A obra-prima do 'sampaolismo' já ameaça o domínio de Barça e Real

Argentino, com influências de Bielsa e Guardiola, comanda a melhor campanha da história do Sevilha: 1.º lugar só está a um ponto
Publicado a
Atualizado a

Depois do Cholismo, outro neologismo de uma filosofia de treino inovadora, bem-sucedida e de paternidade sul-americana começa a deixar marcas no futebol espanhol. O Sevilha, obra-prima do Sampaolismo - do técnico argentino Jorge Sampaoli, já ameaça a hegemonia de Barcelona e Real Madrid.

Desde a ascensão do Atlético de Madrid, de Diego el Cholo Simeone, que não se via algo assim. O Cholismo (2011-...), que teve como pináculo a conquista da liga espanhola de 2013/14 e duas presenças na final da Liga dos Campeões, parece agora ultrapassado com a inesperada ascensão de Sevilha, por obra e graça de Jorge Sampaoli. O clube andaluz, que no domingo pôs fim à epopeia de 284 dias (40 jogos) sem perder do Real Madrid, está no 2.º lugar da liga espanhola, a um ponto da equipa de Ronaldo, Pepe e Coentrão (que tem menos um jogo).

Em Espanha diz-se - e os números comprovam-no -, que Sampaoli, argentino de 56 anos, ergueu o melhor Sevilha da história. Os sevillistas nunca tinham chegado à 18.ª jornada com tantos pontos (39) - nem há dez anos, quando foram fugazes líderes do campeonato e acabaram em 3.º lugar. Então, com Juande Ramos ao leme, viviam a primeira fase da ascensão continental que já lhes rendeu cinco conquistas da Liga Europa (2006, 2007, 2014, 2015 e 2016). Mas nunca como agora pareceram capazes de se intrometer entre os dominadores hegemónicos do futebol espanhol e europeu (também se apuraram para os oitavos-de-final da Champions, onde vão enfrentar o Leicester).

"Temos de continuar assim, com ilusão, sabendo que cada partida será muito difícil, mas com o estímulo de continuar a crescer e a melhorar. Tudo depende de nós", disse Sampaoli, no domingo, após a vitória sobre o Real Madrid (2-1) - sem apontar diretamente ao título (que o clube só conquistou em 1945/46) mas confiante de que o melhor ainda está para vir.

Com uma campanha assim, capaz ameaçar Real e Barcelona (3.º, a um ponto dos andaluzes) e de ofuscar o Atlético de Madrid (4.º, a cinco pontos), todos tentam descobrir os segredos da filosofia de Jorge Sampaoli, técnico que subiu a pulso desde os escalões inferiores do futebol argentino, andou por Peru, Chile e Equador e se lançou para a ribalta ao serviço da seleção chilena (que afastou a Espanha do Mundial 2014 e venceu a Copa América 2015). Mas nem assim é fácil travá-lo.

Metódico e obcecado pela posse de bola (com uma constante pressão alta para tentar recuperá-la), Sampaoli não deixa de dar liberdade aos jogadores em campo - ao mesmo tempo que cultiva uma relação amigável com eles, fora dos relvados. "Explicou-nos que assim que percamos a bola devemos persegui-la até voltar a conquistá-lo. Convenceu-nos disso e todos lutaremos até à morte pelas suas ideias", descreve Wissam Ben Yedder.

O avançado francês, que passou de segunda linha a primeira escolha do argentino, é uma das provas de como Sampaoli nunca se acomoda, seja quanto aos jogadores ou quanto ao sistema de jogo preferido - de três centrais a uma linha de quatro na defesa, de um trinco solitário a três centrocampistas, de uma dupla de avançados a um falso 9, já experimentou de tudo, mudando, várias vezes, ao longo do jogo, como numa partida de xadrez. "Ele não se fixa nos rivais nem decide em função deles. Tem uma ideia de jogo que se expressa em vários sistema", nota o capitão Vicente Iborra, outro dos atletas que ganharam influência ao longo da temporada.

Tudo isso é o resultado de várias influências. "No início adorava o Bielsa, que tem uma postura atacante com que sempre me identifiquei. Depois aproveitei coisas do Guardiola. Gosto de misturar teorias e não sou dogmático. Quando há dez religiões e só temos uma, perdemos algo das outras nove...", aponta Sampaoli, que se dedicou ao treino após uma dupla-fratura na perna lhe acabar com a carreira de futebolista, aos 19 anos.

Agora, cerca de um quarto de século depois do início do percurso de Sampaoli nas divisões secundárias argentinas (onde ganhou fama ao ser fotografado a dar instruções aos jogadores em cima de uma árvore, por entrar proibido de ir para o banco), o Sampaolismo parece estar no ponto. E em Sevilha começam a acreditar que o sucesso também pode acontecer fora das provas de eliminatórias. "Vamos encontrar um monte de armadilhas mas sabemos que há forma de superar rivais tão difíceis", conclui o obreiro de uma das maiores surpresas do futebol europeu em 2016/17.

Diário de Notícias
www.dn.pt