Estão os americanos a ajudar a descoser a UE?

Donald Trump é acusado de tentar dividir os europeus para reinar. Mas há muito que as divisões, dentro da própria União Europeia, são evidentes. Presidente dos Estados Unidos apoia populistas europeus e exige mais dinheiro dos aliados para a NATO
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Em abono da verdade, Donald Trump não é o primeiro governante norte-americano a criticar o projeto de construção europeu e nem tão pouco o primeiro presidente a dividir a UE. Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA, no período entre 1973 e 1977, costumava queixar-se de que não sabia para quem devia telefonar quando queria falar com a Europa. George W. Bush, presidente dos Estados Unidos, no período de 2001 a 2009, dividiu a UE no apoio à sua invasão do Iraque: a França de Jacques Chirac vetou o aval das Nações Unidas à guerra em 2003, enquanto outros houve que alinharam com Bush filho na invasão unilateral. Foi o caso de países como o Reino Unido, Espanha, Itália e, até mesmo, Portugal. Isto só para citar dois exemplos. A diferença poderá estar, desta vez, no assumir de uma política de confronto dirigida à UE e no apoio dado por Trump aos líderes populistas e nacionalistas que, para vencerem eleições decisivas ou simplesmente permanecerem no poder, querem descoser o novelo europeu.

Em França a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, afirmou que "dada a eleição de Donald Trump, as pessoas estão a pedir o fim desta globalização selvagem e anárquica. Estamos a caminhar para um maior patriotismo e preservação da cultura e empregos locais". Na Alemanha , a AfD, de Frauke Petry, prefere concentrar os seus ataques na política para os refugiados da chanceler Angela Merkel e, à custa disso, tem subido nas sondagens. Na Holanda, o xenófobo Geert Wilders prepara-se para ver o seu partido vencer as eleições legislativas de 15 de março. No Reino Unido, Nigel Farage, líder do Ukip e defensor máximo do brexit, sente-se encorajado pela vitória do "Não" à UE no referendo e foi recebido por Trump na Trump Tower ainda há bem pouco tempo.

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Mas entre os líderes eleitos da UE também há fãs de Trump. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que construiu uma vedação contra os refugiados e os migrantes que tentavam chegar à UE pela rota dos Balcãs, considerou que a tomada de posse do multimilionário representou "o fim da era do multilateralismo". A primeira-ministra da Polónia, Beata Szydlo, do partido conservador de Jaroslaw Kaczysnki, criticou, na sexta-feira, durante a cimeira europeia de Malta que o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, tenha colocado Trump na lista de ameaças que a UE enfrenta na carta que enviou antes da reunião aos líderes dos 28. "Os políticos europeus tentam criar este sentimento de medo e é um erro". Tusk também já foi primeiro-ministro da Polónia mas é de um partido liberal. Declarações como as de Beata Szydlo contradizem - e muito - a ideia de unidade face a Trump e face ao brexit que os líderes da UE tentaram fazer passar.

"A vitória de Trump deu um grande impulso aos populistas anti-imigração e anti-União Europeia. França e Alemanha vão ter eleições em 2017 [presidenciais a 23 de abril -7 de maio e legislativas a 24 de setembro]. Após o brexit e a vitória de Trump, não se pode descartar um triunfo dos populistas com as implicações geopolíticas que isso pode vir a ter", escreveu no Euractiv.com Jonas J. Driedger. O investigador do Instituto Universitário Europeu de Florença, em Itália, considera que "a ascensão de Trump não irá dividir apenas a política doméstica na Europa. Também irá gerar conflitos sobre a forma de lidar com os desafios internacionais". E cita o exemplo do Irão. Caso a Administração Trump decida medidas unilaterais face ao regime, diz, a divisão europeia da guerra do Iraque, em 2003, poderá vir a repetir-se.

Depois de ter elogiado o brexit e recebido Theresa May, mostrando que privilegia as relações bilaterais, Trump deverá indicar agora o que pretende fazer em relação à parceria comercial transatlântica (TTIP) e à NATO. "A preferência por alianças com os países em vez da aliança transatlântica está a minar a coesão europeia ainda mais", diz Alexandra de Hoop Scheffer, diretora do gabinete em Paris do German Marshall Fund of the United States. Ainda mais porque é preciso lembrar que outros fatores têm vindo a minar também a coesão europeia: desde a crise da Constituição Europeia-Tratado de Lisboa, à crise das dívidas soberanas e do euro, passando pela dos migrantes e refugiados. "Se a unidade transatlântica for menor com Trump, os Estados da UE têm que se esforçar para gastar 2% do seu PIB em Defesa, como definido na NATO", refere aquela mesma especialista, citada pelo site do think tank Carnegie Europe. Críticos de Trump gostam de lembrar que a única vez que a NATO fez uso do artigo 5.º (um ataque a um é um ataque a todos) foi depois dos ataques do 11 de setembro de 2001 com o apoio dado aos EUA na guerra do Afeganistão.
"A Europa é uma grande potência económica, política e militar. Porém, a falta de vontade política impede que a UE use essas ferramentas de forma coordenada e eficaz. Os políticos, diplomatas, empresários e militares norte-americanos sabem que precisam da Europa pela sua segurança, influência, dinheiro e luta ao Estado Islâmico. Trump parece descurar isso, mas irá aprender da forma mais dura. Basta notar que os investimentos americanos na Europa são maiores que na China. E desestabilizar a Europa irá desestabilizar a economia dos EUA. A Europa precisa dos EUA pelo mesmo motivo. A Europa terá que se adaptar e mudar para investir mais dinheiro em Defesa e mais recursos para a NATO", afirma ao Carnegie Europe Eugeniusz Smolar, do Centre for International Relations, baseado em Varsóvia.

Ontem, segundo a Casa Branca, num telefonema com o primeiro-ministro italiano Paolo Gentiloni, Trump reiterou o compromisso dos EUA com a Aliança Atlântica mas enfatizou a importância de "todos os aliados da NATO participarem nas despesas de Defesa". O presidente norte-americano confirmou ainda que irá ao G7, em maio, na cidade siciliana de Taormina. Num outro telefonema, com o presidente da Ucrânia, Petro Porosehnko, Trump disse querer trabalhar com "a Ucrânia, a Rússia e outros parceiros para restabelecer a paz na fronteira". Apesar do aparente tom moderado, muitos desconfiam da admiração do milionário sobre o presidente russo Vladimir Putin.
"Se Trump cortar com a Europa, isso causará problemas à Alemanha, que terá que participar no esforço de criar um exército europeu. Mas se a Alemanha assumir esse papel, o seu poder poderá causar medo e ressentimento. Uma retirada dos EUA traria à Alemanha um problema", nota Jonas J. Driedger no seu artigo no Euractiv.com. Mesmo assim há quem, na Alemanha, já defenda, sem complexos, que a maior economia da União Europeia assuma esse papel de liderança. "A Alemanha tem que se erguer contra o governo do 45.º presidente dos EUA", escreveu o chefe de redação da revista Spiegel. Klaus Brinkbäumer avisa: "Isso não significa uma escalada, nem o abandono dos nossos contactos com a América. Apenas que a Europa tem de se fortalecer e começar a planear a sua defesa (...) contra o perigoso presidente da América".

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