"A única coisa que exigi ao George Lucas foi um mês de férias para ir aos Açores"

A partir de São Francisco, Ângelo Garcia gere um património muito especial. Dos primeiros passos em Silicon Valley ao encontro com George Lucas, a história de uma vida cheia

Ângelo Garcia tem, muito provavelmente, um dos melhores trabalhos do mundo. Duvida? Pergunte a qualquer fã das sagas Guerra das Estrelas ou Indiana Jones. Este português, natural do Pico, está nos Estados Unidos há mais de 45 anos e é, desde 2004, o braço direito de George Lucas nos negócios em que o ex-realizador e produtor está envolvido. É presidente da Lucas Real Estate Holdings, mas toca em muito mais áreas, num universo de 23 empresas.

Combinámos encontro no Skywalker Ranch (ver texto nas páginas seguintes), poucas milhas a norte de São Francisco, para lá da Ponte Golden Gate. A paisagem dificilmente poderia ser melhor. Algumas sequoias pelo caminho, colinas verdejantes, segurança apertada à entrada. Aqui não entra sem convite. Não é permitida a entrada ao público - que o digam Sheldon e Leonard, personagens de The Big Bang Theory, que passaram boa parte de um episódio detidos por terem tentado entrar à força no rancho.

Mas como é que Ângelo Garcia chega ao topo do mundo? É uma história que começa no início dos anos 1970. Os pais partiram do Pico para os EUA - Monterey, Califórnia - em 1968 e Ângelo ficou a acabar o liceu. Esse pequeno passo académico, nada óbvio na altura no arquipélago, já o tinha forçado à travessia entre Pico e Horta, a mudar de vida. Foi no Faial que terminou o antigo 5.º ano, no Liceu Nacional da Horta. Tinha 15 anos e uma paixão pela Marinha que levou o pai a insistir que devia juntar-se à família em Monterey. A escolha era entre atravessar o oceano e ir para a guerra. Aterrou na Califórnia no inverno de 1971 - George Lucas tinha acabado de fundar a Lucasfilm - com um inglês rudimentar: "Falava o que se falava lá, no 5.º ano de inglês, que era zero." É no highschool em Monterey que tem a primeira lição de Califórnia, um estado cosmopolita e aberto à diferença, pelo menos nas cidades costeiras como aquela. E agradece ao pai um pormenor decisivo. "Teve a visão de me pôr numa escola em que não havia portugueses. Tive de lutar desde o primeiro o dia, falar com as pessoas mas não na minha língua." Passou um ano a tirar a equivalência entre os dois sistemas de ensino. Um ano "muito complicado". O que o safava era o soccer, que já começa a jogar-se nos EUA, e o francês mais ou menos escorreito. "O futebol e o francês é que faziam que pudesse viver na escola." Diz que ainda hoje não domina particularmente o inglês - o que não é bem verdade. Fala com funcionários do Skywalker Ranch à minha frente, recebe telefonemas e a conversa sai fluida, tranquila, sem hesitações ou erros.

Passados os dias de adaptação à nova vida, ao país e a uma realidade a anos-luz do Pico e da Horta dos anos 1970, acaba o highschool e passa para a San José State University, onde faz Engenharia Civil. Terminado o curso, começa a trabalhar numa empresa alemã (Hoechst, AG), passa pela Intel e entra numa empresa sueca (Euroc, AB), sempre na mesma área - construção e desenvolvimento de projetos. Pelo caminho, volta aos estudos e completa o MBA na Suécia. Na empresa sueca onde esteve seis anos foi responsável por fazer a ponte entre projetos em diversos estados norte-americanos. É depois dessa fase que aterra em Silicon Valley, num tempo decisivo. "Tinha sempre aquela ideia de regressar aos Estados Unidos. Já tinha muita experiência em trabalhar internacionalmente e uma pequena empresa (naquele tempo, era pequena) estava à procura de alguém que os ajudasse e expandir-se no mercado internacional. Essa empresa era a Oracle. Então, vim para a Oracle."

Em 1987, Silicon Valley era um sítio muito especial para se estar e trabalhar. Era onde tudo estava a acontecer, a nascer. "Eu fui o empregado número 410 da Oracle. Levei a Oracle para o Japão, Inglaterra, Dinamarca, Brasil, estive lá. Mas em 1991 a Oracle passou uma fase muito difícil - nós, executivos, pensávamos que ia acabar. Então tive um convite de um colega para ir trabalhar para outra empresa e fazer exatamente o mesmo - a Adobe." Ângelo Garcia esteve, portanto, no arranque de dois gigantes da tecnologia em Silicon Valley, duas "pequenas empresas". "Na Oracle, cheguei e tínhamos 500 pessoas, saí com sete mil. Na Adobe, havia 300 e tal e quando saí quase oito mil." Um tempo de absoluta loucura e novos caminhos. "Loucuras, porque éramos jovens - vim para a Oracle com 28 anos - e tínhamos uma coisa muito engraçada, pensávamos que tudo era possível. Tudo era possível!"

