Comecemos pelo fim, ou seja, pela sobremesa. Depois de virem à mesa do restaurante Tenro by Digby vários pratos da responsabilidade do chef João Figueirinhas, e que daremos conta a seguir, chega à mesa uma taça com queijo de cabra. A recomendação do chef, feita naquele interlúdio entre o prato de carne e o “e agora?”, foi recebida por quem escreve este texto com desconfiança. Uma sugestão arriscada que remeteu de imediato para a ideia de uma sobremesa pesada com um sabor que nos iria acompanhar para o resto do dia e que iria “adulterar” as memórias gastronómicas do que foi comido momentos antes. Mas nada disso aconteceu..O que o chef preparou não foi um queijo de cabra na forma tradicional que o leitor certamente imagina, mas sim uma espuma do queijo polvilhada de hibiscus com um mousse/gel de figo na base (7 euros). E apesar de não ter “apagado” o que antes esteve na mesa, abriu a curiosidade sobre como pensa a cozinha este jovem chef, nascido em Vila Nova de Gaia e que está há um par de anos à frente da cozinha do Tenro by Digby, o restaurante do hotel Torel Avantgarde, no Porto..Sentados à mesa, a conversa começou pela dita sobremesa, e deu para perceber que é sinónimo daquilo que Geirinhas gosta de fazer na cozinha: arrojada e com memórias dos locais por onde passou. “Criei esta sobremesa porque o chef Vasco [Coelho dos Santos], quando estava no [restaurante] Fava Tonka, tinha um prato de queijo de cabra grelhado com figo fresco, que era incrível. Tenho muitos apontamentos assim, mas não copio nada, dou sim o meu toque”..Aproveitamos a conversa para falar noutro prato que há minutos tinha estado naquela mesma mesa: um tamboril com molho de caldeirada (27 euros) que, segundo o chef, é um dos pratos mais pedidos do restaurante. “Na próxima carta vou mudar esse prato, vai continuar com a caldeirada, mas vou fazê-la à moda de Aveiro, com enguia e açafrão”, revela. E esclarece: o molho de caldeirada é feito com uma caldeirada “normal”, “como está no livro de receitas da Maria de Lourdes Modesto que para mim é uma bíblia”. E dá logo outro exemplo do que faz no prato de raia grelhada e Bulhão Pato (35 euros): “Abro as amêijoas como se fosse para fazer um bulhão pato, retiro-as e aproveito o suco para cozer o arroz, que depois é finalizado com coentros e sumo de limão, que é a característica do bulhão pato, para mim”..Ainda a assinalar há uma das entradas, Sardinha Braseada (11 euros), e outro prato, garoupa com Migas de Feijão e Kale (36 euros), “que leva um milho Pil-Pil”, que se deve destacar para uma possível escolha por quem lê este texto e se vai sentar no restaurante do hotel boutique Torel Avantgarde. .Percurso até à tasca.Antes de tomar conta da comida que se serve no Digby, João Figueirinhas passou pela cozinha do hotel The Yeatman, em Gaia. Por lá esteve no restaurante, depois foi responsável pelos pequenos-almoços. Depois, foi seguir, como diz, o exemplo de muitos chefs portugueses e tentar a sorte fora do país. Londres foi a cidade escolhida e onde conseguiu um lugar na cozinha do restaurante com estrela Michelin Galvin at Windows (que encerrou recentemente). Sublinha o gozo que lhe está a dar o projeto atual, mas não deixa de pensar no futuro, talvez ainda distante. “O meu sonho um dia é ter um tasco de comida boa”, confessa. Enquanto isso, podemos conhecer a sua criatividade nos pratos do Tenro by Digby. .O chef João Figueirinhas..Encerra-se este texto como começou, pela sobremesa. Para quem não quiser mesmo experimentar o queijo de cabra, há outra opção, um pouco mais “convencional”: quinoa com mel e iogurte (7 euros), e sim é para uma sobremesa e não para um pequeno-almoço, como se poderia pensar. Chegou à mesa acompanhado por um Moscatel do Douro, de 10 anos - e que fez todo o sentido, ou não estivessemos num restaurante com vista privilegiada para o rio.