Dilma Rousseff vai apelar ao coração dos senadores

Discurso da presidente afastada será "autoral". Tem lido textos de Getúlio Vargas. Vai ter claque de Lula e 18 ex-ministros nas galerias
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O dia D, do depoimento de Dilma, chegou. Hoje a presidente afastada, do Partido dos Trabalhadores, vai enfrentar os 81 senadores e o juiz do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, que vem comandando o julgamento final, num momento que promete ficar na história do Brasil. Segundo os mais próximos colaboradores, a petista lerá um discurso emocional - "autoral" - em que mais do que rebater os preciosismos técnicos e jurídicos contidos na peça de acusação vai recordar o seu percurso e o processo de impeachment desde o início.

Dilma ouviu cada minuto do julgamento até agora, das testemunhas de acusação às de defesa, e vem trabalhando 10 a 12 horas por dia na sua intervenção. Responde a questões difíceis, em exercícios de simulação pensados pelo seu advogado José Eduardo Cardozo, acerta argumentos com Jaques Wagner e Ricardo Berzoini, os seus conselheiros políticos, e a partir de ontem ainda terá ouvido palpites de Lula da Silva, o seu antecessor e mentor, que devia viajar de propósito para Brasília para a apoiar. Além dele, quase duas dezenas de membros dos seus dois governos ocuparão as galerias do Senado Federal para equilibrar um cenário que, à partida, será hostil, dada a maioria de votos favoráveis à sua destituição.

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Em simultâneo, Dilma reúne-se com senadores cujos votos são passíveis de ser alterados, nomeadamente com Collor de Mello (PTC), que em 1992 foi derrubado no Senado num processo idêntico, e lê trechos de discursos de Getúlio Vargas, o histórico presidente do Brasil que noutro agosto, o de 1954, se suicidou para não renunciar ao cargo.

O texto que Dilma vem elaborando é por isso dirigido ao coração dos senadores - e aos milhões de brasileiros que acompanharão a sua intervenção em direto. Falará de Eduardo Cunha (PMDB), o também afastado presidente da Câmara dos Deputados, enfatizando que o processo teve origem numa vingança pessoal dele, e recordará a sua história de vida, marcada "pela honestidade". Até ao início do fim de semana, Dilma e os seus colaboradores ainda hesitavam sobre o uso da palavra "golpe", considerada potencialmente ofensiva para os senadores.

Segundo os três principais jornais brasileiros, a derrota de Dilma é praticamente uma inevitabilidade. O Globo contabiliza 53 votos a favor do impeachment, 18 contra e 10 senadores sem se manifestarem. Nas contas de O Estado de S. Paulo são 53 a favor, 19 contra e apenas nove indecisos e nas do Folha de S. Paulo o placard é de 51-18-12. Para Dilma ser destituída e Michel Temer, do Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), ser confirmado na presidência são necessários 54 votos, o equivalente a dois terços dos senadores.

Troca de insultos

Nos primeiros dias da etapa final do julgamento, as trocas de insultos entre senadores têm-se destacado. De "assaltante" a "drogado", passando por "desqualificado" e "esclavagista", por "hospício" e "baixaria", já se ouviu de tudo. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), chegou mesmo a intervir e a empurrar um senador petista, facto que motivou um jantar de reaproximação e reconciliação entre o peemedebista e a bancada petista.

À partida, tanto hoje como amanhã, quando começa a votação final, terão um "armistício", dizem parlamentares dos dois campos.

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