É por essa altura que sente uma primeira reação menos boa ao seu passado académico. Ângelo não trazia no currículo nenhum dos nomes de referência nem vestígio de Ivy League. "Lembro-me bem de um dos vice-presidentes da Oracle olhar para mim e dizer: "Eh pá! Tu estiveste numa universidade cá que é razoável mas não é boa. Estás a trabalhar com as pessoas mais inteligentes dos Estados Unidos, que vieram de Harvard e de Stanford e do MIT. Como é que te sentes?" E eu disse: "Ainda não vi ninguém mais inteligente do que eu!" Disse aquilo a brincar, não é? Mas o que era importante era poder pensar que tudo é possível." Com trinta e poucos anos na altura, mais de 15 fora das ilhas, já se sentia em casa na Califórnia e não tinha trazido dos Açores nada que lhe limitasse os sonhos. "Nunca achei que tivesse uma inferioridade em comparação com pessoas de cá ou de outro país. Nunca! Em toda a vida nunca tive esse pensamento de que vim dos Açores, do Pico, uma ilha com 15 mil pessoas, fui para um liceu de 200 pessoas e cheguei a uma universidade de 36 mil. Nem pensei que estava num lugar deserto que não era o meu."

Será a Califórnia o palco privilegiado para tentar o sonho americano? Ângelo diz que sim, que é um recanto especial dos EUA. "Era o golden state, a terra do ouro. Houve sempre emigração para a Califórnia, aquela ideia de se tornarem muito maiores. E vemos, mesmo nos portugueses que vieram para aqui... há uma pequena diferença entre o português que emigrou para a Califórnia e o que foi, por exemplo, para a Costa Leste. O que emigrou para a Costa Leste tem sempre ideia de voltar a Portugal - continental, Açores ou Madeira. O que veio para a Califórnia, por várias razões - uma é o clima, que é o português -, sente-se mais em casa. E há outra coisa: está muito longe, a distância fez que fizessem a sua vida e se radicassem muito bem na Califórnia. E isso também ajudou." E não é um sonho esgotado. Esta faixa, sobretudo a zona sul da baía de São Francisco, continua a atrair portugueses, muitos com histórias de sucesso. Conta que tem amigos, "que vieram de Portugal e têm tido uma carreira belíssima em Silicon Valley". E apesar de o ambiente no vale já não ser o dos anos 1980, "um jovem - uma pessoa de 20, 30 anos - que venha para Silicon Valley hoje ainda pensa que tudo é possível".

Ângelo Garcia não perdeu o contacto com as ilhas. Tem casa no Pico, e é por lá que passa boa parte das férias. Foi de resto por aí que a conversa foi ter a George Lucas. Conta que quando assinou contrato com a Lucasfilm, em 2004, essa foi uma das únicas exigências que fez - gozar as férias todas de uma vez. É um conceito estranho, muito estranho nos Estados Unidos. "A primeira coisa que eu disse foi que queria ter um mês de férias. "Quero as férias todas naquele mês, porque quero ir a casa", disse. Ele olhou para mim e respondeu: "Queres ir a casa!?" E eu: "É, quero." E tenho ido. Há 18, 19 anos, vou todos os anos aos Açores."

A entrada para o universo das empresas de Lucas aconteceu "por azar ou por sorte, conforme a gente vê se o copo está meio cheio ou meio vazio [risos]." Quando saiu da Adobe, "no tempo do dotcom, havia um certo tipo de executivo, muito procurado por outras empresas - e eu, por acaso, era desses. Fui trabalhar para uma dotcom que não arrancou. E estava a pensar ir embora, para trás, para uma empresa grande de tecnologia. Mas, como já tinha feito muito trabalho a juntar tecnologia com outras empresas, uma pessoa (colega meu daquele tempo) disse-me: "Olha, o George Lucas anda à procura de uma pessoa e penso que tu podias ser essa pessoa para o que ele quer fazer." O que é que ele queria fazer? Já naquele tempo, ele estava com o pensamento de vender a LucasFilm. E então o que queria era dividir as empresas - porque nós temos, presentemente, só 23 mas tínhamos mais -, [através] de um processo em que só vendia, da Lucas Film, a parte intelectual - não vendia nada senão a parte intelectual. Mas precisava de uma pessoa para o vir ajudar nisso. E eu vim."

