmente pelas milícias das Forças Sírias Democráticas (FSD), coligação moderada, que, por sua vez, combate o ISIS e afirma ter em preparação uma ofensiva sobre Raqqa, a autoproclamada capital do grupo islamita. Se é evidente que o Estado Islâmico perdeu boa parte dos territórios conquistados na Síria e no Iraque, e cidades como Ramadi e Fallujah neste último país e Dabiq no primeiro, continua a resistir em Mossul e reconquistou Palmira, no passado dia 11, além de deter ainda total controlo de Raqqa. Ao mesmo tempo continua a demonstrar capacidade de realizar operações como a reconquista da cidade síria ou sucessivos ataques terroristas.

O valor da reconquista de Palmira para o ISIS resulta de ter recuperado o controlo de uma série de campos de petróleo e gás natural, capturando ainda extensa quantidade de armamento deixado para trás pelas forças fiéis ao regime de Assad. A reconquista de Palmira operou-se sob intensos bombardeamentos da aviação russa e, após esta operação, os islamitas atacaram ainda uma base aérea próxima, que continuariam a cercar ainda ontem. O sucedido nesta cidade evidencia uma das principais fraquezas do regime, que é a de contar com um número limitado de unidades operacionais e de depender do apoio das milícias libanesas, das forças iranianas e da aviação russa. As unidades destes dois países teriam retirado de Palmira, deixando a cidade entregue apenas a sírios. Segundo um analista do Institute for the Study of War (ISW), Chris Kozak, as forças especiais russas, os Spetznaz, estariam também a ser empregues em algumas operações. E o facto de Vladimir Putin afirmar que, após a vitória em Aleppo, a etapa seguinte será a concretização de "um cessar-fogo em todo o território sírio", vem reforçar a tese dos recursos limitados na aliança Damasco-Teerão-Moscovo. As forças empregues nos combates em Aleppo precisam de repouso antes de partirem para a próxima ofensiva.

O professor do Washington Institute Fabrice Balanche, em resposta a perguntas escritas do DN, sustenta isso mesmo. "Os meios humanos e materiais disponíveis após a vitória de Aleppo poderão ser usados para libertarem a estrada Palmira-Deir Ez Zor", cidade cujo controlo é partilhado pelo regime de Damasco e pelo ISIS que cerca ainda a metade sob domínio das forças de Assad. O investigador explicou que Deir Ez Zor, de cem mil habitantes, está a ser reabastecida "por uma ponte aérea cada vez mais precária" por causa dos "sucessivos ataques do Estado Islâmico ao aeroporto". Uma vitória do grupo islamita significaria o "massacre da guarnição como em Palmira e em Tabqa. Mancharia a vitória em Aleppo e poria em causa a capacidade do exército sírio de reconquistar terreno para além das regiões ocidentais", junto à costa. As forças do regime mostram-se "muito frágeis no Centro e Leste" do país, conclui o investigador francês. É evidente que "o regime não tem condições para restabelecer a segurança no país sem o continuado apoio estrangeiro", sintetiza o analista do ISW.

Por seu turno, no Iraque o ISIS voltou às táticas terroristas e se não controla território significativo, o desgaste e aquilo que é descrito como a fraca motivação das forças iraquianas, à exceção das unidades xiitas, deixa margens para novas operações. Ainda recentemente lançou um ataque surpresa sobre a cidade petrolífera de Kirkuk. Só após violentos confrontos com as milícias curdas é que acabou por retirar.

Relacionadas

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Mundo
Pub
Pub