A terceira volta das presidenciais joga-se nas legislativas de junho

É uma incógnita o que poderá valer o partido de Macron nas eleições parlamentares. Círculos uninominais não favorecem Frente Nacional
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Para Emmanuel Macron, a primeira volta já está. A segunda, tendo em conta que as sondagens lhe dão mais de 20 pontos de vantagem sobre Marine Le Pen, está quase. Fica a faltar a terceira, que é como quem diz as legislativas, marcadas para 11 e 18 de junho. Para que uma eventual vitória nas presidenciais seja completa e se traduza em poderes efetivos, o líder do movimento En Marche! precisará de um primeiro-ministro da sua confiança e de um parlamento que esteja com ele.

Nas legislativas, qual será a capacidade eleitoral do partido de Macron? Depois da derrota histórica de domingo, que papel e que peso virá a ter o Partido Socialista no jogo das geringonças políticas em França? François Fillon foi derrotado e disse ontem que não tem legitimidade para liderar o combate para as legislativas, mas qual é a força d"Os Republicanos? Até que ponto a Frente Nacional de Le Pen conseguirá somar aos atuais dois deputados? O futuro da política francesa passa em grande parte pelas respostas a estas perguntas. "É simpático ser eleito presidente francês, mas não serve de muito sem uma maioria no parlamento", explica o jornalista francês Pierre Briançon no Politico.

As sondagens acertaram em cheio na primeira volta das presidenciais. Há muito que avançavam um resultado muito próximo daquele que veio a verificar-se, com Macron e Le Pen a conseguirem o bilhete para a segunda volta. Se continuarem a estar certas, o líder do En Marche! será entronizado presidente francês na noite eleitoral de 7 de maio. Nos quatro barómetros divulgados ontem (Ifop-Fiducial, OpinionWay, Ipsos e Harris), Macron consegue valores entre os 60% e os 64% - contra 36% a 40% de Le Pen. Para a próxima ronda, o candidato independente leva também com ele o apoio de François Hollande. "A presença da extrema-direita na segunda volta é um risco para o país. O que está em causa é a unidade de França e o seu lugar na Europa e no mundo", sublinhou o presidente. Esta recomendação do atual chefe de Estado junta-se às que Macron tinha já recebido do republicano François Fillon e do socialista Benoît Hamon, seus adversários na primeira volta. Entre os apoios de Macron conta-se ainda aquele que vem da Comissão Europeia, que desta vez decidiu tomar posição numas eleições nacionais.

Le Pen e as legislativas

Nas legislativas francesas, o sistema de círculos uninominais com recurso a duas voltas favorece os maiores partidos. Em cada uma das 577 circunscrições eleitorais, passam à segunda volta todos os candidatos que tenham o voto de pelo menos 12,5% dos eleitores inscritos. Nessa derradeira ronda é eleito aquele que for o mais votado, mesmo que não tenha a maioria. Na Quinta República, que vigora desde 1958, foi sempre assim, com excessão de 1986, quando o então presidente François Mitterrand instituiu um sistema proporcional. O chefe de Estado socialista foi acusado de oportunismo e cinismo político, por tentar beneficiar a Frente Nacional e dessa forma enfraquecer a direita tradicional republicana. O efeito fez-se sentir. Jean-Marie Le Pen conseguiu eleger 35 deputados e pela primeira vez a força política por ele fundada entrou no parlamento. Nas eleições seguintes, em 1988, o sistema voltou aos círculos uninominais e a FN caiu a pique, conquistando apenas um lugar. O melhor que conseguiu desde então foram dois deputados, em 2012.

E agora? O que irá acontecer em junho? O crescimento do partido nas presidenciais - que pela primeira vez ultrapassou o patamar dos 20% - traduzir-se-á em mais deputados? É natural que possa conquistar mais alguns lugares. Afinal, o partido está a crescer e a ganhar implantação popular, mas dificilmente a FN passará a ter um grupo parlamentar com peso significativo. A tendência será para continuar a acontecer nas várias circunscrições eleitorais espalhadas pelo país aquilo que se passa nas presidenciais - uma união de esforços, com as esquerdas e as direitas a darem as mãos, para travar o extremismo e o radicalismo de Le Pen. "Para ela o risco agora é repetir o que se passou nas legislativas de 2002, quando a Frente Nacional obteve 11,3% e nenhum deputado", escreve o sociólogo Sylvain Crépon nas páginas do Libération.

A outra grande incógnita das legislativas de junho é o movimento En Marche! - que só existe desde o ano passado e que nunca concorreu a eleições. Até que ponto será possível encontrar candidatos para as 577 circunscrições eleitorais que consigam encarnar a onda vitoriosa de Macron? Até agora só foram anunciados 14 nomes e o partido está em fase de recrutamento. Os interessados a concorrer a um lugar de deputado pelo En Marche! podem enviar uma candidatura online e serão depois avaliados por uma comissão. Neste momento, já foram depositados mais de 14 mil currículos. "Não faz sentido pensar que um imbecil qualquer com um boné do Macron será eleito facilmente. No PS já começámos a medir forças com o En Marche!. Se os macronistas quiserem uma maioria terão que negociar connosco", sublinha ao Le Figaro uma fonte socialista.

Caso a maioria parlamentar não se vista da mesma cor que o presidente eleito, será, de acordo com o léxico político francês, o quarto exemplo de coabitação. A primeira vez aconteceu entre 1986 e 1988, quando Mitterrand (presidente) teve que conviver com Chirac (primeiro-ministro). A segunda entre 1993 e 1995, com Mitterrand e Balladur. E a terceira entre 1997 e 2002, com Jacques Chirac e Lionel Jospin. Nesses casos os poderes do presidente ficam muito reduzidos. "Fará inaugurações e comemorações, que são coisas que faz muito bem. Terá que submeter-se ou demitir-se", respondeu Le Pen em 2014, quando lhe perguntaram como seria a relação com Hollande caso a FN conseguisse, por absurdo, maioria parlamentar. No sistema francês é o presidente que nomeia o primeiro-ministro e este - que precisa de ser confirmado pelo parlamento - é quem escolhe os ministros.

Mesmo que derrote Le Pen na segunda volta, Macron vai precisar de um parlamento que esteja com ele para conseguir ser um presidente que mande. A terceira volta das presidenciais joga-se nas legislativas.

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