Portugal está na moda para os turistas. Só este ano vão abrir mais 29 hotéis, a esmagadora maioria de quatro e cinco estrelas, para responder ao número recorde de dormidas. Quase metade deles em Lisboa. Mas, apesar da euforia, há já uma retração no investimento - no ano passado tinham sido inauguradas 46 unidades hoteleiras, de acordo com os dados da Associação da Hotelaria de Portugal. Alguma saturação do mercado e os preços elevados dos terrenos explicam porquê.."Estamos a começar a chegar a um ponto em que arriscamos ter excesso de oferta", avisa Miguel Júdice, presidente executivo da Thema Hotels. "A oferta cresceu 10% em 2015 em unidades hoteleiras, mas há muitas outras plataformas [Airbnb, por exemplo]. Competimos todos pelos mesmos turistas.".Só na cidade de Lisboa vão abrir 13 novos hotéis. O ritmo mantém--se no próximo ano: mas com quase o dobro dos quartos (1214) face a 2015 (654), segundo os dados da consultora Worx. .A capital concentra, na realidade, grande parte das unidades a inaugurar em 2016. O Norte surge a seguir, com seis novos hotéis, embora apenas só um deles na cidade do Porto. A Invicta assistiu a sete aberturas no ano passado. A região centro também vai sentir uma forte redução: em vez de oito, só vão ser estreados três hotéis em 2016.."Há um efeito de correção do mercado, que não é capaz de absorver todos os hotéis construídos. Há alguns investidores que começam a questionar se não há hotéis a mais", considera José Roquette.."O custo de investimento aumentou, apesar das melhores condições de financiamento", explica o responsável de desenvolvimento do Grupo Pestana. Em Lisboa, os preços médios por metro quadrado aumentaram entre 18% e 30% entre 2014 e 2015. .Baixa, Chiado, avenida da Liberdade e Bairro Alto foram os locais com maiores subidas, com os preços médios a chegarem aos quatro mil euros por metro quadrado, segundo os dados do Confidencial Imobiliário. É nestas zonas, curiosamente, que vão abrir mais hotéis este ano.. O Pestana/CR7, do grupo Pestana, é um desses exemplos. Os primeiros hóspedes deverão chegar no terceiro trimestre para ocupar os 80 quartos desta unidade entre a Rua do Comércio e a Rua da Prata (ver fotolegenda)..E não só de novos hotéis viveu o mercado. O ano de 2015 ficou marcado por um investimento de 250 milhões de euros na transação de 16 hotéis, segundo os dados da Worx. A venda de cinco das 16 unidades do grupo Tivoli aos tailandeses do Minor Hotel Group foi o principal destaque. .Cristina Siza Vieira, presidente da AHP, reconhece que a "capacidade instalada está já acima da procura. O abrandamento da oferta é, por isso, perfeitamente natural. Houve felizmente uma otimização da oferta instalada", garante. .Apesar do número de dormidas e de receitas recorde da hotelaria, na realidade os principais indicadores continuam abaixo dos níveis pré-crise. A taxa de ocupação foi de 65% em 2015, um valor ligeiramente abaixo dos 67% registados em 2007. A diferença foi ainda mais acentuada na receita média por turista - caiu de 111 euros para apenas 105 euros no ano passado..Cristina Siza Vieira defende que, para continuarem a crescer, os hotéis "devem apostar fortemente no serviço. Temos um parque hoteleiro fantástico. Sempre vivemos com concorrência e as novas maneiras de alojamento são uma forma de diversificação" que permitem ganhar mais negócio..Miguel Júdice acrescenta que o setor "tem de apostar no segmento empresarial, congressos, eventos. Sobretudo na época baixa, que pode ficar ainda mais baixa com o aparecimento de novos hotéis"..O Hoti Aeroporto, com 180 quartos, é o maior hotel que vai abrir este ano em Lisboa. Para 2017, entre muitos outros, está já marcada a transformação do edifício Braz&Braz num hotel de quatro estrelas, com 120 quartos; ou do Convento Santa Joana, uma unidade de cinco estrelas que vai ter 150 quartos na Rua de Santa Marta.