"Importante é Trump ter dito que o Daesh é a prioridade número um"

O enviado presidencial adjunto americano para a coligação global anti-ISIS, o general Terry Wolff, participou em Lisboa numa conferência organizada pela FLAD, pela Embaixada dos Estados Unidos e pelo The Georgetown Club Portugal.
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No final, depois de debater com o antigo comissário europeu António Vitorino, falou ao DN sobre a evolução do combate aos jihadistas no Iraque e na Síria, tanto na era Obama como agora com Trump. Chamou Daesh, o acrónimo árabe, ao grupo.

A luta da coligação internacional contra o Daesh está a ser bem-sucedida?

Muito. A abordagem tem sido diferente da nossa experiência a combater a Al-Qaeda no Iraque. Recorde-se que tivemos uma coligação a combater a Al--Qaeda uma década e todos aprendemos lições. O que tornou esta reação tão poderosa foi que as forças de segurança iraquianas e o governo assumiram a liderança dentro do Iraque. E as Forças Democráticas da Síria (SDF) assumiram a liderança no Nordeste da Síria. Ao assumirem a liderança são eles que tomam as decisões e nós somos um parceiro menor. Isso deu-lhes poder. E a coligação está lá porque é a atitude certa para a comunidade internacional. Ao mesmo tempo temos conseguido criar algumas capacidades para ajudar o governo do Iraque e as SDF. Temos tido sucesso porque tudo se move a uma velocidade e numa direção em que os principais protagonistas - o governo do Iraque e as SDF - podem manter. Não é o ritmo da coligação ou o ritmo dos americanos, é a maneira que os iraquianos e os sírios querem.

Qual a diferença entre apoiar um governo no Iraque e apoiar na Síria um grupo rebelde?

Na Síria o governo garante que está a lutar contra o Daesh mas não o vimos fazer isso de forma consistente. As SDF têm combatido o Daesh. Todas as coisas que lhes pedimos para fazer têm sido numa base negociada. Nós oferecemos apoio se eles fizerem o que acordaram fazer. Tal como as forças de segurança iraquianas, as SDF têm revelado capacidade de adaptação. Têm aprendido com cada combate contra o Daesh. Esse tem sido um dos atributos do sucesso: que todos continuem a adaptar-se. As libertações das cidades iraquianas têm sido todas diferentes.

Está confortável com o futuro da Síria e do Iraque?

A libertação das regiões ainda sob controlo do Daesh vai levar tempo. Mesmo que Mossul e Raqqa sejam libertadas amanhã ainda será preciso continuar o combate. O governo iraquiano tem uma agenda muito agressiva para tentar que o país continue a ser uma federação, que os esforços sejam descentralizados de forma a que os conselhos das províncias, bem como os governadores, tenham uma oportunidade para assumirem mais responsabilidade. Parece-nos ser o que deve ser feito. Após a derrota do Daesh e um período de transição, esse é o único caminho a seguir.

Mesmo sendo possível estar otimista quanto ao Iraque, o que diz da Síria...

Deixe-me só terminar com o Iraque. Dentro de um ano o Iraque vai estar a completar o processo de derrotar o Daesh no vale do Eufrates. Todos se vão estar a preparar para eleições provinciais e nacionais. O Iraque vai ter também de pedir mais ajuda à comunidade internacional. Terá de fazer trabalho de reconstrução. Mas vejo um caminho em frente para o Iraque, que ajudará a solidificar estas vitórias e o que os iraquianos nos dizem é que a luta contra o Daesh é diferente. Não é a luta de antes e eles têm de derrotar o inimigo, levar as pessoas de volta a casa e seguir em frente. O desafio na Síria é que não lhe posso dar a mesma garantia. Há mais fatores. Isso reflete-se não só na forma como a Síria segue em direção à derrota do Daesh, com a ajuda da coligação no Nordeste, mas também no que acontece com alguns dos outros grupos extremistas como a Al-Qaeda e ainda a forma como nos movemos na ONU para obter uma resolução. Há incerteza. É possível que com a delimitação das quatro zonas pelos russos e pelo regime que estas se mantenham. E ofereçam uma série de medidas de consolidação da confiança que tracem um caminho para uma transição.

O objetivo é manter a Síria unida?

Sim.

Os EUA estão satisfeitos com o empenho dos países europeus na coligação?

Sim. Os EUA querem sempre ver mais contributos mas é interessante ver que do lado militar os EUA contribuem com 60% a 70% da força de combate. Mas do lado não militar é exatamente o contrário. Dois terços do apoio não militar vem de todos os outros países.

Há diferenças entre as abordagens de Barack Obama e de Donald Trump?

Cada presidente é diferente. O que o presidente Trump pediu ao secretário Mattis para fazer foi recuar e olhar para a estratégia. Por isso recebemos a tarefa de estabelecer uma estratégia revista, com um prazo curto, de 30 dias. Esse esforço, com o qual o secretário Tillerson concordou, foi depois apresentado ao presidente. Já viram algumas das componentes da estratégia: mais discussão ao nível do governo, mas igualmente importante é o presidente Trump ter dito que o Daesh é a prioridade número um. Quer que pensemos na melhor forma de acelerar a luta. Uma das coisas que mudaram é que o presidente deu mais autoridade aos secretários da Defesa e de Estado para tomarem decisões sobre a aceleração da campanha contra o Daesh.

Após a derrota do Daesh na Síria e no Iraque, é preciso continuar a lutar contra os jihadistas na Europa e no resto do mundo. Qual a estratégia?

O que a Europa faz para se defender contra o regresso dos combatentes estrangeiros e as células terroristas inspiradas pelo Daesh são coisas que têm de ser geridas dia a dia. Não é como se estivéssemos à espera de que Mossul seja libertada para dizer OK, agora chegou a hora de nos preocuparmos com os combatentes estrangeiros. São coisas que acontecem em simultâneo. O que defendemos é a partilha de informações e sobre as operações de segurança, o que cada país decide fazer em relação aos combatentes estrangeiros. É a primeira linha de defesa contra este fenómeno global. Que é separado da luta no Iraque e na Síria.

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