"O nosso cigano é melhor que o deles"

Numa seleção que é o reflexo da sociedade, a comunidade de Quaresma viu o jogo em família enquanto muitos amigos de Renato partilharam as emoções.
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Quaresma é o jogador que orgulha a etnia, "todo o Portugal", retifica António Nunes, dirigente da comunidade cigana. "Claro que nos orgulhamos e só lamentamos ter entrado devido à lesão do Ronaldo, mas quando está em forma é um jogador que dá muita vida ao campo." Entrou aos 26 minutos quando os ciganos já lamentavam que não jogasse desde o início. No final, e depois de "muito sofrimento", não poupou elogios a toda a seleção. Num jogo que viu em casa com a família e também atento ao atleta francês cigano, Gignac, que entrou na segunda parte. Para concluir: "O nosso cigano é muito melhor que o deles. O jogador francês é atlético, mas o Quaresma tem melhor visão do jogo."

"Nosso." Gostava que todos os portugueses se referissem a Quaresma com o pronome possessivo. "É português como todos os que nascemos em Portugal, mas há quem se esqueça disso. Também pensam que não nos preocupamos com a seleção. E sabe porquê? Porque muitos de nós já viveram no estrangeiro, por causa do negócio, e sentimos ainda mais estes momentos. Temos amor pela nossa pátria."

António Nunes, 66 anos, foi feirante, viveu 20 anos no Brasil. Hoje é mediador e preside à Associação Cristã de Apoio à Juventude Cigana e à Federação Caim Portugal. Acredita que Quaresma possa ser um exemplo para os jovens ciganos, mas também para melhorar a imagem que têm na sociedade. "Agora melhorou um pouco, mas depois, quando esta euforia acabar, já não se lembram do Quaresma. São os ciganos em quem não confiam."

Alta de Lisboa com Renato

Renato Sanches entrou de início mas foi substituído no final da segunda parte. "Já tirou a fita [da cabeça], é para sair. Anda meu lindo, vai descansar. Ele é um miúdo, não nos podemos esquecer, está cansado." Quem comenta é Andreza Neto, 40 anos, do mesmo grupo etário da mãe do jogador. Viu crescer o Bulo, alcunha pela qual o futebolista é conhecido no bairro.

Veem o jogo entre caracóis e cervejas no café Papagaio, próximo do campo do Águias da Musgueira. "Mas o Renato não é da Musgueira, é daqui, da Alta de Lisboa, que antigamente se chamava Quinta Grande", esclarece Elisabete Natálio, 42 anos. O rapaz saiu sem marcar o golo desejado, mas cumpriu esse sonho Éder, quem o substituiu. Agora, só querem que Renato "cresça ainda mais no Bayern". E que se cumpra a mensagem que trazem nas T-shirts brancas, mandaram fazer 52, "só para a família e amigos de Renato". E dizem: "Estejas sempre iluminado."

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