O primeiro contacto "foi muito importante porque foi uma entrevista em que conversámos [acerca] do que ele queria fazer, das coisas que gostava de fazer mas não podia porque não tinha quem lho fizesse - porque a mentalidade, às vezes, da pessoa que era "tecnologista", a pessoa que tem aquela tecnologia e que está pensando só naquilo, só pensa numa certa coisa. Por exemplo, viu hoje as vinhas, o gado, há o resort em Itália, o que temos na França - são tudo coisas que ele queria fazer, mas não tinha quem o ajudasse." No fundo, Ângelo foi fazer a ponte entre os dois mundos, chegou com respostas simples para problemas complexos. "Fui a pessoa que disse: "Ah, isso faz-se muito bem!" Na primeira vez que vim cá, ele disse-me: "Olha, eu queria construir uma empresa em Singapura, com edifício e tudo, mas a presidente da LucasFilm diz que a empresa tudo bem, mas não se pode pôr o edifício. E eu gostava de ter o edifício em Singapura." E eu respondi: "Isso arranja-se, não há problema." Era essa a mentalidade, que tudo se consegue, e não aquela de só se concentrar no problema." E como é trabalhar para George Lucas? A resposta surge rápida. "Eu adoro. Temos uma grande amizade. Reconheço o valor que ele tem, o que traz, e penso que ele reconhece bem o valor que eu trago à empresa. No trabalho temos uma relação mesmo excecional."

Ângelo Garcia entrou para a Lucasfilm em 2004 e quando George vendeu a parte intelectual da empresa à Disney - a chave do negócio foram os direitos sobre a saga Guerra das Estrelas, que já deram bons lucros à Disney -, um negócio de 3,8 mil milhões de euros, ficou como presidente da Lucas Real Estate Holdings e vice-presidente da Skywalker Properties. Liderou a construção do tal edifício, o Sandcrawler, toma conta dos negócios de hotelaria de topo e produção de vinho em Itália, França e Califórnia - tudo marca Skywalker -, e é responsável pelo mais recente projeto do antigo realizador, o Museu de Arte Narrativa Lucas, que há de nascer em Los Angeles e custar perto de 800 milhões.

Que resultado pode esperar-se do casamento de tamanha liquidez - George Lucas vale, pelas contas da Forbes, perto de cinco mil milhões - com a mentalidade de alguém habituado a fazer negócios em Hollywood? Ângelo confessa que, por vezes, pode dar problemas e dá algum trabalho servir de travão à criatividade e à impulsividade. "No mundo empresarial temos de ter muito mais cautela, sangue-frio. As decisões são mais pensadas, analisadas e reanalisadas." É nessa relação que mora o segredo do sucesso do grupo. "O George pode vir dizer: "Olha, gostava de fazer isto." Mas já está habituado a olhar para mim e perguntar: "Mas podemos?" E depois é que vamos analisar e muitas vezes eu digo que sim, mas noutras tenho de dizer "Não. Desculpa, não podemos." E ele respeita." Pergunto se toda esta viagem compensou. "Para mim compensou, adoro o que faço. Já disse a muitos colegas que uma das melhores coisas que tenho é que quando chego de manhã ao trabalho não sei o que vou fazer nesse dia. Se vou para construção, para adega e vinhos... Há muitas coisas que temos de decidir e todos os dias há um bocadinho de tudo. Não há um dia típico."

Há mais de 45 anos nos EUA, Ângelo Garcia nunca deixou de se sentir português. "Faço vida 100% aqui. Sou casado com uma americana. Não tenho filhos e já não vai dar para isso [risos]. Mas sinto-me sempre com aquele bichinho de ser português. Tenho uma grande honra de o ser e talvez, como outros na mesma posição que eu, leve o nome de Portugal a muito lugar do mundo onde nem sequer sabem onde é que Portugal está."

PERFIL

Ângelo Garcia

Nasceu há 61 anos na freguesia de São Mateus, na ilha do Pico, Açores. Completou o 5.º ano no Liceu Nacional da Horta e partiu para Monterey, na Califórnia, para junto dos pais, em 1971. Licenciado em Engenharia Civil na Universidade de São José, passou os primeiros nove anos de trabalho entre duas empresas de construção, na Alemanha e na Suécia. Depois de completar um MBA na Suécia, em 1987 dá os primeiros passos em Silicon Valley, na Oracle, que ajuda a expandir pelo mundo e onde fica quatro anos. Entra depois na Adobe, onde fica quase oito anos, à frente a divisão de Serviços e Imobiliário. Entra na Lucasfilm em 2004 e depois da venda à Disney torna-se presidente da Lucas Real Estate Holdings e vice-presidente da Skywalker Properties.

Em São Francisco

Esta reportagem foi feita no âmbito de uma parceria DN-FLAD

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