O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, discursa hoje no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, num momento crucial para a ONU e para a União Europeia (UE). Para a sessão solene desta manhã, é o próprio Parlamento Europeu que antecipa que Guterres deve percorrer alguns dos dossiês mais quentes da atualidade, como a guerra na Síria e a fome na Somália, além da crise dos refugiados e as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.."É uma visita muito importante para as Nações Unidas e para a União Europeia", defendeu ao DN o deputado ao Parlamento Europeu do PSD Paulo Rangel. Num momento em que há um "enfraquecimento de empenho dos EUA", para a UE "é muito relevante a sua afirmação internacional". Para Rangel, a ONU e a Europa "só têm a ganhar mutuamente, reforçam-se mutuamente" com o encontro de hoje, naquela que é a primeira visita do secretário-geral da ONU ao Parlamento. "Há um mútuo benefício", insistiu o social-democrata..O socialista Carlos Zorrinho alinhou por uma ideia idêntica: "António Guterres precisa da Europa e a Europa precisa de António Guterres." Para este deputado, "a agenda da ONU e a agenda da UE para a globalização são muito similares", apontando a necessidade de uma regulação dessa globalização..Outro entusiasta desta visita é Nuno Melo, deputado do CDS, que tem "as melhores e maiores expectativas" em relação ao discurso do secretário-geral da ONU. "É um orador muito dotado, que impressionou as Nações Unidas vencendo contra todas as expectativas, por mérito que é próprio." Nuno Melo garantiu ao DN que Guterres "terá na UE e no Parlamento Europeu bons aliados estratégicos e fundamentais", mais até do que "do outro lado do Atlântico ou a leste, sobretudo na Ásia", interpretou o eurodeputado centrista..A bloquista Marisa Matias também não regateou elogios ao português que lidera a ONU desde 1 de janeiro, aguardando que o discurso de hoje "seja em linha com o discurso que assumiu na sua tomada de posse". Apesar dos escolhos que se antecipam: "Já tínhamos noção das dificuldades da tarefa, mas é a pessoa certa para lá estar, apesar do trabalho condicionado por um conjunto de circunstâncias.".Para a eurodeputada do Bloco de Esquerda, a comunidade internacional "não se pode dar ao luxo de mais um enfraquecimento das Nações Unidas". "Não existe outro órgão com esta legitimidade", apontou ao DN. Para insistir que "tem de haver uma força de bloqueio à desvalorização das Nações Unidas"..O deputado europeu do Movimento Partido da Terra (MPT), José Inácio Faria, sublinhou que António Guterres "entrou num momento particularmente difícil", com o progressivo alheamento da administração americana de Donald Trump. "Para as Nações Unidas, à fragilidade política soma-se uma fragilidade financeira", apontou o deputado agora integrado no Partido Popular Europeu (o mesmo do PSD e do CDS). "Guterres vem pedir auxílio, mostrar o projeto dele para as Nações Unidas." Para esse projeto, "ele precisa de ter uma almofada financeira, sem isso nada poderá ser feito". E no Parlamento Europeu poderá recolher apoios, apontou o eurodeputado..A única voz mais dissonante foi a do deputado comunista João Ferreira. Para o eurodeputado, "esta é a primeira visita de um secretário-geral eleito há não muito tempo" e aquilo que espera para hoje é "que a ONU tenha um secretário-geral que seja fiel ao espírito e à letra da Carta das Nações Unidas", que aponta para a não ingerência e a resolução pacífica dos conflitos..João Ferreira insistiu que a UE tem seguido um "caminho de militarização", com rubricas orçamentais a reforçar esses gastos, "à custa dos fundos de coesão", no plano externo em termos militares e no plano interno por motivos securitários. Não tem havido um reforço da ajuda para o desenvolvimento nem para programas humanitários..É uma agenda cheia a que Guterres terá hoje. Além da sessão solene e de alguns momentos protocolares, o secretário-geral da ONU fará uma conferência de imprensa com o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, e terá um almoço com deputados..* EM ESTRASBURGO.O jornalista viajou a convite do Parlamento Europeu