Alemanha está cansada de Merkel? A ver pelas sondagens, sim

Com Martin Schulz à frente, sociais-democratas do SPD surgem um ponto à frente da CDU da chanceler num inquérito divulgado pelo Bild. Após eleições de 24 de setembro, Alemanha pode passar a ter uma coligação de esquerda.
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"Ist Deutschland Merkel-müde?" Que é como quem diz: "Está a Alemanha cansada de Merkel?" Esta era a pergunta que ontem o tabloide Bild fazia, um dia depois de ter publicado a primeira sondagem que coloca os sociais-democratas do SPD à frente dos conservadores da CDU na corrida às eleições de 24 de setembro. Sem vencer umas eleições desde 2002, os parceiros de coligação da chanceler ganharam nova vida com a escolha de Martin Schulz, o ex-presidente do Parlamento Europeu, como líder e também candidato do partido.

"Uma corrida renhida entre SPD e a União [como os alemães se referem aos democratas-cristãos da CDU e aos seus congéneres bávaros da CSU] é sem dúvida boa para a democracia alemã", escreve o Bild em editorial. Mas, sublinha ainda, pode tornar difícil a repetição da atual coligação de governo. Sem qualquer papel nos últimos governos alemães, Schulz - que entrou para o Parlamento Europeu em 1994, depois de uma passagem pela presidência da Câmara de Würselen, na Renânia do Norte-Vestefália - tem menos constrangimentos no momento de criticar a CDU e Merkel do que o anterior líder do SPD. Afinal Sigmar Gabriel é vice-chanceler desde 2013 e assumiu em finais de janeiro a pasta dos Negócios Estrangeiros, após ter sido ministro da Economia e do Ambiente sempre sob a batuta de Merkel.

Na segunda-feira, a chanceler recebeu o apoio da CSU, depois de o líder da irmã bávara da CDU, Horst Seehofer, ter sido um dos maiores críticos da sua política migratória. Em 2015, a Alemanha recebeu mais de um milhão de migrantes graças à política de braços abertos do governo de Berlim, em contraste com as posições de outros países da União Europeia, que optaram por construir muros para travar os refugiados que tentam desesperadamente chegar à Europa, muitos deles sírios que fogem da guerra. Considerando Merkel uma "excelente chanceler", o líder da União Social Cristã explicou que, apesar "das opiniões divergentes em relação ao limite à imigração", o partido está "totalmente envolvido, queremos ganhar as eleições!", exclamou em Munique.

Aos 61 anos (Merkel tem 62), Schulz lançou a candidatura com um discurso de mudança, prometendo superar as "profundas divisões" que têm alimentado nos últimos anos o populismo na Alemanha. Pouco conhecido de muitos alemães, o antigo livreiro conseguiu rapidamente conquistar a simpatia dos eleitores. E depois de uma primeira sondagem, no final da semana passada, mostrar que 50% dos alemães querem que Schulz seja o próximo chanceler - contra apenas 34% que preferem Merkel -, na segunda-feira o estudo da INSA para o Bild colocava pela primeira vez em muitos anos o SPD à frente da CDU, com 31% das intenções de voto, contra 30% para o partido de Merkel.

"O político europeu, que tentava sempre impor-se nas fotos ao lado dos chefes de Estado e de governo, tornou-se do dia para a noite um animal de palco da política alemã", surpreendia-se há dias, em editorial, o diário de centro-direita Tagesspiegel. Sublinhando que a retórica do novo líder do SPD pouco difere da do antecessor, o mesmo jornal atribui a popularidade de Schulz ao facto de, por ter passado os últimos anos afastado do seu país, não ter sido contagiado pela ideia que se impôs na Alemanha de que Merkel era imbatível. A própria chanceler, no poder desde 2005 e que tenta chegar a um quarto mandato, admitiu que esta será a campanha mais difícil da sua vida.

Numas eleições que ameaçam ser marcadas pela subida do partido de extrema-direita AfD - terceiro nas sondagens -, uma vitória do SPD pode antes ver a Alemanha ser governada por uma coligação de esquerda, que juntaria ainda os Verdes e o Die Linke.

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