"Fiquei sem carro, vou fazer o quê? Dançar"

Um dia depois do incêndio que destruiu 422 veículos, o Andanças continua a sua programação. "Tudo tranquilo, sem stress", pelo menos para a maioria dos festivaleiros.

Quando Carolina chega à aula de danças brasileiras já estão todos a dançar ao som de Marisa Monte, seguindo as instruções do professor Junior Valenski. Carolina atira a mochila e os chinelos para um canto e entra na roda. Dois passos em frente, dois passos para trás, gira com as mãos no ar. Toda a gente quase ao mesmo tempo. Quase. "Se não fizer certo não faz mal, vamos tentando", incentiva o brasileiro através do microfone. O calor aperta mas de vez em quando sentem-se uns borrifos frescos na cara. Carolina tem facilidade em entrar no ritmo. "Gosto muito de dançar", conta, no intervalo da aula, para beber uma água. "Para quem gosta de dançar, o Andanças é o paraíso." E nem o calor nem o incêndio que na quarta-feira destruiu mais de 400 carros num dos parque de estacionamento fizeram os festivaleiros desistir.

"Não sabemos quantas pessoas foram embora por causa do incêndio e também não conseguimos saber com exatidão quantas pessoas estão aqui hoje", diz Catarina Serrazina, da Pé de Xumbo, organizadora do festival que existe desde 1996. O Andanças dura uma semana - de 1 a 7 de agosto - e todos os dias há pessoas a entrar e a sair. Pode-se comprar bilhetes para um dia ou para dois ou para mais. E à entrada o controlo das pulseiras não é eletrónico, por isso as contas não são exatas. "Esperávamos 40 mil pessoas, é provável que por causa do incêndio sejam menos."

Na quarta-feira à tarde viveram-se horas difíceis. "Estava na tenda e de repente começámos a ver um fumo negro. Quando vi o local em que o fogo aconteceu, percebi logo que o meu carro tinha sido um dos afetados", conta Waty Barbosa, professor de danças cabo-verdianas que há 18 anos dá aulas no Andanças. "Tínhamos instrumentos na carrinha e outro material. Havia pessoas que tinham deixado roupas ou o computador." Waty não parece muito perturbado. "Vou fazer o quê? Dançar, claro", ri-se, sentando-se numa esplanada, bebendo uma cidra fresca pelo seu púcaro. "Tenho seguro contra todos os riscos, só posso esperar. Vou ficar até ao fim, como sempre fico, e depois logo se vê como é que volto para casa."

Uma viola no meio do caos

Assim que foi acionado o plano de emergência, todas as pessoas foram levadas para o lado oposto da barragem. "Toda a gente manteve a calma. Logo alguém começou a cantar, havia uma viola aqui, um acordeão ali, e começaram a surgir pequenos bailes", conta Antonella. Depois a organização distribuiu alguns alimentos e assim que possível todos voltaram para as suas tendas e as atividades foram retomadas. "Neste momento, temos duas prioridades: continuar a programação e ajudar as pessoas que foram mais diretamente afetadas", explica Catarina Serrazina. Foi criada uma comissão de crise que recolheu as identificações e os contactos dos proprietários dos veículos atingidos e tenta resolver os problemas mais urgentes. As câmaras de Castelo de Vide e de Nisa disponibilizaram-se a garantir o transporte a todos os que ficaram sem viatura, embora, como aquele parque foi usado pelas primeiras pessoas a chegar ao festival (artistas, voluntários e outros trabalhadores), muitos deles só vão precisar dessa ajuda no final do evento. Ontem, durante todo o dia, a GNR manteve a zona incendiada interdita enquanto fazia a sua peritagem. Só depois poderão entrar em ação as seguradoras.

Um mar de carros cinzentos, destruídos, pode ser desolador para quem chega ao Andanças, mas dentro do recinto a vida decorre normalmente. Junto ao riacho, as crianças brincam. Os pais estendem-se na toalha. Há quem durma a sesta, há quem leia. Todos com os seus púcaros pendurados à cintura, porque no Andanças não há copos - os púcaros custam um euro e podem ser devolvidos no final.

"Tudo tranquilo, sem stress"

Um pequeno paraíso à sombra. Nuno e Sandra descansam com os três filhos - Ani de 2 anos, Noa de 7 e Ema de 10. "Isto não é bem um festival, é um encontro, uma partilha", diz o pai. "Para os miúdos é fabuloso, eles adoram." Há até uma casinha de madeira, fresca e silenciosa, onde os bebés podem dormir a sesta. "Cocó Cacá, a galinha foi-se embora e o galinho ficou só" - esta é a voz de Sofia, dos Contabandistas, a cantar a música do galo namoradeiro, chamando os pequenos para o palco ali ao lado. Sofia, madeirense, contadora de histórias, há doze anos que vem ao festival: "O melhor do Andanças? A liberdade. A conexão com a natureza. Este coletivo harmonioso."

"Já viu como os miúdos andam aqui à vontade?", pergunta André, apontando para Catarina, nem 2 anos tem e lá vai ela de pés descalços, com a pulseira vermelha no tornozelo, passeando por entre estranhos. Antonella acrescenta: "Podemos deixar as coisas onde quisermos, ninguém rouba nada. O espírito do Andanças é este. Tudo tranquilo, sem stress." A ligação à natureza foi algo que o festival ganhou quando, há quatro anos, se mudou para a barragem de Póvoa e Meada, em Castelo de Vide. As árvores, o riacho, os recantos encontrados com almofadas, o campismo, tudo melhorou.

Há atividades para todos os gostos - desde fazer pão no forno a lenha a receber massagens. Enquanto um grupo dança o baião brasileiro, mais à frente há outro palco onde o acordeão marca os compassos das danças folclóricas portuguesas e noutro procura-se acertar os passos ao ritmo de Itália. Maria do Céu e Graça, amigas sexagenárias, percorrem o recinto à procura da dança do ventre: "Deslocadas, nós? Não. Estamos a adorar." Têm uma autocaravana que lhes proporciona algum conforto, mas quanto ao resto desfrutam do festival tanto quanto os jovens de rastas no cabelo e piercing no nariz. "Já fizemos danças africanas, orientais, portuguesas... E a meditação e o yoga ao final do dia." Num dos palcos, Catarina Ascensão orienta um workshop de "conexão e escuta no baile". O desafio é esquecer o acordeão do palco ao lado e meditar um pouco. "Abram os olhos e abracem a pessoa ao vosso lado. Sintam o abraço", diz Catarina. Os abraços acontecem. "Não vão ficar para o baile logo à noite", pergunta Waty. "Vamos pôr música e vai ser muito animado. É sempre."

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